Skip to main content

Full text of "Correspondencia epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Camillo Castello Branco : escripta durante os dous ultimos annos da vida do illustre orador"

See other formats


nun 

Cada  vol.  1 


I.    CoiMf 

III.  A  Eng^c 
—  V.  O  Eoiq 
iieiílior  fio 
IX,  A  llulli 
XII.  Corres 
de  Castro  4 


A  5C 


RÔlG1;8» 


-^ 


I  ARBOR  I 


Presenteei  to  the 

LIBRARY  ofíhe 

UNIVERSITY  OF  TORONTO 

by 

Professor 

Ralph  G.  Stanton 


ANCQ 

6  320 


nana.  — 
ETelizes. 
-Til.  O 
leina*  — 
—  XI  e 
•  Tieira 


\  Tartarin) 


&8« 

rol.  de  200 


ie  160  pag. 
;,  l  vol.  de 


N.«  1  —  Po: 
1  vol,  de  17B 

N.»2-D. 

N.»3  — Ma 
paginas. 

N.»  4  -  Sai 

N.-5  — Ne 

N.«6  -O     . 
210  paginas. 

N.»  7  —  Jettatura,  He  Theophile  Gauthier,  1  vol.  de  170  paginas. 

N.*  8  —  Casa  com  escriptos,  de  Carlos  Dickens,  1  vol.  de  160 

j5,o  *9  _  o  canteiro  de  Saint-Point,  de  Mamartine,  1  vol.  de  180 

Rosa  e  Ninette,  de  A.  Daudet. 

Primeiro  amor,  de  Ivan  Tourgueneff,  1  vol.  de  160  pag. 
Peccado  mortal,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  170  pag. 
O  Judeu,  rí»'  Henry  Murger,  1  vol.  do  160  paginas. 
O  tanoeiro  Nuremberg,  de  Hoffmann,  1  vol,  de  170  pag. 
Dinheiro  maldito  (Polikouchka).  costumes  russos,  pelo 

T.;Í8tOÍ. 

Vida  phantastica,  por  Mèry,  1  volume  de  170  pn^. 
O  padre  Daniel,  de  André  Theuriet  1  vol.  de  160  pag. 
Um  coração  simples,  de  Gustave  Flaubert,  l  vol.  de 

Yan,  (\o  Jenn  Rameau,  1  volume  de  170  pap. 

O  tio  Scipião,  de  André  Theuriet,  1  vol.  de  1%  pag. 

Diário  de  uma  mulher,  de  Octávio  Feuillet,  1  vol.  de 

O  crime  do  juiz   de  Paulo  Féval,  1  vol.  de  170  pwg. 

A  Inundação,  de  Emílio  Zola,  1  vol.  de  187  pag. 

Os  Rantzau.  de  Erckman  Chatrian,  1  vol.  do  200  pag. 

LISBOA 
Parceria  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

(LIVRARIA    editora) 
50,  52  —  Rua    Augusta  —  52,  54 


paginas. 

N.»  " 

10- 

N.« 

11- 

N.» 

12- 

N.« 

13- 

N.» 

14- 

N.« 

15- 

Conde 

Leon  ' 

N.' 

16- 

N.« 

17- 

N.« 

18- 

170  paginas. 

N.« 

19- 

N.' 

'^0- 

N.' 

21- 

200  paginas. 
N.»22- 

N.' 

23- 

N. 

•24- 

CoUecção  ANTÓNIO  MARIA  PEREIRA 

VULGARISAÇAO  DOS  MELHORES  LIVROS 

DAS 

LITTERATDRAS  PORTOGDEZA  E  ESTRANGEIRAS 


Romances,  Contos,  Viagens,  Historia,  etc,  etc. 

Volumes  in-8.°  de  160  a  200  paginas,  em  corpo  8  oa  10,  excellente  ediç&o, 
em  óptimo  papel.  Preço  de  cada  volume  200  réis  brochado, 
ou  300  réia  elegantemente  encadernado  em  percalina.  Para  as  proTincias 
accresce  o  porte  do  correio 

Voliimeis  piil>liea.clois 

ti.*  1  —  SVwíesM  á  Beirar  Mar,  romance  de  Pinheiro  Chagas,  1  Tol. 
>í.<>  2  —  Contos  ao  Luar,  por  Júlio  Cetar  Machado,  1  vol. 
N."  3  —  Cármen,  romance  de  Merimée,  traducçâo  de  Mariano  Levei,  1  vol. 
N.o  4  _  ^  Fetra  d*  Paris,  por  Iriel,  1  vol.  (2.»  edlçSo). 
M."  5—0  direito  dos  filhos,  George  Obuet,  1  vol. 
N.o  6  —John  BuU  e  a  sua  Uha,  traducçâo  de  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 
N.«  7  —  O  juramento  da  duqueza,  romance  histórico  por  P.  Chagas,  1  vol. 
N.»  8  —Â  lenda  da  mem-noííe,  romance  phantastico,  por  P.  Chagas,  1  voL 
N."   9 — A  jóia  do  viee-rei,  romance  histórico,  por  Pinheiro  Chagas,  1  vol. 
N.*   10—  Vinte  annos  de  vida  litteraria,  por  Alberto  Pimentel,  1  vol. 
N."    11 — Honra  d'artiata,  romance  de  Octávio  Peuillet,  traducçâo  de  Pi- 
nheiro Chagas,  1  vol. 
N.»  12—  0«  meus  amores,  contos  e  bailadas,  po    Trindade  Coelho,  1  vol. 
N.*»  13  e  IA  — A  aventura  d'um  polaeoy  por  Victor  Cherbnliec,  tradueçio 

de  Maria  Amália  Vaz  de  Carvalho,  2  vol. 
N.'  15—  Os  contos  do  tio  Joaquim,  por  R.  Paganino,  1  vol. 
N."  16  — ^í  batalhas  da  vida,  contos  por  Guiomar  Torresão,  1  vol. 
N.<*  17  —Noites  de  Cintra,  romance  por  Alberto  Pimentel,  1  vol. 
N.°*  18  e  19— Em  segredo,  romance,  trad.  de  Margarida  de  Sequeira,  S  voU 

N.*'  20  e  21  —  ^  irmã  da  Caridade,  por  Emilio  Castellar,  traducçâo  de  L. 
Q.  Chaves  2    vol 

N.«*  22  —  ARgaUias  de  historia  portuguexa,  por  Pinheiro  Chagas,]!  vol. 

N.*  23  —  A  Cruz  de  Brilhantes,  por  A.  Campos,  1  vol. 

N.»  M— Contos,  de  Affonao  Botelho,  1  vol. 

N.*  25  —  Contos  phantastícos,  por  Theophilo  Braga,  1  vol. 

N.<*  26  — O  mysterio  da  estrada  de  Cintra,  por  Eça  de  Queiroz  e  fiamalho 
Ortigão,  1  vol. 

íí.*  27  —O  naufrágio  de  Vicente  Sodri   rom.  histórico  de  P.  Chagas    1  voU 

N.»  28  —  FWoiroda,  por  Alfredo  Mesquita  .  1  vol. 

N.»  29  —  O  Bacharel  Ramires ,  por  Cândido  Figueiredo,  1  rol. 

ti."  30  e  31  —Amor  á  antiga  romance  de  Caiei,  2  vol. 

N.»  82  — .d«  Netas  do  Padre  Eterno,  por  Alberto  Pimentel. 

N.«  33  —  Contos,  de  Pedro  Ivo,  1  vol. 

N.*  34—0  correio  de  Lyão,  por  Pierre  Zaceone. 

N.»  35 -Fiáa  de  lAshoa,  por  Alberto  Pimentel. 

N.o  36  —  Historias  de  Pradea,  por  Lino  d'AssumpçIo. 

N."  87  —  Obrcu  primeu,  por  Chateaubriand. 

N.«  38—0  Exilado,  romance  histórico,  por  Manrioia  C.  de  Figueiredo. 

N.'  39  —  Poema  da  Mocidade,  por  Pinheiro  Chagas. 

N.°  40  e  41  — A  Vida  em  Lisboa,  por  Júlio  César  Machado. 

N.*  42  e  4,3  — Espelho  de  Portuguezes,  por  Alberto  PimenteL 

N  *  44  —  A   Fada  d'Auteuil,  por  Ponson   du  Terrail,  tradncf&o  de  Pi- 
nheiro Chagas. 

^•^  45  —  .4  Volta  do  Chiado,  por  Beldemonio  (Eduardo  de  Barros  Lobot. 

N.°  46—  Séea  e  Mica,  por  Lino  d'Assnmpç&o. 

N.**  47  —  Ninho.de  guincho,  por  Alberto  Pimentel. 


Requisições  á  Parceria  António  Maria  Pereira 

Am  ItvMto,  60,  BÊ,  64—  LIBBOÂ 


COLLECÇAO  ECONÓMICA 

Volumes  de  lD-i6.^  de  240  a  820 

ROMANCES  DOSf MELHORES  AUCTORES 
A  iOO  réis  o  volome  (pelo  correio  120  réii) 

*  N.*  1  —  Aventuras  prodigiosas  de  Tartarin  de  Tarascon,  se- 
guidas de  Tartarin  nos  Al^es;  por  A.  Daudet,. 

•  N.»  2  —  Pedro  e  João,  por  Guy  de  Maupassant. 

•  N.*  8  —  Sérgio  Panine,  por  Jorge  Ohnet. 
N.»  4  —  O  Sonho,  por  Emilio  Zola. 

N."  5  —  Soror  Philomena,  por  Edmond  e  Jules  Gonconrt. 
N.«  tí  — O  medico  assassino,  por  Octávio  Féré. 
N/  7  —  Os  milhões  vergonhosos,  por  Heitor  Malot. 

*  N.»  8  —  O  amigo  Fritz,  por  Erckmman  Chatrian. 
N.»  9  —  V(mando,  por  Guy  de  Maupassant. 

•N.*  10— Um  romance  de  mulher,  por  Pierre  Mael 
•N.»  11  — Vontade,  por  Jorge  Ohnet. 
•N/  12—0  Nababo,  por  A.  Daudet. 

*  N.»  13  —  Um  coração  de  mulher,  por  Paul  Bourget. 

*  N.»  14  — Beatriz,  por  Rider  Haggard. 

*  N.*  15  —  O  crime,  por  Gabriel  d^Annunzio. 

•  N.*  16  —  Lise  Fleuron,  por  Ohnet. 

N  •  17  —  Os  dois  rivaes,  por  Armand  Lapointe. 

N.*  18  —  O  ultimo  amor,  por  Jorge  Ohnet 

N.«  19  — Um  Búlgaro,  por  Ivan  Tourgueneff. 

N.*  20  —  Memorias  d'um  suicida,  por  Mazime  du  Camp. 

N.*  21  —  Forte  como  a  morte,  por  Guy  de  Maupassant. 

•  N.«  22  —  A  alma  de  Pedro,  de  J.  Ohnet 
N.»  23  —  Camilla,  de  Guérin-Ginisty 

N.»  24  — Trahida,  de  Maxime  Pa«. 

N.*  2õ  —  Sua  Magestade  o  Amor,  por  A.  Belot. 

N.*  26  — Magdalena  Férat,  por  Emilio  Zola. 

N.*  27  —  Os  Reis  no  exilio,  por  A.  Daudet 

N.«  28  — Divida  de  ódio,  por  Jorge  Ohnet 

N.»  29  —  Mentiras,  por  Paul  Bourget. 

N.*  30  —  Marinheiro,  por  Pierre  Loti. 

N.«  31  —A  montanha  do  Diabo,  por  Eugénio  Sue. 

N/  32  — A  Evangelista,  por  A.  Daudet. 

•  N.«  33  —  Aranha  Vermelha,  por  R.  de  Pont  Jest. 
N."  34  e  35  —  Ódio  antigo,  por  Jorge  Ohnet. 

N.»  36  —  Parisienses !  . .  romance,  por  H.  Davenel. 

N.»  37  — Ao  entardecer!...  rom.,  por  Iveling  Ramband. 

N.«  38- A  confissão  de  Carolina,  romance. 

N.»  39  — Um  casamento  no  mosteiro,  por  Alfredo  Assolland. 

N.»  40  —  Os  Parias,  original   de   Francisco  da  Rocha  Martin*. 

N.*  41  —  0  abbade  de  Faviôres,  romance,  por  J.  Ohnet. 

N.*  42  — A  agonia  de  uma  alma,  romance,  por  Ossip  Fchubin. 

N.»  43  •<- Memorias  d'um  burro,  por  Madame  Ségur. 

N.*  44  —  A  nihllista,  por  CatuUe  Mendes. 

N.»  45  —  0  grande  Industrial,  por  George  Ohnet 

N.«  46— Morta  damor,  por  Albert  Delpit. 

N.»  47— João  Sbogar,  por  Carlos  Nadier. 

N.»  48— Viagem  sentimental,  por  Steme. 

M.*  49—0  nulhão  do  tio  Raclot,  por  Emile  Richebourg. 

Todos  08  vol.  oom  este  signal  *  estio  esgotados  maivlo  ser  re- 
impressos. 


OBRAS 

DE 

CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 

EDIÇÃO   POPULAR 

:xii 
CORRESPONDÊNCIA  EPISTOLAR 


VOLUMES    PUBLICADOS 


I  —  Coisas  espantosas. 
II  — As  três  irmans. 
III  —  A  engeitada. 
IV —  Doze  casamentos  felizes 
V  — O  esqueleto. 
VI  — O  bem  e  o  mal. 
VII  — O  senhor  do  paço  de  Ninães. 
V III  —  Anathema. 
IX  —  A  mulher  fatal. 
X  —  Cavar  em  ruinas. 
XI  e  XII  —  Correspondência  epistolar. 


CORRESPONDENCrA 

EPISTOLAR 

ENTRE 

mi  imm  mu  i  mm 

CAMILLO  CASTELLO  BRANCO 


RSCRIPTA  DURANTE  OS  DOUS  ÚLTIMOS  ANNOS  DA  VIDA 
DO   ILLUSTRE   ORADOR 


^rOIl.XJ3VCE     II 


SEGUNDA  EDIÇÃO 


LISBOA 

Parceria  António  Maria  Pereira  —  Livraria  Editora 

Rua  Augusta  —  5o,  52  e  54 

1903 


LISBOA 

Typographia  da  Parceria  António  Maria  Pereira 
Rua  dos  Correeiros,  70  e  72, 1.** 


ADVERTÊNCIA 


Assim  nas  cartas  de  Vieira  de  Castro  como 
nas  que  vão  seguir,  nem  ousei  substituir  pala- 
vra do  meu  amigo,  nem  minha,  de  modo,  se- 
quer, a  melhorar  a  forma.  O  que  me  pareceu 
desconveniente,  risquei.  Gomo  testemunhas 
d'esta  verdade,  oífereço  o  editor  e  composito- 
res d'estes  livros,  pois  que  lhes  entreguei  os 
manuscriptos  originaes. 

Ha,  nas  minhas  cartas,  um  predicado  muito 
insistente,  senão  enfadonho.  E'  o  repetido  quei- 
xar-me  das  minhas  enfermidades.  Aos  doentes 
não  peço  desculpa ;  —  que  esses  bem  sabem 
como  nós  somos,  os  valetudinários.  Aos  que 
tem  saúde  peço  indulgência,  em  paga  do  bene- 
ficio que  Deus  lhes  dispensa. 

Diante  de  mim  tenho  vinte  e  duas  cartas  do 


6  Correspondência  epistolar 

meu  amigo   e   trinta  e  seis  minhas  que  vou 
queimar. 

São  apreciações  de  cousas  e  pessoas  mais 
ou  menos  implicadas  e  compartes  na  catas- 
trophe  de  8  de  maio;  ou  então  juizos  e  con- 
ceitos de  inimigos  e  falsos  amigos  de  Vieira  de 
Castro,  aos  quaes  elle  perdoaria,  na  hora  do 
trespasse,  se  os  podesse  vêr  entre  as  alegrias 
do  passado  e  os  pavores  da  morte. 

Quando  eu  lhe  escrevia  as  primeiras  cartas, 
apontei  alentos  e  lenitivos  tendentes  a  espan- 
car o  desafogo  do  suicidio,  —  não  o  suicídio 
do  remorso  —  que,  se  elle  podesse  transigir 
com  isso,  teria  transigido  com  a  deshonra ;  — 
mas  o  suicidio  motivado  pelo  approbrio  com 
que  as  calumnias  de  fora  e  impressas  lhe  ati- 
ravam com  a  sua  lama  para  cima  do  coração 
espedaçado.  Dei-lhe  esperanças,  que  eu  não  ti- 
nha, na  absolvição,  usando  systema  diverso 
das  pessoas  que  iam  inutilmente  repetir-lhe  á 
cadêa  as  diffamações  das  salas  e  dos  botequins. 
Quando  mais  nada  lograssem  as  minhas  des- 
proveitosas  cartas,  vingavam  arrancal-o  de  si 
próprio  em  quanto  me  respondia,  e  facilitavam- 
Ihe  a  desoppressão  das  lagrimas. 

Recordo- me  bem  que,  n'aquelle  tempo,  os 
meus  soífrimentos  eram  tão  acerbos  que  mui- 
tas vezes  pendi  a  cabeça  congestionada  sobre 
esses  papeis  em  que  eu  punha  umas  palavras 


Correspondência  epistolar  7 

arraiadas  de  esperança,  sendo  negríssima  na 
minha  alma  a  intuição  do  futuro  de  Vieira  de 
Castro. 

Eu  sabia  que  elle  estava  perdido  para  a 
pátria,  para  a  íamilia  e  para  os  amigos;  por 
que  na  minha  vida  sobejava  a  experiência  que 
a  infelicidade  nos  dá  em  troca  da  innocencia 
que  lhe  damos.  Vieira  de  Castro  fiava-se  na 
dignidade  das  maiorias,  em  quanto  que  eu  sa- 
bia que  a  honra  da  pequena  parcella  dos  homens 
briosos  havia  de  ser  absorvida  no  tumultuar 
dos  muitos  em  cujo  rosto  elle  estampara  uma 
injuria  involuntária.  Confundiram  ahi  humani- 
dade com  corrupção.  Kallaram  na  inviolabili- 
dade da  vida  humana ;  e  absolveram  pouco 
antes  um  réo  que,  fria  e  pensadamente,  matara 
em  duello  um  homem  honrado  e  útil  á  pátria, 
depois  de  o  haver  insultado  publicamente.  E 
a  José  Cardoso  Vieira  de  Castro  que  tirara  a 
vida  infamada  á  esposa,  porqne  se  viu  mor- 
talmente ferido  no  coração  extremoso  de  amor 
por  ella,  degradaram-no  por  quinze  annos, 
como  se  fosse  necessário  mais  que  um  para  o 
matarem. 

Lá  estás  na  presença  de  Deus,  meu  íilho !... 
Não  podias  esperar,  n'esta  vida,  outro  bem, 
nem  outro  refugio  na  tua  suprema  desventura. 


CARTAS 


DE 


CABILLO  CASTELLO  BIAICO 


JOSÉ  CARDOSO  VIEIRA  DE  CASTRO 


CARTAS 


Meu  mnigo. 

Depois  de  teus  irmãos,  sou  um  dos  que  maior 
abalo  soífrcram  com  a  noticia  da  tua  incomparável 
angustia.  Sinto-tc  em  minha  alma  quasi  desde  a  tua 
infância.  Vi-te  entrar  no  mundo,  c  não  pude  ainda 
descobrir  duas  horas  de  verdadeira  alegria  e  paz  na 
tua  existência.  Que  fataes  excepções  assignalou  a 
Providencia  na  tuaorganisação,  meu  querido  amigo! 

Que  te  hei  eu  dizer  hoje  ?  Não  sei.  Mas  o  que 
eu  não  posso  é  calar-me.  Peço-te  coragem  !  coragem 
— que  eu  receio  que  succumbas  perante  ti  mesmo. 
A  opinião  publica  espera  vêr-te  abatido  e  aniquilado 
pela  razão  fria.  Os  teus  amigos  tem  obrigação  de 
te  ampararem,  de  te  defenderem  de  ti  próprio.  Viei- 
ra de  Castro,  não  sejas  menos  forte  do  que  o  foste 
no  desforço  da  tua  dignidade.  Essa  salvou-se  :  mas 
o  peor  é  o  coração  despedaçado. 

Choro  comtigo  as  saudades  do  teu  passado. 

Adeus,  meu  filho. 

Teu 

Camillo, 


12  Correspondência  epistolar 


Meu  querido  Vieira  de  Castro. 

Sahi  de  casa  com  tenção  de  ir  vêr-te  \  mas  che- 
gando ao  Porto  já  adoentado,  pcorei.  Alguns  dias 
estive  esperando  melhoras.  Tive  de  desistir  e  retro- 
ceder. Hoje  me  sinto  menos  opprimido.  Se  assim 
me  for  restaurando,  irei  logo  que  possa. 

Parecia-me  que  a  minha  companhia  de  alguns 
dias  te  não  seria  penosa.  Sei  que  diante  de  mim  fal- 
larás  e  chorarás  sem  pejo  nem  constrangimento. 

Figura-se-me  que  se  te  não  dá  o  pensar  da  opi- 
nião publica  sobre  o  que  ha  passado  na  tua  vida. 
Gomo  has  de  tu  sahir  da  tua  immensa  dor  para  ver  o 
que  vae  cá  fora  no  espirito  dos  outros  ?  Não  obs- 
tante, dir-te-hei,  filho,  que  se  vai  operando  um  re- 
viramento a  teu  favor,  mas  por  maneira  que  os  jui- 
zes não  sabiam  a  razão  por  que  execravam  nem  sa- 
bem a  razão  porque  applaudem.  Affligia-me  a  in- 
certeza do  teu  julgamento  \  mas  pessoas  vindas  de 
Lisboa  esperam  a  absolvição,  umas  fundadas  na  lei, 
outras  no  dever,  e  muitas  no  que  se  deve  a  ti  e  se 
recusaria  a  outros.  Eu  espero  que  sejas  absolvido, 
porque  a  tua  expiação  já  era  enormissima,  e  a^é 
não  correspondia  á  culpa,  ainda  antes  de  existir  o 
triste  successo.  Eu  vi  envelhecer  a  tua  nobre  alma 
em  poucas  horas.  Tenho-te  visitado  n'essas  noites 
de  cárcere,  e  chorado  com  olhos  postos  nos  teus 
cabellos  brancos  aos  trinta  e  um  annos. 

Peço-te  que  venham  para  aqui  algum  tempo,  se, 
como  me  asseveram,  o  teu  julgamento  se  não  de- 
morar além  de  trinta  dias.  Comprehendo  que  a  so- 
lidão, se  por  um  lado  te  ha  de  ser  molesta,  por  ou- 
tro poderá  ir  operando  um  saudável  renascimento 


Correspondência  epistolar  i3 

das  faculdades  davida.  Meu  José  Cardoso,  sê  agora 
homem,  para  que  se  não  infira  do  quebrantamento 
a  injustiça  do  teu  pundonor. 
Aceita  em  bem  tudo  o  que  te  disser  o 

Teu 

Camillo  Castello  Branco, 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Dizem  os  periódicos  que  vens  para  o  Porto.  Bem 
o  desejo  para  poder  vêr-te  mais  a  miúdo,  e  porque 
me  parece  aquellajcasa,  onde  eu  passei  38o  dias, 
mais  alegre  e  allumiada  do  que  essa.  Além  de  que, 
tens  alli  os  teu  irmãos  e  talvez  mais  sinceros  ami- 
gos, se  os  ha  n'alguma  parte.  A  mim  me  parece 
que  a  falta  d'elle  atravancou  o  caminho  por  onde 
o  teu  infortúnio  poderia  ter  sahido  menos  desgraça- 
damente. 

Não  posso  applaudir  o  extremo  em  que  te  julgas, 
morto  para  o  espirito,  meu  amigo.  Renascerás  ou 
natural  ou  providencialmente.  O  teu  desastre  não 
é  original,  nem  o  centésimo  exemplo.  Homicidas 
menos  e  incomparavelmente  menos  offendidos  res- 
tauram-se,  esquecem-se,  vivem,  resurgem  para  os 
gozos  do  espirito,  e  não  se  accusam  da  enormidade 
do  crime  pela  enormidade  do  desalento.  Amaste-a. 
Eu  sei  que  sim,  porque  sei  como  a  tua  alma  é  feita. 
Cegou-te  a  deshonra.  Não  podeste  com  o  oppro- 
brio  recebido,  e  com  o  que  havia  de  seguir-se 
no  decurso  da  vida]  de  ambos.  Mataste  em  ti  me- 
tade da  vida ;   a  outra  é^  necessário  que    subsista 


J4  Correspondência  epistolar 

amparada  no  esteio  da  honra.  Dize-me  cá,  meu  fi- 
lho: um  homem,  levemente  oífendido  por  um  ami- 
go iudiscreto,  vai  ao  campo  da  honra,  e  mata-o. 
Exemplo :  Girardin  e  Armand  Garrei.  Eu  queria 
a  tua  angustia  e  não  a  do  jornalista  que  matou.  Tu 
és  o  homem  que  valias  a  paixão  da  mais  estremada  e 
extremosa  mulher.  Estavas  á  primeira  luz  d'este  es- 
pectáculo social  para  mais  depressa  e  de  todos  ser 
visto  e  talvez  zombado  na  deshonra.  Tinhas  inimi- 
gos que  ant^s  te  queriam  ridiculo  que  vingado.  Não 
sei  dizer-te  que  praticaste  um  acto  para  exemplo ; 
mas  deste  o  exemplo  do  pundonor,  que  assombra 
a  sociedade,  porque  isto  aqui  é  um  continuado  tran- 
sigir da  deshonra  com  a  infâmia  sob  a  capa  de  hu- 
manidade. 

Vou-te  failando  com  demasiada  franqueza ;  entro 
por  de  mais  no  foro  da  tua  consciência ;  mas  tu 
soffre-me,  que  eu  hei  de  ser  d'hora  em  diante  mais 
teu  amigo  do  que  fui ;  nem  sei  onde  esteja  homem 
que  deva  merecer  maior  fervor  de  estima  d'aquel- 
les  que  o  amaram.  Estás  pobre !  Que  é  estar  po- 
bre ? 

E'  uma  condecoração  para  ti,  filho.  E'  a  lu:^  que 
Deus  deixou  ds  tuas  trevas;  dizes  santamente  o  que 
é  ser  pobre  na  tua  posição.  Pois  esta  vida  valerá 
bem  a  condemnação  de  a  estarmos  enfeitando  com 
um  pouco  de  ouro  para  tanta  dor,  para  nos  sentir- 
mos agonisar  entre  a  saudade  e  a  desesperação  ?  A 
quem  faltou  a  coragem  para  se  matar  conceda  Deus 
a  da  resignação.  Eu  não  peço  senão  uma  das  cou- 
sas, quando  me  vejo  e  não  me  encontro  senão  nos 
olhos  de  meus  filhos  que  estou  çreando  para  a  des- 
graça. Peço-te  que  não  desfalleças,  meu  querido 
amigo,  diante  do  futuro.  Tudo  resurgirá  em  ti:  me- 


Correspondência  epistolar  i5 

nos  a  felicidade.  Não  te  aterre  a  possibilidade  de  a 
desejares  debalde,  porque  a  não  desejarás.  Cum- 
pre-te  imaginar  que  tens  no  cofre,  onde  podias  ter 
a  fortuna,  somente  a  honra. 

Adeus,  meu  José  Cardoso.  Eu  ha  dez  dias  que 
passo  as  horas  a  contorcer-me  n'uma  nevralgia  que 
já  me  tem  posto  diante  dos  olhos  o  recurso  do  sui- 
cídio. 

Teu 

Camillo  Castello  Branco. 


Meu  filho. 

Pensa  em  tudo  que  possa  arrancar-te  de  ti  mes- 
mo. E'  natural  que  o  teu  espirito  seja  abalado  pe- 
las commoçõcs  religiosas.  Eu  senti-as  nas  desgra- 
ças medianas ;  mas  assim  que  eu  sentia  também  a 
authoridade  humana,  no  que  a  minha  alma  conce- 
bia de  superior  a  isto  que  nos  rodeia,  descria.  Tudo 
que  procede  do  homem,  ou  tem  a  sancção  ignoran- 
te ou  cavillosa  d'elle,  é  mentira.  Eu  da  religião  te- 
nho só  aproveitado  a  idéa  da  Providencia,  e  essa 
somente  onde  allumiou  a  civilisação  christã,  filha 
d'outras  civilisações,  preparadas  pelos  antecessores 
de  Jesus.  Onde  esta  luz  não  chegou,  a  Providencia 
não  sahiu  ainda  do  cháos  primitivo.  Onde  quer  que 
os  filhos  matam  os  pães  legalmente  quando  a  ve- 
lhice os  inutilisa,  a  Providencia  de  certo  espera  ma- 
nifestar-se  mediante  a  civilisação.  Isto  resvala-me 
no  atheismo ;  todavia,  eu  sei  que  tenho  erguido  as 
mãos  e  orado,  quando  já  vi  ***  moribunda.  Tu 
também  então  choraste.  E  sei  que  ao  pé  do  berço 
do  meu  Jorge  ameaçado  de  morte,  tenho  também 


i6  Correspondência  epistolar 

orado.  E  já  fui  cumprir  um  voto  a  um  Christo  com 
a  devoção  d'um  asceta  ou  com  a  boçal  superstição 
d'um  cretino.  A  fé  nasce  na  paixão  do  desgraçado. 
As  consolações  sentem-se,  a  alma  desopprime-se. 
A  manifestação  d'uma  misericórdia  sobre-humana  é 
certíssima.  Se  alguma  hora  me  commoveu  o  pensar 
no  que  pôde  a  influencia  da  piedade  sobre  os  que 
soffrem,  nunca  tanto  como  hoje,  vendo  que  em  ti 
se  está  operando  a  transformação  que  Deus  opera 
nas  almas  onde  a  idéa  da  justiça  lucta  com  a  da 
culpa.  Bem.  Acceita  esse  beneficio,  e  não  feches  o 
coração  a  essa  aurora  d'um  novo  e  grande  dia  que 
ainda  has  de  viver.  A  felicidade  não  a  esperes  nem 
a  busques  áquem  do  abysmo  que  passaste.  A  maior 
que  se  deu  na  tua  vida  foi  esta  de  salvares  a  razão 
a  ponto  de  a  quereres  converter  em  bem  dos  infe- 
lizes. Converte  \  mas  não  mediante  o  sacerdócio. 
Não;  porque  não  vejo  no  padre  a  caracterisação 
grave  e  digna  da  tua  desgraça.  Eu  antes  te  queria, 
só  e  triste,  n'um  pobre  quarto  apostolando  pelo  li- 
vro a  moralisação,  do  que  revestido  das  vestes  re- 
ligiosas apostolando  sentimentos  que  os  Tertullianos 
e  Cyrillos  difficilmente  vingaram  insinuar  na  legisla- 
ção da  idade  media.  O  apostolado,  que  então  sur- 
tiu tão  pouco,  hoje  não  surtiria  nada  Alli  á  face  de 
Lacordaire  e  Raulica  está  a  Sodoma  de  Paris. 

Nunca  approvarei  que  te  ordenes ;  porque  sei  tan- 
to da  tua  alma  como  da  minha.  De  hoje  a  três  an- 
nos  terá  renascido  em  ti  uma  seiva  toda  nova.  Este 
horror  de  hoje  negrejará  na  tua  memoria ;  mas  a 
tua  alma  terá  assumido  a  força  que  nem  a  desgra- 
ça, nem  o  mundo,  nem  tu  poderão  sopesar.  Sei  que 
serás  um  coração  eternamente  em  luto  \  mas  por 
isso  mesmo  pensarás  como  um  bom  anjo  santifica- 


Correspondência  epistolar  ij 

do  pelas  affeições,  e  escreverás  com  bemfazeja  au- 
thoridade  sobre  tudo  que  for  das  dores  humanas. 
Este  apostolado,  e  só  este  é  o  que  eu  te  peço  que 
tenhas  sempre  como  a  puriíicar-se  n'essa  paixão 
sobre  que  as  lagrimas  já  poderam  muito.  Sabes  o 
que  eu  penso,  meu  filho  ?  Em  te  fazer  meu  compa- 
nheiro, meu  familiar,  meu  irmão^  se  teus  irmãos  te 
deixarem.  Os  meus  filhos  andarão  á  volta  de  ti, 
como  os  teus  sobrinhos.  Quando  os  accessos  de 
amargura  te  fizerem  repugnante  a  convivência,  nin- 
guém te  irá  dizer  qiie  não  soffras.  Tu  precisaste 
sempre  ser  amado  como  uma  criança.  A  solidão  de 
alguns  annos,  no  Ermo,  e  as  asperezas  que  te  irri- 
tavam a  mocidade,  carecida  do  amor  da  familia, 
não  te  deixaram  sentir  bem  a  fundo  a  iniciação  pa- 
ra homem.  Tu  não  tinhas  senão  coração  e  talento^ 
com  uns  assomos  de  honra  tocando  a  extrema  do 
orgulho.  D'esse  orgulho  honroso  é  que  ninguém 
te  precipitou.  No  momento  em  que  t'o  feriram,  fo- 
ra mister  que  te  houvesses  bandeado  com  a  corru- 
pção, para  que  a  esta  hora  não  sentisses  nem  o  fer- 
rete na  testa  nem  a  infâmia  na  consciência.  Prefe- 
riste esse  abysmo;  mas  espera,  meu  querido  filho, 
espera  que  o  que  em  ti  mataste  foi  somente  a  sa- 
tisfação da  vida.  Quando  quizeres  o  teu  talento,  a 
tau  grande  alma  t'o  dará.  Se  Deus  me  não  houves- 
se matado  em  mim  o  contentamento  desde  a  infân- 
cia, o  teu  infortúnio  bastaria  para  me  ennegrecer  as 
horas  todas. 

Estou  principiando  um  livro  sob  a  inspiração  da 
tau  desgraça.  *  Oxalá  que  o  leias  já  em  liberdade. 


^  Este  livro  que  principiou  com  o  titulo  Espelho  de  des- 
graçados^ só  appareceu  em  1878:  é  o  Livro  de  consolação. 

VOL.    II  í 


i8  Correspondência  epistolar 

Mas  se  ahi  estiveres,  quereria  eu  que  cada  jurado  o 
lesse,  c  lerá. 

Adeus,  meu  Vieira   de   Castro.    Hoje  vou  para 
Seide. 

Teu 

Camillo. 


Meti  querido  V.  de  Castro. 

Amanhã  te  escrevo  com  mais  espaço.  Estou  tão 
doente  que  á  uma  hora  da  noite  passada  dei  um  bei- 
jo no  meu  Jorge  cuidando  que  ia  morrer.  Foi  uma 
ameaça  de  congestão  cerebral,  que  mais  hoje  mais 
amanhã  me  fulmina.  Ás  cinco  da  manhã  senti  alli- 
vio;  mas  que  vale  isto? 

Até  amanhã.  Peço-te  que  te  dediques  a  algum 
trabalho,  seja  o  que  for.  Se  não  podes  pensar,  tras- 
lada. Lembra-te  que  eu,  na  primeira  noite  que  en- 
trei na  cadêa,  assim  que  me  correram  os  ferrolhos 
d'um  quarto  abafado,  comecei  a  traduzir  IJArt 
d'ètre  heureuXy  do  Droz. 

Teu  do  coração 

C  Castello  Branco, 


€\íeu  querido  amigo. 

Vou  dar-te  uma  idéa  rápida  do  meu  livro.  Não  é 
formal,  directa  e  exclusiva  justificação  da  catastro- 
phe.  Seria  intempestiva,  senão  prejudicial,  sobre  in- 
competente. Além  de  que,  não  tenho  os  elementos; 
sei  apenas  o  que  a  imprensa  revelou.  Deus  me  li- 
vre de  t'os  pedir.  Queria  sabel-os;  mas  não  de  ti. 


Correspondência  epistolar  ig 

As  agonias  da  natureza  da  tua  teem  um  silencio 
que  é  o  pudor  da  desgraça.  Nada  te  pergunto.  A 
mortalha  que  envolveu  o  teu  coração  é  sagrada. 

O  livro  ha  de  chamar-se  Espelho  de  desgraçados. 
A  forma  será  a  do  romance  para  que  m'o  leiam. 
Ser-te-ha  dedicado,  e  como  prefacio  fallarei  ampla- 
mente de  ti.  No  romance  ha  uma  mulher  que  espe- 
daçou  o  coração  do  marido ;  mas  não  morre :  sal- 
va-se  entre  os  berços  de  duas  crianças.  Porém,  o 
homem,  que  a  deixou  viver  e  responde  pela  morte 
do  adultero,  teria  a  coragem  de  sahir  á  barra  do 
mundo,  se  a  houvesse  morto  \  e  justifica-se  do  de- 
licto  como  se  o  houvesse  praticado.  Assim,  pois, 
abrirei  a  indirecta  defesa  da  tua  paixão  que  te  não 
deixou  ver,  através  dos  discursos  de  Lamartine  e 
Hugo,  a  inviolabilidade  da  vida  humana. 

Aqui  tens  summariamente  a  idéa. 

Este  livro  vae  dar-me  a  gloria. . .  de  o  escrever 
por  amor  de  ti ;  e  bem  pôde  ser  que  me  dê  parte 
nos  ódios  que  te  alancêam.  Também  tu  ha  nove  an- 
nos  quizeste  aquinhoal-os  commigo. 

Estou  á  espera  de  alguns  dias  de  saúde  para  tra- 
balhar. Este  m^edo  da  congestão  cerebral  não  me 
deixa.  Estou  quasi  sempre  com  a  cabeça  ensopada 
em  agua  sedativa. 

Sonho  muito  comtigo.  Esta  madrugada  sonhei 
que  estavas  aqui,  recitando  alguns  fragmentos  de 
discursos  teus.  Os  ouvintes  eram  ***  e  eu.  Ella, 
porém,  como  hospedeira  burgueza  e  dos  tempos 
homéricos,  apenas  concluíste,  perguntou-te  o  que 
almoçavas.  Tu  respondeste  :  «uma  chávena  de  chá 
e  um  biscouto.» 

Acordei  triste.  Quando  acordarei  alegre  ?  '^'^^ 
sentou-se  ao  pé  da  minha  cama  a  lembrar-me  que 


20  Correspondência  epistolar 

ha  quatro  annos  te  ergujas  cedo  a  tomar  com  ella 
do  seu  café  e  pão  com  manteiga.  Estas  memorias 
aqui  no  seio  de  pessoas  que  te  amam,  não  te  serão 
pueris.  E'  doloroso  retrahir-te  ao  passado ;  lembra- 
te,  porém,  que  não  eras  tão  feliz.  Elaboravas  no 
coração  estes  venenos  de  hoje.  Mas  não  tires  does- 
tas palavras  inducçÕes  fatalistas.  Das  tuas  infelici- 
dades a  causa  é  uma  e  simplíssima,  perdeste  o  pai 
quands  eras  menino,  e  já  não  tinhas  mãi  quando  o 
perdeste.  Depois,  a  necessidade  e  a  restricção  da 
fortuna  forçou-te  áquella  insualção  do  Ermo.  Alli 
o  que  fizeste  (nem  a  tua  idade  te  permitiria  mais 
discretos  expedientes)  foi  phantasiar  os  horisontes, 
d*onde  afinal  viste  que  a  felicidade  não  era  menos 
uma  palavra  do  que  a  virtude  e  a  honra. 

Não  desesperes,  meu  amigo.  Se  a  alma  huma- 
na não  tivesse  differentes  modos  de  ser  e  sentir — 
se  as  grandes  desgraças  não  fossem  um  refundi- 
mento,  um  transfiguramento  completo  d'ella — o 
homem,  seria  tão  insconscientemente  estúpido  co- 
mo incomprehensivel.  Mas  a  matéria  de  que  se  ge- 
rou o  universo  não  me  quer  parecer  que  empre- 
gassa  as  fezes  na  formação  do  homem.  A  que  vem 
estas  philosophias?  Vem  áquillo  da  transfiguração 
do  espirits.  Quero  dizer,  que  tu,  volvidos  annos, 
terás  d'estes  dias  negros  uma  recordação  peno- 
sa ;  mas  á  volta  de  ti  as  impressões  de  outra  or- 
dem e  diversas  das  que  já  foram  os  motores  da  tua 
compleição,  hão  de  crear-te  uma  paz  e  uma  mais 
profunda  consciência  de  que,  em  meio  d'esta  podri- 
dão, não  podeste  beber  serenamente  o  teu  cálix  de 
ignominia.  Tenho  mais  medo,  por  ti,  ao  amor  que 
lhe  tinhas  do  que  e  rancor  que  te  allucinou.  Quan- 
do o  coração  te  inquietar,  lembra-te  que  acceitaste 


Correspondência  epistolar  21 

todas  as  injurias  da  sociedade,  salvando  para  ti  o 
direito  de  não  ser  ridiculo.  E'  certo  que  a  irrisão 
não  fecha  as  carreiras  nem  desauthorisa  os  talentos; 
mas,  se  um  homem,  como  tu,  fecha  em  si  o  abu- 
tre da  infâmia  a  roer-lhe  as  entranhas,  tal  homem, 
se  não  se  vinga,  morre  vagarosamente,  em  quanto 
a  sociedade  o  escarnece  —  a  sociedade  que  vai  ás 
igrejas  encommendar  a  alma  de  quem  matou  outra 
que  tinha  em  si  as  promessas  de  grandes  destinos. 

Na  carta  de  hontem  te  pedi  que  trabalhasses.  E' 
assumpto  em  que  insto  e  peço.  Escreve ;  mas,  so- 
bre o  teu  infortúnio,  não.  Cinge-te  ás  idéas  alheias. 
Como  creio  que  aprendeste  o  inglez,  traduz.  Quem 
salvou  Mirabeau  ?  E,  depois  que  elle  matou  Sophia 
com  a  fulminação  de  duas  palavras,  acaso  aquella 
crucificada  alma  se  abateu  ?  Levantou-se  até  ao  pes- 
coço  de  Luiz  xvi,  por  entender  que  as  torturas  de 
nove  annos  de  cárcere  desciam  do  throno  através 
da  nobreza  até  ás  suas  trevas.  E  morreu  tranquillo 
depois  de  haver  suado  todo  o  sangue  nas  violentas 
catalepsias  das  suas  apostrophes. 

Meu  amigo,  sê  homem  como  todos  os  que  dei- 
xaram sobre  a  sua  sepultura  o  clarão  do  incêndio 
em  que  morreram  devorados.  Soffre  e  espera.  Cho- 
ra, e  dá-me  a  gloria  de  saber  que  choras. 

Teu 

Camillo» 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Isso  que  has  de  dizer  no  dia  do  teu  julgamento 
é  magestoso  e  santo.  Bem,  meu  nobre  talento  e  su- 


22  Correspondência  epistolar 

blime  alma !  D'essas  palavras  risca  a  authoridade 
de  Gresset.   Não   foi  elle  que  o  disse,  não  foi  nin- 
guém :   és  tu.   Chorei :   hão  de  chorar  os  que  tive-* 
rem   o  sentimento  menos  embotado  pelas  desgra- 
ças próprias. 

Aperta-me  a  alma  mais  que  todas  esta  tua  carta. 
Tenho  chorado  por  ti  como  nunca  chorei  pelas  mi- 
nhas amarguras  desde  a  orphandade  até  á  pobreza. 
São  onze  horas  da  noite  de  quinta-feira.  A'  uma  hora 
vou  sahir  d'aqui.  A  congestão  continua  a  ameaçar- 
me.  A  noite  passada  pedi  a  *'**^  que  me  não  desam- 
parasse um  instante  com  medo  da  morte.  Esta  co- 
bardia vem-me  dos  filhos. 

Estás  sempre  diante  de  mimr.  Não  temo  a  tua 
condemnação,  meu  filho.  Este  pavor  não  é  o  que 
me  atormenta.  E'  pensar  que  estás  ahi,  só  ;  estas 
noites,  meu  Deus !  e  a  transfiguração  da  tua  vida ! 
Consola-me  a  momentos  a  confiança  no  que  ha  em 
ti  grande  e  extraordinário :  o  brio  de  ser  assim  des- 
graçado, os  teus  orgulhos  todos  subordinados  ao  de 
ter  hombros  para  a  cruz  do  ódio,  hombros  que  não 
poderam  com  a  da  deshonra.  Beijo  as  tuas  lagri- 
mas. Quanto  me  dizes  é  tão  sagrado  sigilio  para 
mim  que  cu  me  sujeito  pela  vida  de  meus  filhos 
dinnte  de  Deus  a  não  o  revelar.  Das  tuas  cartas  já  eu 
disse  uma  phrase  n'um  concurso  da  livraria  More. 
Dizia-se  que  o  teu  remorso  provava  a  innocencia 
de  uma  senhora.  P2u  quizera  respeitar-lhe  a  me- 
moria \  respeitei,  mas  repelli  a  injuria  feita  á  tua 
alma.  Remorso  não  —  disse  eu  —  sobre  o  coração 
morto  de  Vieira  de  Castro  está  uma  consciência 
tranquilla,  Sei-o  d'elle  próprio^  e  precisei  que  m'o 
elle  dissesse  para  o  julgar  digno  de  respeito  na  sua 
enormis^iyna  dor. 


Correspondência  epistolar  2'3 

Meu  filho,  escrever-te-hei  de  Braga.  Não  posso 
hoje  mais.  Cá  tenho  o  ferro  em  braza  na  cabeça. 
Adeus.  Vê-me  e  escuta-me  na  tua  solidão.  Associa- 
me  a  teus  irmãos*  e  pensa  que  tens  aqui  uma  parte 
dos  teus,  da  tua  familia.  Havemos  de  ler,  de  escre- 
ver, de  trabalhar  muito  no  mesmo  quarto  e  á  mes 
ma  luz,  sim  ? 

Teu 

Camillo, 


Abri  esta  carta  para  te  dizer  que  não  sahi  para 
Braga.  A  prostração  não  me  deixou.  Tenho  umas 
leves  melhoras  hoje.  Tomara  cu  poder  escrever ! 
Conto  m^uito  com  o  coração ;  as  outras  faculdades 
de  escriptor  estão  quasi  delidas.  ***  vai  para  as 
Taipas  no  primeiro  de  julho,  obrigada  por  soffri- 
mentos  que  datam  de  1861,  d'aquelle  quarto  fétido 
e  frio  da  cadêa.  Lá  é  que  eu  tenciono  escrever  o 
nosso  livro  —  m.arco  lutuoso  d'estes  dias  funestos. 
Na  velhice  o  lerás.  Se  tiveres  a  desgraça  de  enve- 
lhecer. Disseram-níe  que  tens  muitas  cãs.  Mal  de 
ti  se  não  tiverem  sobrevindo  essas  grandes  explo- 
sões de  fogo  !  Era  necessário  fugir  assim  á  loucura, 
já  que  a  morte  instantânea  não  é  felicidade  vulgar. 

Parece-me,  filho,  que  deves  abrir  mão  de  leituras 
substanciaes  e  também  das  romanescas.  Os  livros 
que  eu  te  aconselharia  são  os  de  leitura  variada, 
como  illustraçôes^  periódicos  litterarios  francezes, 
Remsta  dos  dons  mundos,  mas  o  escrever,  sobretudo 
te  seria  uma  diversão,  ao  principio  penosa  e  depois 
quasi  aprazivtil.  Achava  eu  que,  mais  tarde,  quan- 
do o  animo  t'o  permittisse,  de^ias  ler  uns  livros 
muito   úteis   para   o   futuro    que   mais  provável  te 


CorrtspomdaKia  epistolar 

-  >.  Les  causa  cdébres,  oa  coasa  assim,  que  ck- 
:cr.  perKxicos  dos  mais  notareis  debates 
^-   ...   franccz.  Alfi  ha  o  romance  para  a  imagi- 
nação e  a  ekKpicnda  para  o  espirito. 

Estou  semix^  a  cogitar  no  que  te  pôde  ser  ahi 
de  algom  alfiWo;  nio  acho  senão  o  meu  coraç^ 
impotente. 

AdenSy  mra  cpimdo  José. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido   Cietra  ãc  Casiro. 

Voltei  hoje  de  Braga,  onde  râo  encontrei  allirio 
algum. 

Falknios  de  ti«  e  relera  que  eu  te  imponha,  o  de- 
Ter  de  abdicares  das  tnas  honrosas  e  sobSmes  preoc- 
cupocões  em  faror  da  suprema  necessidade  que 
tens  de  sahir  d^ahi  pela  pcMta  vulgar,  visto  que  ella 
te  ha  de  ser  aberta  por  uma  cousa  positiva  que  se 
dxama  lei,  e  pelo  verecfictum  de  outra  cousa  de  la- 
ma que  se  chama  homens. 

Qoando  arrebatadamente  applaud.  »  pv.L^.o  .i ^ 
gestpsa  de  lagrimas  que  intentavas  sustentar  no  tri 
bunal  não  sabia  eu  <pe  ^sst  heroísmo  implicava 
com  as  formulas  da  dcftzã.  Cuidei  que  o  teu  pa- 
trono poderia  de  toas  mesmas  palavras  tirar  raptos 
sublimes,  e  abrir  torrentes  de  lagrimas  em  corações 
mais  fechados  por  estupidez  e  ódio.  Eu,  demais, 
íulgara-me  capaz  desse  effeito,  sem  recorrer  a  ou- 
tras figuras  de  eloquência  senão  ás  que  de  tuas  bre- 
ves palavras  me  arrancariam  súbitas,  e  tanto  mais 
feliz  seria  quanto  mais  desprevenido  estivesse.  Ago- 


Correspondência  epistolai  25 

ra,  porém,  sei  que  me  illudi  pelo  sublime  ou  tu- te 
cegaste  com  o  relâmpago  do  bello  —  o  bello  hor- , 
rendissimo  da  tua  situação. 

Não  pôde  ser,  meu  filho.  Desce  á  craveira  da  ne- 
cessidade. Sacrifica  aos  que  te  amam  essa  nobilis- 
sima  concepção  das  tuas  febres.  Inclina-tc  diante 
do  tumulo;  mas  não  deixes  accender  novos  infer 
nos  na  tua  vida  Não  queiras  que  a  corrupção  te 
esmague  depois  de  a  teres  repellido  com  tão  violen- 
to impulso.  Se  as  baixas  almas,  por  não  te  enten- 
derem, te  condemnaram,  a  libertinagem  que  pro- 
testou contra  ti  nos  templos  dará  hurrahs  dalegria. 
Não  queiras,  não  quero  que  tal  aconteça.  Vieira  de 
Castro. 

Acabo  de  saber  que  a  tua  defeza,  pelo  theor  que 
se  te  afigura,  é  impossível.  Se  me  respondes  que  se 
te  não  afigura  defeza  de  theor  nenhum,  hei  de  pre 
v?lecer  me  das  tuas  palavras  :  Deixo-rne  guiar  da 
tua  mão,  Pcço-te  por  ti  e  por  mim  e  por  meus  fi- 
lhos. Olha  que  eu  tenho  receado  que  as  tuas  des- 
graças me  transtornem  o  juizo.  Offereço-te  como 
prova  da  minha  santa  amizade  esta  tristeza  que  ca- 
da noite  me  sacode  o  cérebro,  e  me  faz  sahir  do 
leito  em  busca  de  quem  me  valha  e  ajude  a  reter 
a  razão  que  me  foge.  Em  nome  pois  de  mim  pro 
prio  te  rogo  que  desafogues  a  lua  dor  e  a  tua  jus- 
tiça no  talento  grande  que  te  vai  defender.  Não 
considero  ninguém  como  o  Jayme  Moniz  á  altura 
de  ti.  E,  se  algum  homem  estivesse  na  tua  situação, 
eu  só  acharia  Vieira  de  Castro  para  o  salvar. 

O  coração  me  está  a  dizer  que  tu  desistes  do  teu 
propósito,  cuja  grandeza  apenas  se  mediria  com  a 
elevação  de  duas  ou  três  almas  n'esta  terra.  Quan- 
do m'o  revelaste,  dizias :  Ninguém  me  desyia.  Te- 


Correspondência  epistolar 

nho  a  vaidade  de  crer  que  coopero  em  tua  alma 
para  que  te  desças  d'cssa  opinião.  Deixa-me  a  mim 
o  prazer  de  a  fazer  publica  quando  for  tempo.  Eu 
farei  os  relevos  d'esse  magnifico  lance  quando  a 
tua  vida  já  não  estiver  sob  a  influencia  dos  juizes 
do  teu  procedimento. 

Peço-te  que  na  volta  do  correio  me  digas  se  eu 
pude  demover-te.  Rogo-t'o  em  nome  das  tuas  in- 
calculadas  affíicçõcs,  e  em  nome  da  paz  e  serenida- 
de que,  volvidos  poucos  annos,  surgirão  d'essas  tre- 
vas, onde  os  teus  amigos  hão  de  ter  força  de  fazer 
que  o  anjo  da  consolação  se  abrace  ao  da  honra. 

Meu  querido  amigo,  não  sei,  não  tenho  porque 
mais  te  peça.  Obedece-me  e  recebe  o  abraço  estre- 
mecido do  reconhecimento  do  teu 

C.  Castello  Branco, 


Meu  V.  de  Castro. 

Só  duas  linhas,  porque  a  minha  doença  me  não 
permitte  mais.  Ha  cinco  dias  e  noites  que  apenas 
consegui  dormir  a  somma  de  seis  horas. 

As  dez  da  passada  pedi  que  me  lessem  os  jornaes. 
Ouvi  que  a  senhora  do  Brazil  te  era  parte.  Raro  e 
estranho  despejo !  Isto  deve  sobre-excitar  os  teus 
padecimentos.  Animo !  Creio  poder  asseverar-te 
que  semelhante  desprimor  de  mãi  te  será  grande  fa- 
vor no  julgamento.  A  perseguição  quer-se  que  ve- 
nha  assim   eivada  de  uma  deshonestidade  original. 

O  que  me  parece  inacreditável  é  que  haja  repre- 
sentante no  tribunal  para  tal  dama.  Haja  ou  não, 
cerrate  com   as   tuas  angustias  e  rebate  as  outras 


Correspondência  epistolar  27 

que  hão  de  ser  sempre  menores.  Adeus,  filho,  até 

quando   eu   poder.   Transtornou-se    a    ida  para  as 

Taipas. 

Teu 

Camillo, 


Escrevo-te  com  a  cabeça  empannada  em  parches 
de  vinagre.  O  que  eu  sinto  ha  doze  noites  seguidas 
é  um  estrondo  infernal  nos  ouvidos,  uma  zoeira  de 
catadupa  que  me  não  deixa  estar  sequer  cinco  mi- 
nutos deitado.  Tenho  phrenesis  que  me  despeda- 
çam. Hontem  á  noite  deliberamos  sahir  d'aqui  pa- 
ra as  Taipas,  e  de  lá  vou  procurar  remédio  em  não 
sei  que  médicos ;  mas  desconfio  que  é  irremediável 
isto. 

Quero  accusar  a  recepção  da  tua  carta.  Se  me 
não  engano,  acccitas  a  defeza.  Bem,  meu  querido 
amigo.  Mil  agradecimentos.  As  tuas  considerações 
são  tão  amargas  quanto  de  grandissima  alma  a 
respeito  de  inimigos.  Mas  elles  existem. . .  Não  pos- 
so continuar,  filho.  Adeus.  Das  Taipas  te  escreve- 
rei, se  Deus  o  permitdr. 


Elles  existem  (os  inimigos),  te  dizia  esta  noi- 
te. O  que  não  está  para  mim  sufficientemente  es- 
clarecida é  a  eternidade,  onde  tu  graduas  os  tor- 
mentos pelas  consequências  que  deixou  cá  o  crimi- 
noso a  surtirem  effeitos.  Que  a  Providencia  fez  pe- 
nas eternas  na.  vida  mortal  é  certo.  E'  a  tal  dor 
chamada  eternidade,  segundo  Gresset.  Paraizo  ha-o 
aqui   para    as  esposas  honradas:   é  o  respeito  do 


28  Correspondência  epistolar 

mundo  e  o  culto  do  marido  ainda  que  elle  seja  um 
selvagem  na  religião  dos  deveres  de  esposo.  Infer- 
no também  o  ha  aqui  para  as  que  prevaricam, 
atraiçoando  não  só  o  dever  mas  o  coração  sem  ma- 
cula. Conheces  exemplos  de  ambas  as  espécies. 
Esta  é  a  verdade  que  vem  á  flor  das  cousas,  e  ao 
de  cima  d'isto  desvaira  a  phantasia  dos  theologos  e 
dos  poetas.  Posto  isto,  meu  amigo,  peço  perdão  de 
me  antepor  tão  sem  figuras  e  sem  imaginação  ás 
tuas  formosas  quanto  dolorosas  abstracções  sobre 
as  transfigurações  das  almas  pelo  infinito  fora.  To- 
das essas  imaginações  são  como  as  aves  que  avoe- 
jam  por  alto,  cuja  rota  não  sabemos,  logo  que  as 
perdemos  de  vista.  Deus  não  se  deixa  entender 
justamente  para  não  soffrer  confronto  com  estes 
miseráveis  que  nós  somos.  O  que  Elle  permitte  que 
vejamos  é  a  lei  eterna,  o  verbo  que  se  manifesta 
na  concatenação  das  cousas  terrenas.  O  anjo  fu- 
nesto que  te  fechou  as  portas  da  felicidade,  per- 
deu-se :  perdeu  o  teu  grande  amor.  Não  lhe  figure- 
mos maior  expiação. 

Reduz-te,  pois,  meu  querido  José,  a  demarcar 
as  rotações  da  vida  no  mostrador  do  relógio  que 
marca  o  nascer  e  o  morrer,  com  intervallos  breves 
ou  longos  de  angustias  immerecidas,  ou  providen- 
ciaes.  Isto  cm  verdade  é  baixo  para  o  teu  espirito ; 
mas  compenetra-te  de  que  a  verdade  é  fácil  de 
achar ;  só  a  não  encontram  os  que  a  buscam  muito 
enfeitada.  Isto  vem  a  dizer  que  te  desforçaste  de 
uma  offensa  sem  limites,  e  como  o  teu  amor  era 
por  igual  grandioso,  mediste  o  limite  da  vingança 
pelo  da  aífronta.  Agora  segue-se  que  tu,  victima 
da  corrupção,  lhe  ponhas  o  pé  nas  ulceras,  e  saias 
com  a   victoria  d'essa  conspiração  infamissima  em 


Correspondência  epistolar  2g 

que  adivinho  que  te  bandearam  alguns  dos  que  te 
chamavam  amigo,  e  te  beijariam  hoje  de  melhor- 
mente  a  fronte,  se  lá  te  vissem  o  estigma  vulgar. 
Não  te  persuadas  que  te  odeiam  geralmente.  Ha 
muito  quem  te  não  afastaria  a  mão  que  nunca  aper- 
taste. Tenho  encontrado  muita  gente  triste  por 
amor  do  teu  mau  destino;  e  muitas  pessoas  também 
tenho  encontrado  a  julgarem  mal  do  teu  procedi- 
mento, e  todavia  incapazes  de  te  condemnarem 
n'um  tribunal.  Vejo  que  dás  minima  valia  a  estas 
cousas,  mas  eu  doulh'a  toda,  porque  toda  a  minha 
alma  está  cheia  da  anciã  de  te  ver  livre.  Depois, 
iremos  resistindo  ás  desgraças  mais  sensíveis  \  e  da 
tua  desventura  irremediável  iremos  despontando 
os  espinhos  com  a  mão  do  tempo. 

Reli  na  tua  ultima  carta  aquella  carinhosa  ex- 
pressão da  bala  que  tens  para  o  caso  em  que  a  mi- 
nha razão  se  perdesse.  Se  tal  acontecer,  filho,  en- 
tende que  as  tuas  calamidades  não  foram  senão  ac- 
cidentalmente  um  estimulo  para  esse  estado.  O  que 
eu  soííro  é  o  desenvolvimento  rápido  e  espantoso 
d'uns  embryÕes  que  ha  muito  me  estavam  no  cé- 
rebro. Muitas  desgraças  successivas,  sem  desabafo, 
e  suffocadas  por  um  riso  que  me  ficou,  depois  que 
tive  pejo  de  chorar. 

Mas  olha  que  sinto  algumas  melhoras.  Pude 
dormir  hora  e  meia  sobre  um  canapé,  e  já  hoje  pu- 
de engolir  bastante  alimento  para  mais  duas  gotas 
de  sangue. 

A'manhã  vou  ouvir  um  medico  de  Braga,  depois 
talvez  vá  ouvir  outro  a  Villa  do  Conde.  Se  me  não 
derem  remédio,  se  me  disserem  que  este  estado  pô- 
de resistir  aos  medicamentos,  então  terei  a  grandís- 
sima coragem  de  fechar  os  olhos,  apagando  n'elles 


3o  Correspondência  epistolar 

as  imagens  onde  eu  via  espelhada  a  minha  vida 
toda.  Tu  cá  ficarás  com  a  certeza  de  que  te  amei, 
como  t'o  devia  por  obrigações,  que  a  ti,  alma  ge- 
nerosa, terão  esquecido.  Adeus. 

Teu 

Camillo, 


Meti  amigo. 

Poucas  melhoras  e  essas  a  cada  passo  destruí- 
das tenho  experimentado. 

Eu  imagino-tc  muito  atormentado  com  estas 
cousas  vindas  do  Brazil.  Se  as  não  esperasses,  mal 
conhecerias  o  mundo,  e  o  modo  como  as  dores  co- 
meçadas se  atropcllam  e  encadêam.  Tens  obriga- 
ção de  pôr  tudo  debaixo  dos  pés,  desde  que  expe- 
rimentaste a  máxima  de  todas  as  dores.  Vê  se  po- 
des sustentar  com  bom  rosto  as  injurias  que  te  sal- 
tam d'esta  saturnal  de  torpezas,  mascaradas  de 
piedade.  Recommendo-te  um  livro  de  Proudhon 
chamado  a  Justiça.  Lê-o.  Eu  tenho  grande  vene- 
ração por  esse  honrado  homem.  Has  de  achar  ahi 
consolações  que  tem  uncção  do  céo.  Até  amanhã, 
se  eu  poder.  São  seis  horas  da  manha.  Sinto-me 
enjoado  e  tonto  porque  ainda  não  pude  adormecer. 

Teu 

Camillo. 


Correspondência  epistolar  3i 


Meu  querido  José. 

Tenho  pena  que  me  não  digas  se  é  ou  não  ver- 
dadeira a  remessa  da  procuração  do  Brazil,  e  ao 
mesmo  tempo  receio  amargurar  com  isto  o  teu  fel. 
Não  leves  o  teu  preito  á  senhora,  que  íaz  annun- 
cios  da  sua  dôr,  ao  extremo  da  que  ella  represen- 
ta. Eu  queria  antes  que  o  pejo  a  consolasse  do  que 
o  desafogo  um  tanto  deshonesto.  E'  preciso  que  tu 
não  tenhas  mais  melindres  do  que  ella  na  alma. 
Força,  meu  querido  amigo,  força,  é  que  eu  te  ins- 
to, e  esforço  por  abaixar  a  tua  imaginação  ao  ra- 
zo  das  cousas.  Se  a  tua  phantasia  dá  força  ao  ódio 
estranho,  maior  condemnaçao  não  podia  dar-t'a  a 
lei.  Não  me  escrevas  com  repugnância,  filho.  Eu 
sei  quanto  custa  o  desafogo  quando  desde  o  cére- 
bro ao  coração  ha  uma  constricção  de  que  não  po- 
demos tirar  mais  ar  que  o  dos  gemidos.  Escreve- 
me   n'alguns   instantes   mais   tranquillos,   se  Deus 

t'os  dá. 

Teu 

Camilio, 


oMeu  Vieira  de  Castro. 

Desconfio  que  algumas  cartas  minhas  se  tem 
descaminhado.  Falias  me  d'um  silencio  que  não  te- 
nho tido.  Na  ultima  que  te  escrevi  de  Seide  ia  um 
retrato ;  e  d'aqui  já  te  escrevi  três  ou  quatro.  As 
tuas  não  me  tem  faltado.  E'  possivel  que  a  curiosi- 
dade subtraia  alguma  das  que  vão  com  o  teu  nome. 

Os  meus  padecimentos   voltaram.  Estou  cscre- 


^2  Correspondência  epistolar 

vendo  ás  seis  da  manhã.  Passei  toda  a  íioite  com  a 
cara  nos  vidros  á  espera  do  dia.  Imagina,  meu  fi- 
lho, um  espasmo  nervoso  no  esophago  que  só  com 
muito  custo  me  deixa  respirar,  e  á  força  de  anti- 
histericos.  Por  cima  d'isto  o  estrondo  de  uma  aze- 
nha na  cabeça  —  aquillo  que  Henry  Heine  sentia 
quando  escrevia  no  Livro  de  La\aro  :  «No  fundo  do 
meu  cérebro  vai  um  ruidoso  desmancho.»  Depois  a 
fraqueza  que  me  não  deixa  ter  em  pé,  e  a  impos- 
sibilidade de  estar  quieto.  Não  se  pôde  assim  viver. 

Eu  admiro  a  honrada  resignação  com  que  vês 
acastellar-se  a  tempestade.  E'  sublime,  é  teu,  esse 
destemor  da  vingança  e  o  beijo  filial  que  depões 
na  mão  que  ainda  vem  espremer  uma  esponja  que 
já  não  tem  nada  que  possa  amargar-te.  A  medida 
deve  estar  cheia  para  ti. 

Eu,  porém,  vejo  essa  senhora  como  ella  ha  de 
ser  vista  pelo  jury.  A  tua  grande  dignidade  amor- 
daça-me.  Sou  teu  amigo  até  abafar  o  coração  na 
extrema  do  respeito.  Seja  como  for,  meu  querido 
amigo,  o  que  te  hei  de  pedir  até  á  minha  ultima 
hora  é  que  tenhas  coragem  para  viver  porque  os 
meus  filhos  hão  de  precisar  de  ti.  Imagina  que  r 
tua  vida  é  também  dos  meus  filhos. 

A  ida  ao  Ermo  não  pôde  ser  já.  Gomo  entrarei 
eu  alli  ?  Até  breve. 

Teu 

Camilio. 


Correspondência  epistolar  33 

Meu  Vieira  de  Castro. 


Os  rogos  das  pessoas  que  te  amam,  e  a  clara  ra- 
zão do  que  importa  á  tua  defeza,  conseguiriam  que 
te  conformasses  com  o  Jayme.  Amagestade  da  tua 
desgraça  tem  sublime  uncção  de  lagrimas,  mas  não 
é  no  tribunal  de  jurados  !  O  cônsul  brazileiro  que- 
reria que  a  posteridade  admirasse  qualquer  rapto 
da  tua  abnegação  diante  da  lei,  com  a  condição  de 
seres  condemnado. 

A  defeza  que  me  dás  de  tua  sogra  é  louvável, 
mas  injusta.  Se  minha  filha  amanhã  prevaricar  e 
for  morta,  eu  terei  vergonha  de  pôr  luto.  A  uma 
dama,  porém,  é  obrigatório,  em  caso  tão  funesto, 
ter  ou  fingir  um  pejo  maior.  Peço-te  perdão  para 
os  meus  44  annos. 

***  chorou  hontem  por  ti.  Este  caso  é  frequente 

entre   nós.  Adeus,  filho.    Parece-me  que  te  verei 

cedo. 

Teu 

Camillo, 


E'  certo  que  outras  cartas  atóra  a  do  retrato  fo- 
ram subtrahidas.  Acho  natural  a  infâmia,  e  perdoá- 
vel até.  O  teu  nome  e  a  procedência  de  Famalicão 
deveriam  suggerir  o  prazer  de  saborear  o  que  um 
desgraçado  dizia  a  outro.  No  retrato  ia  o  teu  nome, 
o  meu  e  uma  data.  Na  carta  ia  assim  desafiando 
mais  a  cubica  por  fazer  algum  volume.  Se  eu  vir 
que  nos  continuam  a  emporcalhar  estas  contrarieda- 
des, este  esfossar  de  cerdos— porcaria  toda  portu- 


VOL.  u 


34  Correspondência  epistolar 

gueza  de  lei— mando-te  as  minhas  cartas  por  inter- 
médio do  Campos  Juuior.  Quem  as  possue,  cuida- 
rá que  tem  n'ellas  alguma  cousa.  Eram  dores  e  la- 
grimas que  só  para  ti  serviam.  Dura  alma  a  de 
quem  desviou  do  teu  coração  essas  palavras,  que 
não  seriam  sobejas  á  necessidade  que  tens  de  ami- 
gos. 

Não  são  bastante  animadoras  as  melhoras.  A  noite 
passada  deitei-me  com  esperanças  de  adormecer. 
Ergui-me  logo  e  vi  romper  o  dia  e  esperei  até  ás 
seis  horas  que  me  deixasse  uma  dor  nevrálgica  que 
veio  sobredourar  a  insomnia,  o  espasmo,  a  zoeira 
e  toda  esta  admirável  cadêa  de  nevroses  que  me 
vae  arrastando  até  encontrar  o  ultimo  annel  que  pren- 
de á  cousa  onde  tudo  isto  se  desfaz  em  phosphato 
de  cal,  lama  e  alma.  (Observemos  que  uma  sim- 
ples transposição  de  lettra  nos  desfaz  a  alma  em 
lama.  Já  notarias  também  que  o  corpo  e  o  porco 
está  na  mesma  relação.  Dir-se-hia  que  a  nossa  lin- 
gua  tem  mysteriosas  brincadeiras  philologicas,  das 
quaes  os  philosophos  positivos  allemães,  se  as  co- 
nhecessem, poderiam  tirar  para  o  soalheiro  da  scien 
cia  enormes  systemas).  Antes  de  hontem  reuni  aqui 
três  médicos.  Não  sei  o  que  pensam  de  mim.  O  de 
Braga  chama  gastralgia  á  moléstia.  O  de  Guima- 
rães também.  E  o  dasTaypas,  que  cura  ha  6o  annos, 
ainda  não  sabe  o  que  é.  Eu  sei,  e  louvo  a  delica- 
deza de  todos.  Poderei  viver  algum  anno,  se  as 
condições  moraes  se  melhorarem.  Como?  e  quan- 
do ?  O  contentamento  não  voltará  mais.  Se  ainda 
ha  raio  de  sol  que  me  allumie,  esse  nascerá  no  dia 
da  tua  liberdade. 

Conheci  rapazinho   esse  Pedro  dos  Reis.  Ha  i6 


Correspondência  epistolar  35 

Escrevi  isto  com  os  olhos  húmidos.  Era  n'um  tem- 
po em  que  eu  morava  na  quinta  do  Pinheiro  e  te 
via,  criança,  na  tua  varanda.  Quando  tornei  a  vel-o, 
já  homem,  quiz  salval-o  do  abysmo  por  onde  elle 
achou  a  ladeira  dos  outros.  Nunca  pude  salvar  nin- 
guém. Já  disse  isto  na  Mulher  fatal,  penso  eu. 

Eu  tenho  outro  retrato  em  Seide  igual  ao  que  se 
perdeu.  Logo  que  vá,  t'o  mando.  Se  tiveres  ahi  o 
teu  ultima  dá-m'o. 

Eu  acho  nas  tuas  cartas  uma  serenidade  angus- 
tiosa que  me  dá  suspeitas  de  que  soíFres  muito.  Sei 
que  algumas  pessoas  te  viram  o  ar  do  socego  ;  mas 
quem  poderia  verte!  f  Tu  has  de  morrer  com  o 
sorriso  falso  dos  infelizes  que  se  esforçam  por  men- 
tir á  vil  piedade  ou  ao  jubilo  feroz  dos  que  lhe  pro- 
curam lagrimas.  Se  tu  me  dissesses  em  poucas  li- 
nhas o  que  concedeste  ao  Jayme. . .  Meu  querido 
José,  tem  paciência;  esta  phrase  é  banal;  mas  é 
divina.  Encerra  toda  a  philosophia  dos  heroes  que 
prostraram  a  desgraça  e  a  esmagaram. 

Adeus. 

Teu 

Camillo. 


Meu  caro  José  Cardoso. 

Eu  já  sabia  que  tu  não  podias  desistir  da  formo- 
sa idéa  que  entrara  na  tua  alma  e  se  identificara 
n'ella  desde  a  hora  que  ahi  entraste.  Primeiro  ap- 
plaudi-t'a  com  enthusiasmo;  depois  combati-a  frou- 
xamente como  quem  quer  transigir  com  as  neces- 


36  Correspondência  epistolar 

sidades  da  vida  como  ella  é,  e  da  justiça  como  a 
entende  o  commum.  Bem  sei  eu  que  o  desatarem-te 
com  violência  d'essa  idéa  seria  aniquilamento  para  a 
tua  alma  :  que  tu,  se  te  faltar  a  anciedade  e  o  esforço 
— predicados  essenciaes  do  teu  espirito — não  vives. 
Se  o  Jayme  viu  desde  logo  a  altura  do  teu  pensa- 
samento,  e  o  achou  compativel  com  a  defeza,  não 
careço  d' outra  prova  para  ir  jurar  na  superior  alma 
e  levantado  espirito  d'elle.  Parece-me  agora  que 
n'este  paiz  só  haveria  um  homem  capaz  de  accei- 
tar  a  tua  procuração  assim  condicional :  é  elle.  Ale- 
graste-me.  Não  o  conheço  ;  mas  parece-me  que  o 
amo  desde  que  a  luz  o  visitou  para  elle  poder  en 
trar  com  ella  nas  trevas  do  teu  coração. 

Olha  que  deliberamos  ir  para  Lisboa  em  fim  de 
setembro.  Estarás  ainda  ahi  ?  Por  que  não  ?  Anno 
e  meio  esperamos  na  Relação  pelo  julgamento.  Lá 
teremos  horas  doces  e  amargas.  Agora  renascem- 
me  esperanças  de  vida.  Ainda  te  não  disse  que  te- 
nho ali  um  sophá  e  cadeiras.  Se  os  queres  manda 
buscar  isso  a  casa  do  Ayres.  Disseram-me  ha  pou- 
co que  tu  nada  levaste  de  tua  casa.  Os  nossos  po- 
bres trastes  estão  todos  em  monte  n'uma  cozinha 
do  consultório  homoepathico  do  conselheiro.  Que- 
res que  eu  dê  ordem  para  te  levarem  á  cadêa  uma 
idéa  dos  salões  de  Semiramis  ? 

Não  fallemos  da  hedionda  infâmia  do  retrato  que 
se  vende.  Guarda  isso  para  o  livro.  Esta  represa 
de  fel  tem  muita  cara  onde  seja  cuspida.  Ain- 
da bem.  A  noticia  do  livro  que  desgraçadamente 
não  está  começado  já  levantou  rumores  coléricos 
nos  prostíbulos.  O  peor  é  ter  eu  de  escrever  com 
luva,  e  com  o  joelho  genuflexo  diante  de  dous  in- 
felizes. Adeus,  meu  querido  José. 


Correspondência  epistolar  Sy 

Muitos  aífectos   da   ***  que  recebeu  hoje  a  tua 
carta. 

Teu 

Camillo, 


<Weu  querido  Vieira  de  Castro. 

A  noite  passada  foi  das  taes  medonhas.  Não  con- 
segui dormir.  Já  não  descanço  sem  narcóticos  que 
cada  vez  mais  me  desafinam  os  nervos. 

As  minhas  cartas  estão  sendo  para  ti,  meu  filho, 
um  boletim  sanitário.  Eu  sei  que  em  verdade  te  in- 
teressas na  minha  vida,  porque  tenho  de  consciên- 
cia que  me  julgas  um  dos  teus  mais  aííligidos  ami- 
gos. 

Uma  cousa  em  que  a  Providencia  está  sendo  boa 
para  ti  é  dar-te  saúde.  O  que  seria  das  tuas  noites 
se  te  alanceassera  as  dores  e  as  commoçôes  da  in- 
somnia ! 

Estou  em  Braga  desde  as  seis  da  manhã.  Trato- 
me  com  um  medico  d'aqui  ;  dá-me  animo  e  narcó- 
ticos. Chama  elle  a  isto  uma  nevrose.  Tomára-me 
eu  em  Lisboa.  Creio  que  serás  o  meu  medico,  des- 
de a  hora  em  que  te  vir  fora  d'ahi. 

Adeus.  Dize-me  se  tens  alguma  hora  de  sereni- 
dade e  se  trabalhas. 

Teu 

Cantil  lo. 


38  Correspondência  epistolar 


Meu  José. 

Quando  te  oíFereci  as  alfaias  que  me  esperam  na 
cozinha  do  conseliíeiro  Ayres  esquivei-me  a  recor- 
dar-te  os  estofos  de  ha  dez  annos  ou  onze.  Volto- 
me  a  chorar  e  a  sorrir  para  então.  Nunca  fomos  tão 
fúteis  e  tão  desgraçados  como  n'aquelles  dias  !  A 
gente  á  procura  de  oihomanas  com  seis  coroas  na 
algibeira,  e  coragem  para  alugar  a  casa  de  um  so- 
phi !  Foi  n'esses  dias  que  eu  me  identifiquei  á  tua 
alma,  para  todo  o  sempre  e  para  todas  as  afílicções. 
Nos  júbilos  é  que  me  verias  e  verás  longe,  porque 
a  felicidade  é  a  luz  coruscante  que  oífende  as  al- 
mas quasi  cegas  de  chorar.  Esta  comparação  deu-m'a 
o  desgosto  de  mal  poder  hoje  fitar  a  luz.  A  fraque- 
za não  me  deixa  incólume  alguma  parte  da  cabeça. 

A  noite  passada  dormi  regularmente.  De  oito  em 
oito  dias  tenho  assim  um  remanso.  Parece-me  po- 
rém que  vou  entrar  em  melhoras  progressivas. 

Não  te  aconselho  que  leias  novellas,  mormente 
as  minhas,  que  tem  muito  da  tua,  da  minha  vida, 
d'estas  tristezas  modernas,  deixa-me  assim  dizer, 
que  por  força  hão  de  repercutir- te. 

A  desafinação  nervosa  em  que  te  imagino,  deve 
exagerar  a  tua  sensibilidade.  Essas  cousas  que  n'ou- 
tro  tempo  apenas  valeriam  para  ti  como  physiolo- 
gia  d'alma,  ou  linguagem,  podem  incommodar-te. 
Lê  antes  cousas  áridas  que"  te  narcotisem;  e,  se 
tens  quem  te  não  aborreça  a  conversar,  deixa  os 
livros.  Verdadeira  distracção  só  pôde  dar-t'a  o  tra- 
balho do  espirito,  o  escrever  cousas  tuas,  seja  o  que 
for. 

Bem  sabia  eu  que  tu  eras  indifferente  ao  proces- 


Correspondência  epistolar  3g 

so  e  ás  delongas  da  justiça.  Pôde  ser  que  haja  ahi 
interesse  em  aligeiral-o  ;  mas  creio  que  os  teus  ami- 
gos terão  o  espontâneo  bom-senso  de  o  retardar. 
A  deliberação  da  ida  para  Lisboa  só  poderá  des- 
fazel-a  a  gravidade  da  doença.  Eu  vivi  sempre  mal 
ahi^  mas  tenciono  procurar  casa  em  Buenos  Ayres 
ou  Arroyos.  O  que  mais  desejo  é  que  não  esteja- 
mos mais  longe  que  o  espaço  que  possa  vencer-se 
n'uma  hora.  Creio  que  irei  antes  da  família  para 
arranjar  a  casa  onde  tu  caibas  depois.  No  verão  se- 
guinte iremos  para  o  Minho ;  passaremos,  os  dous, 
um  dia  no  Ermo  e  outros  em  Seide.  Tenho  muita 
vontade  de  lá  voltar  comtigo.  Essa  cadeira  e  essa 
cama  que  ahi  tens  has  de  dar-m'as  aos  meus  filhos 
por  tua  morte.  Essa  simphcidade  tem  aos  meus  olhos 
uma  magnificência  que  eu  não  saberia  descrever. 
A's  tuas  desgraças  extraordinárias  ligam-se  sempre 
accessorios  de  extraordinária  poesia  —  poesia,  quer 
aqui  dizer  tudo  que  faz  sentir  estar-se  a  alma  a  en- 
cher de  lagrimas. 


Adeus,  meu  filho. 


C  C  Branco, 


Meu  V.  de  Castro. 

Esta  noite  passei  peor;  mas  ainda  assim  con- 
servei-me  na  cama.  A  grande  desgraça  é  quando 
lá  não  posso  estar.  Parece  que  me  faz  horror  a  po- 
sição horisontal  da  sepultura.  Conheci  ha  cousa  de 
dous  mezes  em  casa  d'aquella  D.  Euf.  do  Porto 
um  hospede  que  padecia  não  sei  de  que  viscera. 
O  homem  tinha  medo  da  cama  como  um  hydro- 
phobo   da   agua.  Levantava-se  de  noite  e  cabecea- 


40  Correspondência  epistolar 

va  n'uma  cadeira.  Uma  manhã  apparece  muito 
desolhado,  dizendo  que  estava  a  morrer;  e  na  tar- 
de do  dia  seguinte,  morreu.  Mal  empregada  mor- 
te, como  dizia  o  Alheira  do  gallego  que  morreu  de 
apoplexia  fulminante!  Penso  muitas  vezes  n'este 
defunto,  c  comprehendo  como  elle  se  foi  para  a 
segunda  vida  de  Pelletan,  que  parece  ser  a  ange- 
lical. 

Gosto  que  te  entretenhas  com  o  estudo  de  lín- 
guas. Isso  denuncia  certa  paciência  do  espirito,  ou 
antes  força,  se  não  é  antes  violência  que  lhe  im- 
pões. De  qualquer  modo,  haja,  seja  o  que  for,  a  se- 
parar-te  do  homem  interior,  do  Mephisto,  do  dia- 
bo intimo  que  tem  sempre  nas  garras  o  pobre  anjo 
custodio. 

O  meu,  pelo  menos,  íigura-se-me  que  andou 
sempre  de  parçaria  com  o  inimigo. 

A  lingua  ingleza  vem  a  ser-te  precisa.  Agouro 
que  tu  não  ficas  na  Europa,  e  buscarás  o  paiz  que 
mais  te  namorou  nas  tuas  viagens.  Ainda  que  ás 
vezes  me  persuada  que  tu,  calados  os  últimos  es- 
trondos d'esta  tempestade,  acharias  prazer  na  vida 
retirada,  logo  me  desconvenço.  Se  até  aqui  abafa- 
vas em  horisontes  apertados,  vem  ahi  o  tempo  em 
que,  por  não  caberes  em  ti,  procurarás  o  aturdi- 
mento  e  o  tumulto.  Estás  muito  novo,  meu  queri- 
do amigo,  e  estás  sopeando  uma  energia  que  ha 
.de  expandir-se  com  vehemencia.  A  tua  infelicidade 
não  é  das  que  aniquilam,  senão  temporariamente. 
Ainda  bem. 

Satisfaz-me  a  tua  apreciação  dos  Brilhantes. 
Aquillo  pareceu- me  um  signal  de  decadência  quan- 
do o  reli  nas  provas.  Com  aprazível  assombro  vi 
que  a  edição  se  vendeu  em  três  mezes,  e  da  cMw- 


Correspondência  epistolar  41 

Iher  fatal  o  mesmo.  Isto  prova  que  os  romancistas 
novos  principiam  tão  valetudinários  como  eu.  Já 
hontem  te  disse  o  que  pensava  respeito  a  íeitura 
de  noveilas.  As  scenas  da  Fo:{  são  a  mais  innocen- 
te  asneira  que  publiquei,  acommodada  a  espiritos 
enfermos. 

Olha  lá:  não  me  escrevas  tão  a  miúdo  que  te 
pôde  ser  isso  custoso,  meu  amigo.  As  minhas  car- 
tas não  exigem  resposta.  Basta  que  me  digas  a  es- 
paços quantas  recebes.  Eu  alegro-me  quando  vejo 
a  tua  letra  no  sobrescripto ;  mas  receio  que  te  es- 
forces. 

Adeus.  Hoje  respira-se.  Deus  permitta  que  lá 
sintas  algum,  refrigério.  Ha  dias  por  aqui  sem  ar ; 
e  noites  em  que  o  chão  exhala  fogo.  Que  será  ahi ! 

Teu 
Camillo. 


Meu  amigo  do  coração. 

Quando  em  alguma  das  minhas  primeiras  car- 
tas te  quiz  chamar  a  saudade  e  o  coração  para  o 
Ermo,  presentia  que  nenhuma  outra  paragem  con- 
viria melhor  á  crise  da  tua  alma  Folgo  de  te  ver 
esperançado  nos  tristes  contentamentos  de  lá.  Bem 
sabia  eu  que  não  permanecerias  em  Lisboa  nem 
no  Porto.  Eu,  provavelmente,  quando  tu  deixares 
Lisboa,  sahirei  comtigo.  Parecia-me  impossível  que 
a  maldade  humana  esponjasse  da  bexiga  do  fel  in- 
sultos ao  teu  infortúnio!  Ha  tempos  escrevi  ao  F... 
uma  carta  em  estylo  insolente  por  causa  de  não  sei 
que  noticia  que  li  no a  teu  respeito.   Gasti- 


4^  Correspondência  epistolar 

guei-o ;  mas  elle  não  gemeu.  Couros  portuguezes  e 
mercantis  que  não  gretam  nem  ás  lançadas.  Dese- 
jo ver  o  que  esvurmaram  os  padres  dos  Arcos,  e 
metter  a  injuria  na  papeleira.  Deus  me  dê  vida. 
Deus !  Porque  não  ?  Esta  porcaria  requer  Greador 
divino  que  a  explique.  E'  mister  que  nós,  através 
de  algumas  dezenas  de  dogmas  esclarecidos,  na  re- 
gião luminosa  d'além-tumulo,  vamos  em  fim  topar 
a  razão  de  ser  d'isto,  a  origem  do  peccado,  a  que- 
da do  anjo  rebelde  na  latrina. 

Deixa-me  dizer-te  uma  atroz  verdade.  A  desgra- 
ça e  a  doença  tem-me  feito  descambar  a  um  atheis- 
mo  absoluto.  Aquellas  causas  ou  produzem  isto  ou 
o  ascetismo.  Em  mim  apagam-me  as  ultimas  vascas 
da  luz  que  o  sentimento  disputava  ao  raciocínio. 
Imagino-te  assim  *. 

E  no  meio  d'esta  minha  escuridade,  o  sonho  da 
idade  media :  o  dogma  definido  do  papa  infallivel ! 
Até  aqui,  os  catholicos,  racionalistas  tanto  ou  quan- 
to, negavam  ao  papa  a  infallibilidade  e  concediam- 
na  á  igreja  —  ao  concilio  ecuménico;  mas  agora? 
feita  a  assombrosa  tolice  no  concilio,  quem  dirá 
que  o  Espirito  do  cenáculo  presidiu  a  semelhante 
anachronismo  ?  Vê  tu  e  lembra-te  que  nos  primei- 
ros nove  séculos  da  Igreja  ninguém  se  lembrou  se- 
quer de  sobrepor  o  bispo  de  Roma  aos  de  mais. 
Surge  o  dogma  da  inerrancia  pontifical  quando  o 
catholicismo  baquêa.  O  prognostico  mais  persua- 
sivo da  queda  é  a  indiíferença  do  mundo  europeu 


^  Esta  carta  seria  excluída  d'este  livro,  se  não  viesse  como 
prova  da  pusillanimidade  da  alma  humana  sob  a  pressão  dos 
soíírimentos  corporaes.  Um  sorriso  de  saúde  bastará  a  abrir 
no  coração  uma  lagrima  de  arrependimento.. 


Correspondência  epistolar  48 

a  este  attentado  que  só  ao  cabo  de  Soo  annos  de 
surdos  lavores  dos  jesuítas  se  consummou.  Mas 
para  que  ? —pergunta  a  minha  preguiça  em  pen- 
sar no  caso. 

Segunda-feira  vou  para  Seide.  Levo  esperanças 
de  poder  trabalhar  alguma  hora  em  cada  dia.  Es- 
tou enfraquecidissimo  da  vista  e  da  cabeça. 

Retribue  as  lembranças  ao  snr.  Pedro  Maria  dos 
Reis.  Eu  já  sabia  que  elle  ahi  estava.  A  imprensa 
vende  por  dez  réis  a  explicação  de  todas  as  lagri- 
mas occultas. 

De   Seide   te   escreverei,  meu  querido  José.   O 

Jorge  recorda-se  muito  de  ti. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José, 

Tenho  o  folhetim  do  nosso  Júlio.  Costumo  guar- 
dar tudo  que  é  raro.  Um  bom  coração  escreve  to- 
da a  sua  historia  n'um  folhetim.  Do  teu  amigo  in- 
timo^ que  se  espantou  da  temeridade,  é  que  eu  não 
quero  guardar  nada  nem  sequer  saber  o  nome. 
Basta-me  saber  que  os  teus  amigos  Íntimos  deviam 
antever  a  catastrophe,  e  mediram-te  por  elles.  Vi- 
ram impendente  o  desfecho,  e  entraram  em  con- 
temporisaçôes  com  as  eventualidades  usuaes  em 
taes  lances.  Esses  hoje  ou  amanhã  hão  de  bandear- 
se  com  os  teus  inimigos. 

Teu  mano  António  disse-me  o  essencial  do  que 
vinha  no  jornal  dos  Arcos.  Admiro  o  tal  F...  Jul- 
go-o  capaz  de  redigir  a  local,  se  teve  alma  de  t'a 
enviar.  Redobra  o  arnez  para  rebater  muitas  d'essas 


44  Corres]pondencia  epistolar 

injurias.  Até  os  amigos,  sem  o  pensar,  te  hão  de 
ferir  com  as  suas  lastimas.  Ha  por  ahi  o  que  quer 
que  seja  análogo  á  commiseração ;  e,  feitas  as  con- 
tas, não  passa  de  desvergonhamento.  Infelizmente, 
raro  dia  correrá  sem  que  lá  te  chegue  o  echo  das 
salas  de  Lisboa,  onde  a  tua  causa  tem  as  respira- 
ções suspensas.  Symbolisas  hoje  o  cautério  de  um 
enorme  cancro  social.  Espera-se  o  resultado  do  teu 
julgamento,  para  por  elle  graduar  o  ponto  que 
attingiu  a  emancipação  da  mulher.  Isto  é  grave,  é 
questão  capitalissima,  cujo  alcance  vai  mais  longe 
do  que  a  tua  vida. 

Adeus.  Animo  e  esperança.  Pensa  no  Ermo,  na 
extensão  da  vida,  e  no  pouco  que  ella  vale  dos  3o 
annos  em  diante,  e  com  os  revezes  da  nossa. 

Teu 

Camillo, 


Meu  Vieira  de  Castro. 

Quando  esta  manhã  nos  sentamos  á  banca  do 
almoço  appareceu-nos  logo  a  tua  imagem,  associa- 
da ás  tuas  madrugadas  de  aldêa.  Depois,  apraza- 
mo-nos  um  ao  outro  para  de  hoje  a  um  anno  esta- 
res aqui  a  almoçar  comnosco. 

Não  me  sinto  mais  mal.  Os  primeiros  dias  em 
Seide  são-me  sempre  agradáveis  ;  mas  os  benefícios 
do  ar  duram  pouco,  se  o  mal  não  está  no  appare- 
Iho  respiratório. 

Tenho  recebido  todas  as  tuas  cartas,  meu  que- 
rido amigo. 

Mando-te  o  retrato  igual  ao  que  se  perdeu.  Ve- 


Correspondência  epistolar  4S 

remos  se  lá  chega.  Leva  duas  estampilhas  para 
maior  segurança.  Olha  tu  que  velhice !  Foi  assim 
tirado  de  esguelha  para  um  gravador  do  Porto  ne- 
gociar com  medalhas  que  hão  de  ir  á  ultima  poste- 
ridade... por  serem  de  cobre,  e  não  valerem  nada 
a  peso. 

Li  a  noticia  do  jantar  dos  homens  de  letras. 
Parece-me  que  os  promotores  d'aquella  congrega- 
ção tem  os  olhos  postos  em  ti.  Se  me  engano,  te- 
nho pena  que  elles  não  fossem  capazes  de  intenta- 
rem um  acto  soberanamente  sublime.  Imaginei-os 
preparando-se  para  disporem  a  opinião  degenerada 
das  multidões  a  conceber  a  tua  respe'tavel  e  au- 
gusta desventura.  Se  isto  é  uma  chimera,  bem  se 
deixa  vêr  que  ainda  não  percebi  bem  os  homens 
do  meu  tempo.  Move-me  vêr  ai  li  muitos  e  quasi 
todos  homens  da  tua  amizade,  bem  que  outros  t'a 
não  mantivessem  ostensivamente  depois  da  tua  ele- 
vação na  queda. 

Vou  agora  esforçar  a  cabeça  a  escrever  o  Es- 
pelho, Antes  d'isso  para  ensaiar  o  estylo  vou  escre- 
ver um  ou  dous  folhetins  sobre  não  sei  quê.  O  peor 
é  este  rolar  de  trovões  que  me  estruge  na  cabeça. 
Ora  vê  tu,  meu  José,  que  desesperação  não  poder 
eu  um  instante  fazer  calar  estes  estrondos,  e  ta- 
manhos que  me  acordam  em  sobresalto !  A  medi- 
cina não  tem  nada  para  isto ! 

Adeus.  Tomára-te  eu  bem  entretido  a  ponto  de 
quando  me  escrevesses  apenas  o  fizesses  em  duas 
palavras.  Meu  pobre  filho,  em  que  has  de  tu  en- 

Teu 

Camillo, 


46  Carrespondencia  epistolar 


Meu  querido  Vieira  de  Castro. 

Vai  recebendo  de  rosto  os  infortúnios  com  essa 
triumphante  ironia,  meu  V.  de  Castro.  A  tua  ale- 
gria cá  em  mim  repercutiu  como  um  gemido.  Atra- 
vés de  lagrimas  é  que  eu  li  a  tua  carta. 

Não  creio  que  a  pobreza  te  assuste.  Essa  dor 
é  indigna  de  entrar  onde  estão  outras  extraordiná- 
rias. Não  tens  filhos  ;  não  receias  que  elles  te  res- 
ponsabilisem  por  lhes  teres  deixado  a  herança  da 
tua  fatalidade.  Caminha  serenamente  para  a  pobre- 
za, verás  como  ella  te  recebe  com  um  sorriso  que 
a  fortuna  raras  vezes  tem. 

E'  preciso  que  salves  o  Ermo  do  naufrágio.  Con- 
fio muito  n'aquella  solidão  para  que  a  tua  alma  se 
retempere.  A  coroa  brazileira  deixal-a  ir.  A  tua 
cabeça  é  grande  de  mais  para  cousa  tão  pequena. 
Como  monumento  de  uma  noite  gloriosa,  basta-te 
a  memoria.  Que  te  levem  embora  tudo  que  de  lá 
trouxeste ;  mas  que  te  deixem  a  casa  onde  nasceu 
teu  pai,  e  d'onde  provavelmente  lançarás  um  ex- 
tremo olhar  para  as  paragens  lagrimosas  da  tua 
peregrinação. 

A  infâmia  que  me  contas  do  F...  é  exorbitan- 
te !  Quem  o  instigaria  ?  Provavelmente  veio  d'ahi 
a  depracada.  Isto  tudo  convém  á  tua  defeza.  Seria 
bom  que  no  dia  do  julgamento  esta  protervia  não 
esquecesse,  porque  eu  sei  que  se  faz  n'ella  grande 
fundamento  para  a  accusação.  Vê-se  que  procuram 
descobrir  crime  ou  infâmia  que  te  denigra  o  cara- 
cter. Elles  bem  sabem  que  o  arrebatamento  da 
honra  e  coração  dilacerados  não  são  matéria  para 
condemnação. 


Correspondência  epistolar  ^y 

Adeus.   Cada  vez  te  peço  mais  coragem,  meu 
querido  amigo. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  José, 

Pensou  bem  o  Jayme.  A  carta,  posto  que  excel- 
lente,  não  convinha.  O  ar,  que  tens  mantido,  de 
indiíFerença  pelas  calumnias,  alterar-se-hia  com  o 
apparecimento  d'este  papel.  Se  as  affrontas  gran- 
des tem  corrido  livres,  deixar  passar  as  pequenas. 
A  honra  de  teu  irmão,  se  foi  aggravada,  deve  sa- 
crificar-se.  A  opinião  publica  não  merece  a  satis- 
fação. Permitte  porém  que  eu  te  diga  que  a  remes- 
sa das  jóias  para  o  Brazil  tinha  sido  um  bellissimo 
expediente  da  tua  nobre  alma. 


Teu 
Camillo. 


Meu  querido  José, 
Povoa  de  Varzim. 

Cheguei  aqui  ds  sete  horas  da  tarde,  e  estou  es- 
perando a  sege  que  ás  duas  me  ha  de  levar  para 
Seide.  Estou  peorando  debaixo  da  impressão  tris- 
tíssima que  me  fez  esta  feia  cousa.  Não  sou  capaz 
de  esperar  que  a  luz  do  dia  m'a  mostre  de  novo. 

Tu  não  imaginas  os  dolorosos  caprichos  d'esta 
enfermidade  que  me  está  despedaçando.  Lá  vejo 


4^  Correspondência  epistolar 

no  céu  a  lua  sereníssima.  O  estrondo  que  me  re- 
boa nos  ouvidos  não  me  deixa  ouvir  o  mar.  Assal- 
tam-me  Ímpetos  de  loucura,  quando  penso  que  es- 
te inferno  não  ha  de  passar. 

Volto  para  a  pobre  mãi  e  para  os  pequenos. 
Soífro  lá  menos,  como  quem  vê  os  braços  onde  ha 
de  expirar.  Não  me  consideres  encarecedor  dos 
meus  padecimentos.  Eu  estou  gravissimamente 
doente,  e  de  certo  não  te  vejo  mais. 

Era  um  sonho  a  minha  conjectura  da  associação 
dos  escriptores  ?  Não  me  deixam  acabar  com  alguma 
santa  tolice  na  alma !  Parecia-me  asneira  sem  fito 
aquella  constellação  de  luzeiros  grandes  e  menores 
á  volta  d'uma  terrina  de  sopa  de  talharim,  cruzan- 
do brindes,  e  ungindo  os  pulsos  de  Bordeaux  falsi- 
ficado para  se  arrostarem  contra  a  hydra  da  igno- 
rância !  Então,  o  intuito  do  congresso,  a  meu  ver, 
entende  com  algum  monte-pio  que  permitta  aos  es- 
tômagos letrados  não  se  ajoujarem  á  vacuidade  dos 
craneos  ?  E'  bom.  A  plêiade  não  quer  resvalar  ao 
abysmo  da  gloria  pela  rampa  da  miséria.  Quer  ter 
a  certeza  de  que,  na  decadência  do  génio,  mão  be- 
nigna e  previdente  lhe  ministre  a  canja  de  gallinha 
e  a  bolacha  americana !  E'  bom.  Ha  ahi  sujeito  que 
se  houvesse  de  engulir  a  chave  de  Gilbert,  primeiro 
enguliria  a  alavanca  de  Archimcdes ;  o  qual  rolaria 
este  globo  e  o  faria  tombar  no  espaço,  se  os  tivesse 
a  elles  como  ponto  de  apoio  da  alçaprema.  Parece- 
mc  que  estou  a  parvoejar.  Adeus,  meu  querido 
amigo.  Se  Deus  nos  deixasse  ainda  conviver  debaixo 
das  telhas  do  Ermo,  com  dous  raios  de  entendi- 
mento, que  cousas  não  tiraríamos  da  lama  para  o 
prelo  !  Tenho  nos  miolos  aquelles  diabos  azues  do 
Alfredo  de  Vigny.  Parece-me  que  vem  ahi  a  sege. 


Correspondência  epistolar  4g 

Tenho  muito   frio.    Ha   quatro  noites  que  apenas 
durmo  instantes.  Adeus. 

Teu 

Camillo, 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Sempre  é  bom  saberes  que  tens  um  amigo  e  eu 
um  admirador  em  Pernambuco.  Mando-te  a  carta 
do  homem  que  me  parece  bom  sujeito.  Ha  quatro 
dias  que  não  te  escrevo.  Nem  isso  tenho  podido 
fazer,  único  acto  em  que  entra  a  vontade  dô  cora- 
ção. As  noites  são  as  mesmas  e  atribuladas.  Hoje 
veio  uma  sobre-carga  de  dores  nervosas  nas  pernas 
que  me  privam  de  andar.  No  fim  d*esta  semana 
tenciono  ir  para  Villa  do  Conde  começar  os  banhos  ; 
espero  não  passar  do  primeiro  como  no  anno  pas- 
sado me  aconteceu. 

Tu  desculpa,  meu  amigo,  estes  boletins  sanitá- 
rios. Entre  as  contingências  da  enfermidade  esta  de 
estar  sempre  a  martellar  no  soffrimento  é  a  mais 
dolorosamente  estúpida.  Torna-se  um  homem  egoís- 
ta e  quer  que  toda  a  gente  o  esteja  contemplando 
como  o  pobre  que  mostra  um  cancro  nas  feiras.  Eu 
compenctro-me  d'este  ridículo,  e  vou  gemendo  e 
queixando-me. 

Eu  queria  saber  como  tu  ahi  passas  os  dias,  e 
com  quem.  Disseram-me  que  tens  um  dedicado 
amigo  chamado  Pereira  de  Miranda.  Conheço-o  de 
vista,  e  ouvi-o  estrear-se  brilhantemente  na  cama- 
rá em  junho  do  anno  passado,  se  bem  me  recordo. 

Encareço  tanto  mais  a  probidade  do  amigo  quanto 
elle  deve   ser   dos  mais   recentes  na   tua  carreira 

VOL.  II  4 


5o  Correspondência  epistolar 

tempestuosa,  cujas  ondas  te  hão  levado  muitos.  Al- 
guns dos  que  ellas  levaram  na  ultima  procella  es- 
tou-os  a  ver  um  dia  no  lixo  entre  as  alforrecas  da 
praia,  quando  a  tempestade  acalmar.  Espero  que 
as  tuas  botas  os  sintam. 

Fujo  de  te  magoar  com  este  assumpto,  porque 
receio  que  sejam  verdadeiras  as  minhas  suspeitas. 
Dize-me  «hoje  alguma  cousa  do  teu  espirito,  meu 
querido  amigo. 

Teu 

Camillo, 


Meu  querido  amigo, 

Accusa  uma  profunda  desanimação  a  tua  carta. 
E'  a  mais  triste  de  quantas  me  tens  escripto  e  a  que 
mais  dorida  impressão  me  deixa.  Os  teus  raptos  de 
espirito  em  antagonismo  com  essa  dor  abafada  não 
me  illudem,  filho.  Receio  que  estejas  escurentando 
de  mais  o  teu  destino.  Estás  amparado  na  tua  hon- 
ra, embora  o  mundo  te  faça  suar  o  sangue  de  to- 
dos os  que  se  atreveram  a  sahir  da  craveira  vulgar. 
Que  fugissem  de  ti  uns  homens  que  não  podiam 
louvar  a  tua  desaíFronta  sem  se  arguirem  de  infa- 
mes, era  justo  e  racional ;  mas  que  os  bons  e  na 
apparencia  honrados  o  hajam  feito,  é  indecencia 
para  que  eu  não  tinha  bastante  imaginação. 

Tenho  como  certo,  rneu  amigo,  que  terias  procu- 
rado o  beneficio  da  morte,  se  eu  podesse  duvidar 
da  lucidez  da  tua  razão  quando  cedeste  ao  impulso 
do  ódio  que  devia  ser  medido  pelo  amor  e  pela 
dignidade.  Eu  também,  na  tua  posição,  seria  o  juiz 
do  meu  desatino  e  cuidaria  que  me  lavava  da  no- 


Correspondência  epistolar  5i 

doa  e  grangearia  o  perdão  da  victima,  suicidando- 
me.  Quem  se  lembra,  porém,  da  injustiça  do  teu 
acto  ?  Por  um  lado  recriminam-te  a  premeditaçao ; 
por  outro  querem-te  abcecado  pela  allucinação  ins- 
tantânea. As  horas  que  decorreram  desde  a  infil- 
tração do  veneno  que  te  assaltou  o  coração  até  á 
explosão  terrivel,  não  devem  chamar-se  premedita- 
çao. Esse  periodo  foi  o  elogio  da  tua  Índole.  Deram- 
te  a  punhalada :  a  chaga  cancerou-se,  a  gangrena 
generalisou-se.  Era  preciso  o  decurso  de  horas  e 
dias.  Queriam  que  tivesses  inteirado  a  vingança 
matando  um  homem  que  se  offerecia  como  o  infame 
amarrado  á  pontaria  de  algum  cobarde  maior  do 
que  elle.  Abstiveste-te  d'essa  ignóbil  gloria.  Bem 
hajas  tu.  Aquelle  homem  pertence-te.  Se  o  não  ma- 
tares um  dia  hei  de  esquecer-me  de  que  te  chamei 
amigo.  Sei,  juro  que  o  matarás. 

Estou  muito  incommodado  da  cabeça  e  vou  sahir 
para  o  Porto.  Ha  três  noites  que  não  durmo.  De 
lá  irei  talvez  para  Villa  do  Conde. 

Adeus,  meu  filho.  Hombridade,  virilidade,  har- 
monia no  teu  caracter.  Quem  viver  de  hoje  a  dez 
annos,  vêr-te-ha  um  dos  primeiros  homens  d'este 
paiz*. 

Se  eu  então  viver,  mostra-me  esta  carta,  ou  mos- 
tra-a  aos  meus  filhos,  se  eu  tiver  passado  este  in- 
ferno. 


1  Profunda  ridiculez  e  miséria  dos  que  tiram  vaticinios 
sobre  horóscopos  da  dignidade  do  homem  tão  dependente 
da  conectividade  dos  maus  ! 


52  Correspondência  epistolar 


Meu  caro  Vieira  de  Castro, 

Estou  em  Villa  do  Conde  ha  cinco  dias*.  Hontem 
recebi  a  tua  carta  devolvida  de  Seide.  Tranquilli- 
sou-me  quanto  ao  estado  do  teu  espirito.  E'  mau ; 
mas  não  é  o  que  eu  devo  sempre  recear  da  tua 
phantasia  mais  poderosa  do  que  a  razão.  Tens  ain- 
da no  teu  passado  uma  cousa  bella  e  salvadora.  E' 
a  saudade  de  uma  pedra  e  de  uma  arvore.  Quando 
ha  ainda  coração  para  isso,  a  felicidade  pôde  renas- 
cer com  uma  luz  pequenina,  mas  serena,  por  que 
é  essa  a  mais  barata  e  fácil  de  todas,  em  razão  de 
a  desprezarem  os  cegos,  e  serem  poucos  aquelles 
a  quem  a  desgraça  abriu  os  olhos.  Raros  são  os 
infelizes  que  se  apartam  da  sociedade  que  lhes  ca- 
vou a  sepultura. 

Tu  vês  o  Ermo  perto  ou  longe.  Ainda  que  lá  ao 
pé  te  pareça  menos  convidativo,  um  anno  alli  ha  de 
retemperar-te  o  espirito,  e  quanto  mais  solitário  te 
vires,  mais  depressa  se  irá  reformando  a  nova  alma 
com  que  has  de  tornar  ao  mundo.  Se  sahires  de  lá 
cheio  de  ódios,  eu  hei  de  dizer-te  que  são  justos ; 
se  sahires  com  mais  lagrimas  que  fel  para  as  per- 
versões da  sociedade,  serás  um  homem  extraordi- 
nariamente bom.  Em  todo  o  caso,  o  que  eu  pedi- 
ria a  Deus  no  teu  lugar  seria  o  que  Manfredo  pediu 
aos  gemidos  invocados :  o  esquecimento. 

Tenho  sentido  aqui  algumas  melhoras.  Comecei 
a  escrever  um  drama  em  formas  um  tanto  largas, 
contra  o  costume  dos  meus  esboços.  E's  tu  que  o 
inspiras.  O  primeiro  personagem  reflecte  a  luz  que 
eu  posso  entrever  na  tua  alma  através  da  conden- 
sação d'esta  grande  noite.  Quero  que  elle  seja  re- 


Correspondência  epistolar  ò3 

presentado.  O  Moutinho  espera-o  para  uma  com- 
panhia que  escripturou ;  mas  eu  hei  de  ver  se  ao 
mesmo  tempo  se  dá  em  Lisboa.  Tenho  o  primeiro 
acto  escripto.  O  titulo  ha  de  ser  o  Sentenciado  ou 
o  Condemnado.  Escrevo  devagar  porque  tenciono 
concentrar-me  quanto  possa,  e  porque  acho  diííi- 
culd^ade  em  escrever.  Este  incessante  estrondo  na 
cabeça,  dia  e  noite,  chega  ao  extremo  de  me  pôr 
diante  a  morte  como  remédio  único. 

Em  um  dia  doestes  passei  em  Moreira.  Apeei,  e 
fui  até  ao  fim  do  arvoredo  da  estrada.  Não  cheguei 
a  vêr  a  casa  porque  me  sentia  triste,  mas  d'uma 
tristeza  incommoda  que  parou  n'uma  afflicção  toda 
corporal.  Retrocedi,  e  disse  commigo:  «Para  outra 
vez.»  Essa  vez,  porém,  não  virá.  A  poesia  de  tudo 
aquillo  está  morta.  Ainda  bem  que  eu  nunca  alli 
entrei . . . 

Vi  um  opúsculo  em  tua  defeza,  vindo  do  Rio.  A 
intenção  é  boa. 

Adeus,  meu  querido  José.  Escreve-nie  quando 
te  não  custar. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  Vieira  de  Castro. 

Deus  queira  que  não  commopas  ninguém  !  —  escre- 
ves tu.  —  Eu  via  a  minha  vergonha  nas  lagrimas 
que  eu  tirasse  aos  olhos  d'esta  ralé.  Eu  quero  lá 
que  chorem  !  quero  que  te  admirem  !  quero  que  se 
vexem  os  corrompidos  ;  que  te  odeiem,  que  me 
insultem-,  que  me  tirem  a  mim  para  a  lama,  e  que 
nos  verberem  a  ambos.  Se  alguém,  lido  o  meu  livro, 


54  Correspondência  epistolar 

dissesse  que  eu  vingara  apiedar  uma  alma  por  amor 
dos  teus  infortúnios,  eu  viria  á  imprensa  dizer  que 
não  seria  o  mais  magoado  e  entranhado  dos  teus 
amigos,  se  tu  solicitasses  dos  meus  escriptos  um 
estimulo  á  compaixão  alheia;  e  que  tu  desprezarias 
o  amigo  que  pozesse  a  tua  causa  diante  da  pieda- 
de, exigindo  ella  ser  julgada  pela  justiça  que  en 
tende  em  pleitos  de  honra,  e  não  pela  misericórdia 
que  tem  lagrimas  para  todas  as  infâmias  sympa- 
thicas. 

Infelizmente  escrevo  pouquíssimo,  e  isso  a  oc- 
cultas  do  medico,  para  quem  a  minha  cabeça  creio 
eu  que  está  perigosa.  As  melhoras  são  sensíveis. 
Tenho  dormido  o  bastante,  e  não  me  aborrecem 
tanto  as  cousas  e  as  pessoas. 

Eu  já  tinha  reparado  na  canalhice  dos  jornaes. 
Em  compensação  alegrou-me  um  folhetim  do  Pe- 
reira Rodrigues.  Tu  sahirás  d'ahi  a  conhecer  a  so- 
ciedade e  envergonhado  d'ella.  Sahes  novo.  Tu 
colherás  o  fructo  bom  da  semente  das  lagrimas  que 
hoje  vertes. 

Das  grades  de  uma  enxovia  é  que  se  pê  bem  a 
lama  que  anda  na  rua,  dizes.  Agradece  ao  menos 
á  tua  desgraça  essas  claridades  que  ella  te  dá.  Co- 
ragem, filho. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José  Caridoso, 

Faltam-me  ha  dias  noticias  tuas.  Pelo  que  li  n'um 
periódico  espera-se  o  teu  julgamento  em  outubro. 
Tu  não  me  falias  d'esse  dia.  Eu  penso  n'elle,  e  não 


Correspondeficia  epistolar  55 

sei  se  tremo  se  me  alegro  quando  o  vejo  avisinhar- 
se.  O  meu  convencimento,  mais  do  que  vaticinio, 
é  que  serás  absolvido.  Se  o  não  fosses,  todo  ho- 
mem de  honra  e  pejo  deveria  vestir  luto.  A  tua 
condemnação  será  um  marco  da  franca  estrada  da 
corrupção.  Se  na  vida  conjugal  d'ahi  avante  houver 
vestígio  de  dignidade,  será  isso  o  resultado  da  or- 
ganisação  —  a  inércia  incapaz  do  vicio. 


Tive  agora  um  clarão  de  alegria  quando  li  no 
Primeiro  de  Janeiro  a  noticia  tirada  dum  jornal  de 
Lisboa.  Mais  tarde  te  contarei  o  que  é  a  imprensa 
do  Porto.  Espero  contar-t'o  e  vingar-me  ao  mes- 
mo tempo.  Que  admirável !  Quando  eu  estive  preso 
achei  grande  diííiculdade  em  encontrar  um  jornal 
que  dissesse  que  eu  soffria  da  vista.  Graças  a 
Deus  !  chamam  te  honrado.  Bemaventurada  prisão 
a  d'aquelles  que  a  imprensa  chama  honrados  ! 

Alegra-te.  Muita  gente  ha  de  começar  cedo  a 
ter  remorsos  de  te  insultar  no  teu  magnânimo  in- 
fortúnio. 

De  mim,  filho,  nada  te  posso  dizer  bom.  Tenho 
vivas  saudades  da  solidão  de  Seide.  A  urbanidade 
d'estes  sujeitos  de  Villa  do  Conde  afíiige-me.  Está 
aqui  o  Plácido  de  Freitas  Costa  que  falia  bem 
de  ti. 

A  minha  doença  tem  tido  algumas  intercaden- 
cias  de  abatimento ;  mas  a  cabeça  peora  quando  o 
restante  parece  melhorar.  Eu  não  tenho  esperan- 
ças algumas  de  cura.  Poderei  viver  alguns  annos, 
mas   sempre    atormentado,   e  incapaz  de  trabalhar 


56  Correspondência  epistolar 

ou  pensar  uma  hora.  Que  velhice  tão  desgraçada, 
meu  caro  José  Cardoso ! 

Quem  nos  viu  em  1857  !  Adeus. 

Teu 

Cantil  lo* 


Meu  querido  amigo. 

Tu  has  de  obrigar  a  senhora  do  Brazil  a  ter 
pudor  na  parte  que  escolheu  na  tua  perseguição ; 
has  de  obrigal-a  a  respeitar  os  actos  consequentes 
ao  desastre  da  filha,  e  a  ver  na  tua  alma  despeda- 
çada intactos  os  ligamentos  da  honra  com  o  des- 
prezo dos  inimigos.  Creio  até  que  virá  um  dia  em 
que  ella,  se  se  visse  a  sós  comtigo,  choraria  o  des- 
graçado que  sua  filha  aqui  deixou.  Mas,  meu  que- 
rido Vieira  de  Castro,  não  te  enganes  pela  vigésima 
vez  com  o  coração  humano.  Procura  descondensar 
as  tuas  trevas  a  outra  luz  que  não  seja  a  do  aífecto 
d'essa  senhora,  que  ha  de  inferir  da  tua  condem- 
nação  a  innocencia  da  pessoa  que  ella  trata  de  vin- 
gar. Tudo  isto,  assim  dito,  é  baixo  cm  relação  ao 
ponto  elevado  d'onde  olhas  as  cousas ;  mas  é  ver- 
dade. Lá  do  Brazil  não  vem  lagrimas  pela  filha  e 
irmã  fallecida :  vem  ódios,  e  ardente  necessidade 
de  mostrar  pelo  julgamento  que  houve  um  cego 
enfurecido  por  assomos  de  vaidade.  Devo  conje- 
cturar que  indo  tu  dizer  no  tribunal  que  mataste, 
e  omittindo  a  culpa,  farás  sentir  áquella  senhora 
que  és  uma  alma  admirável.  A  consciência  dir-lh'o- 
ha  •,  mas  a  consciência  de  tal  dama  receio  que 
ande  de  par  com  a  dignidade.  Que,  medianjte  influi- 
ções religiosas,  se  lhe  quebrasse  o. animo,  debaixo 


Correspondência  epistolar  5j 

da  tua  sagrada  dor  e  da  probidade  exagerada  dos 
teus  brios,  seria  possível,  se  lhe  não  conviesse 
antes  dizer  que  tu  mataras  uma  innocente,  por  tua 
própria  confissão  ou  pelo  teu  eloquente  silencio. 
Dito  isto,  ha  de  ser-lhe  forçoso  não  desmascarar  os 
sentimentos  de  aversão,  embora  lá  dentro  chore  a 
piedade,  e  o  espirito  se  sinta  castigado  pela  nobreza 
do  teu  proceder. 

Por  tanto,  meu  amigo,  eu  queria  primeiro  que 
tudo  vêr-te  livre.  Se  o  aífecto  paradoxal  da  senho- 
ra brazileira  é  cousa  que  se  anteponha  á  longa  vida 
que  te  resta,  pergunto  eu  ao  teu  espirito  em  hora 
de  serenidade.  Eu  queria  que  as  torrentes  tempes- 
tuosas d'essc  immenso  mar  de  angustias  em  que  re- 
ceio sossobres,  queria,  digo  eu,  que  tomassem  ou- 
tra direcção,  meu  desgraçado  amigo.  Sei  como  a 
tua  alma  é  formada ;  sei  que  não  tens  a  pauta  com- 
mum  para  os  teus  actos  e  pensamentos.  Se  o  não 
soubesse,  cuidaria  que  as  tuas  faculdades  podem  es- 
morecer de  enfraquecidas  pela  tristeza  sem  um  co- 
ração onde  chores  —  coração  de  mãi,  ou  de  irmã — 
que  homens  não  sabem  o  que  é  chorar  como  tu 
choras. 

Meu  filho,  um  dos  grandes  galardões  que  tens 
dado  ao  meu  affecto  fraternal  é  consentir-me  escre- 
ver-te  com  esta  liberdade.  Não  queiras  commiserar 
essa  senhora  nem  os  seus  filhos.  Tu  não  podes  achar 
sensações  de  contentamento,  se  vaes  com  a  imagi- 
nação procural-as  onde  eu  até  hoje  não  tenho  visto 
senão  á  volta  de  uma  dôr  de  mãi  um  apparato  de  vi- 
lanias contra  as  quaes  até  os  teus  inimigos  se  le- 
vantam. Um  homem  que  levantou  a  cabeça  por  ci- 
ma de  um  fundo  abysmo,  e  se  conserva  á  espera 
que  o  despenhem  sem  pedir  sequer  o  applauso  dos 


56'  Correspondência  epistolar 

homens  de  coração,  deve  vingar-se  de  quem  o  per- 
segue tirando-lhe  os  últimos  recursos.  E'  o  que  tens 
feito.  Desde  que  te  atacaram  a  algibeira,  perderam 
o  direito  á  tua  compaixão.  E  ao  teu  amor  ?  Pelo 
amor  de  Deue  !.  . .  até  breve. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José  Cardoso. 

São  nove  horas  da  noite  de  quinta-feira.  Sahiu 
d'aqui,  ha  uma  hora,  o  teu  António,  que  me  esteve 
lendo  um  bello  opusculo-biographico. 

E'  pena  que  sagradas  censideraçóes  o  forçassem 
a  rodear  a  voragem,  com  medo  de  lá  ser  emborca- 
do pela  opinião,  ou  —  o  que  mais  creio  —  de  ma- 
goar a  Lua  pobre  e  santa  alma. 

O  meu  drama  está  mal  tecido ;  mas  ha  por  lá 
dores,  que  é  mais  duradouro  condão  que  o  do 
estylo.  Esta  cousa  de  estylo  faz-me  lembrar  uma 
sazão  alegre  que  florejou  na  nossa  vida.  Nós,  tu  o 
verás,  ainda  havemos  de  crer  que  nos  estamos  re- 
moçando alli  por  Seidc  ou  pelo  Ermo. 

A  immensa  poesia  do  teu  coração  não  pôde  mor- 
rer ;  nem  cuides  que  fora  do  coração  possas  encon- 
tral-a.  A  tua  eloquência  era  d'elle,  os  teus  atre- 
vimentos de  generosidade  eram  todos  coração.  Do 
lá  te  sahiram  as  flores  e  os  vulcões.  Tu  terias  sido 
bastantemente  feliz  com  essa  entranha  no  lugar 
commum  dos  sisudos  temperados  com  um  pou- 
co de  impudor.  Lá  ao  diante,  no  declive  da  vida 
para  a  morte,  has  de  olhar  para  áquem  d'esta  pa- 
ragem,  c   terás   soberba   das  dores  que  soífres  ;  e, 


Correspondência  epistolar  5g 

quando  tanta  gente  conjura  em  te  afogar  no  fel  os 
sentimentos  de  homem  de  bem,  tu  serás  piedoso 
até  com  os  infames. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José  Cardoso. 

Recebo  a  tua  de  29. 

Na  leitura  do  drama  vi  correr  algumas  lagrimas 
em  caras  rebeldes.  Um  dos  que  me  pareceram  mais 
dignos  da  minha  condescendência  na  leitura  foi  o 
Barros,  ex-deputado.  O  Germano  é  um  bello  escri- 
ptor,  e  muito  teu  affeiçoado. 

Não  te  afílija  a  demora  no  julgamento.  Os  teus 
amigos  desejam-na.  Sei  bem  como  tu  pensas ;  mas 
n'esta  desgraçada  causa  não  está  só  o  teu  coração. 
Tu  não  eras  egoísta  na  felicidade:  não  o  sejas  no 
infortúnio.  Compartem  d'elle  teus  irmãos,  e  os  que 
se  sentem  pela  alma  teus  parentes. 

Que  tola  calumnia  a  da  tua  mensagem  aos  ami- 
gos de  F.  . .  !  Ha  doze  annos  teria  graça  a  criança 
loura  que  tu  eras  então  a  diplomaciar  com  os  an- 
ciãos que  se  agarraram  ás  mscripçôes  do  homem  ! 

Quando  os  infames  vão  tão  longe,  que  lamaçaes 
elles  não  terão  remexido  !  Deves  ter  annos  muito  de 
prova  para  rebater  as  frechas  de  insultos  que  te  hão 
de,  apesar  de  tudo,  varar  o  peito.  Coragem  para  o 
dia  tremendo  ! 

Teu  do  coração 

V 

Camillo. 


6o  Correspondência  epistolar 


Meu  José. 

Não  me  espanta  o  que  me  contas  do  procurador 
régio.  Esse  homem  é  muito  do  ministro  do  Brazil, 
e  commensal  muito  frequente  de  um  tal  Ulrich, 
deputado,  brazileiro,  rico,  etc.  Além  de  que^  a  ex- 
periência da  cadêa,  obtida  n'um  anno  e  i6  dias,  re- 
laciona-me  com  todos  os  infames  que  compem  para 
dentro  das  grades.  Lembra-te  das  sovas  que  eu 
dava  n'um  ***  por  causa  dos  insultos  feitos  á***. 
E  mesmo  eu  não  tinha  contra  mim  senão  o  dinhei- 
ro d'um  sujeito  incapaz  de  sacrifícios  grandes,  lu 
tens  contra  ti  as  devassas  de  Lisboa,  incapazes  de 
gastar  vintém,  pagadoras  generosas  em  moeda  de 
couro  (já  a  usaram  as  matronas  matriarchas) ;  mas 
é  para  recear  a  algibeira  da  senhora  do  Brazil  que 
me  dizem  ser  rica  e  quasi  tanto  como  respeitável. 
Não  suspeito  que  ella  vingue  prostituir  a  imprensa 
de  cá.  Os  jornaes  portuguezes  com  vilissimas  e  ra- 
ras excepções,  se  não  tem  procedido  briosamente 
também  se  não  tem  emporcalhado.  Bem  é  de  crer 
que  se  hajam  tentado  com  dinheiro  forte  alguns  es- 
cribas. Os  temiveis  não  acceitariam;  os  desprezí- 
veis ninguém  quer  alugai -os.  Eu  vou  vêr  se  o  Pri- 
meiro de  Janeiro  me  deixa  por  lá  ir  frechando  a  vara 
de  porcos  d'ahi. 

Trato  de  vêr  se  se  imprime  o  drama  a  tempo  de 
eu  ir  em  pessoa  entregar  a  cada  jurado  um  exem- 
plar com  dedicatória.  Este  acto  não  pôde  ter  con- 
sequências boas  nem  más.  No  drama  ha  de  appa- 
recer  uma  carta  que  te  hei  de  escrever. 

Quando  eu  estava  compondo  esta  frouxa  compo- 
sição, podia  dar-Ihe  bons  matizes  de  sentimento, 


Correspondência  epistolar  6i 

copiando  alguns  trechos  das  tuas  cartas,  e  collocan- 
do-os  na  bocca  d'um  personagem  que  lá  representa 
o  teu  sagrado  infortúnio.  Não  o  fiz  temeroso  da  pro- 
fanação. As  tuas  cartas  hão  de  ser  lidas  quando  tu 
e  eu  estivermos  em  cinza.  Ainda  tenho  entre  mãos 
o  romance.  Esse  não  me  corre  como  contentamento 
(que  palavra  tão  mal  cabida  !)  do  drama.  Como  ha 
n'elle  menos  allegorias,  a  dor  é  mais  funda,  e  a  cada 
passo  sinto  atrophiar- se-me  o  cérebro. 

Teu  do  coração 

Camillo  Castello  Branco, 


Meu  amigo. 

Era  bem  de  esperar  que  a  Biographia  desse  mar- 
gem grande  a  commentarios  infames.  Por  alli  não 
hade  o  causidico  provar  o  teu  atheismo  \  a  pontaria 
é  feita  a  outro  escopo.  Tu  bem  a  descortinas.  A  de- 
feza  d'uma  adultera  ha  de  ser  apresentada  no  tri- 
bunal como  desmoralisação  do  defensor,  e  prova  de 
incapacidade  d'elle  para  se  desforçar  da  affronta. 
Entretanto,  creio  que  não  defendes  lá  a  culpa  ;  ape- 
nas invectivas  contra  a  villania  da  perseguição.  So- 
bre tal  assumpto,  creio  que  =^*^  te  escreverá,  não 
sei  para  quê.  Eu  por  mim  terei  grande  prazer  se  lá 
no  tribunal  for  injuriado  juntamente  comtigo.  Não 
obstante,  esta  satisfação  não  tira  que  eu  converse 
com  o  advogado  da  senhora  do  Rio. 

Não  gostei  de  ver  a  noticia  do  teu  esperado  jul- 
gamento ainda  em  novembro.  E'  cedo;  releve-m'o 
a  tua  justificada  impaciência. 


02  Correspondência  epistolar 

As  cartas  vindas  do  Brazil  são  documentos  do 
grande  descaramento  que  lá  vai !  Com  que  gente 
te  mettcste,  meu  filho !  Afinal  te  convencerás  de 
que  a  differença  que  fez  Aristóteles  entre  homem  e 
homem,  se  não  é  bem  christã,  é  verdadeira.  O  peor 
é  a  surpreza  que  a  tua  carta,  acerca  do  Trovisquei- 
ra,  vem  fazer  na  sociedade.  Ninguém  imaginava  que 
elle  podesse  proceder  deshonestamente. 

Mostrei  ao  Germano  a  tua  carta.  Gosto  que  ve- 
jas o  que  elle  de  ti  pensa.  Dize-me  se  com  certeza 
és  julgado  em  novembro. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  amigo. 

Tenho  as  tuas  cartas  que  são  duas.  Não  respondi 
por  por  ter  estado  incessantemente  occupado  no 
traslado  do  drama. 

Gostei  que  me  não  mandasses  alguma  das  mi- 
nhas cartas:  em  verdade,  eu  teria  pena  de  as  ver 
debaixo  dos  olhos  de  muito  infame.  Ensoberbeço- 
me  de  que  as  tenhas  em  tanta  valia.  A  tua  alma  fez- 
me  justiça  vendo  n'ellas  mais  alguma  cousa  que  pa- 
lavras meditadas  de  banal  consolação. 

A  imprensa,  meu  caro  José,  não  tem  sido  com- 
tigo  villã  como  o  foi  commigo.  Espanto-me  ! 

Quando  eu  estava  preso,  um  jornal  do  Porto  es- 
creveu o  seguinte  :  «O  snr.  D.  Pedro  v,  visitando 
as  cadêas  da  Relação,  desejou  conhecer  dous  pre- 
sos notáveis:  José  do  Telhado  e  Camillo.»  Isto  é 
que  é  refinar  a  injuria  ! 


Correspondência  epistolar  63 

Devia  ser-te  dolorosíssima  a  solidão.  Esse  moço 
desafortunado  que  estava  comtigo  de  noite  devia  de 
ser-te  agradável  companhia  ;  mas  espero  que  te  não 
quebrem  o  coração  com  isso.  Tens  obrigação  de  não 
ter  sensibilidade.  Dor  houve  uma  só  na  tua  vida  : 
as  maguas  que  vierem  serão  abençoadas,  se  te  fi- 
zerem chorar. 

.Volto  para  o  Porto  amanhã  com  o  manuscripto 
do  drama.  Ja  lá  se  falia  contra  elle,  dizendo  que 
insulto  a  cidade  da  Virgem.  Não  ha  palavra  que  in- 
sulte ninguém.  Provavelmente  estão-se  conjurando 
para  a  pateada. 

Affectos. 

Camillo. 


Meu  presado  Vieira  de  Castro. 

Encontrei  aqui  a  tua  carta  de  i6. 

Não  me  dás  novidade  com  os  amores  da  senho- 
ra F...,  pessoa  que  eu  muito  pesarosamente  não 
podia  respeitar  conformando-me  sequer  por  delica- 
deza comtigo.  Era-me  já  notória  a  sua  garridice  de 
casada,  e  conjecturou  a  minha  experiência  que  os 
lutos  lhe  não  abastardariam  a  condição.  Eu  sabia 
isto  de  pessoa  tua  quasi  inimiga :  acreditei ;  e,  ca- 
lando-me  quando  tu  m*a  encomiavas  com  insólita 
deferência,  dei  a  suprema  prova  do  meu  respeito 
ás  tuas  illusÕes.  Agora,  visto  que  ella  nada  é  já  em 
tua  alma,  direi  apenas  que . . . 

Os  jornaes  escrevem  que  serás  julgado  no  dia  28. 
Creio  que  será  deferido  o  julgamento  pela  razão  que 
me  deste  de  se  interessar  a  accusação  na  delonga  ; 
eu,  contra  os  teus  votos,  peço  a  Deus  que  sejas  jul- 
gado mais  tarde. 


04  Correspondência  epistolar 

Reli  a  Biographia  procurando  os  pontos  vulnerá- 
veis. Pouco  vi  que  oífenda  a  moral ;  e  nada  que  não 
seja  digno  da  tua  alma  aíFectuosa.  Por  esse  lado  é 
clara  e  segura  a  boa  sabida  do  Jayme.  E,  se  elle 
attende  ás  pequenas  cousas,  contemos  com  mais 
forte  applicação  ás  grandes.  Não  sei  como  elle  en- 
tenderá a  tua  defeza  :  oxalá  que  elle  proponha  a  tua 
generosa  abnegação,  deixando  a  ao  respeito  dos  bons 
espíritos. 

A  imprensa  conta  o  caso  de  um  padre  que  te 
acompanha  muitas  horas  na  cadêa.  Eu  não  sabia 
d'isto,  nem  creio.  Apenas  conheço  um  primo  teu  que 
o  podesse  fazer.  Prouvera  á  Providencia  dar-te  esse 
contraste  para  contrabalançar  no  peso  de  algumas 
dúzias  de  infames. 

Está  o  drama  a  imprimir.  Escrevi  uma  dedicató- 
ria pouco  palavrosa.  Juro-te  pela  vida  de  meus  fi- 
lhos que  não  dou  valor  algum  ao  escripto  como  coo- 
perador para  influir  no  animo  do  publico.  Fora  ne- 
cessário que  eu  não  conhecesse  esta  e  essa  gente. 

Adeus.  Teu,  sempre  teu,  meu  querido  infeliz. 

Ca  mi  lio. 


€\deu  querido  amigo. 


Vão-te  de  mim  estas  alegrias  no  dia  do  teu  jul- 
gamento. De  mãos  erguidas  peço  á  Divina  Provi- 
dencia que,  a  não  poder  ella  alumiar  o  coração  dos 
teus  juizes,  te  dê  tanta  coragem  quanta  te  for  pre- 
cisa para  coroares  o  teu  infortúnio.  Eu  tenho  o  co- 
ração cheio  de  lagrimas  n'esta  hora,  e  não  acho  mais 
consolação  que   a  da  esperança  de  morrer  e  saber 


Correspondência  epistolar  65 

que  não  viverás  n'este  mundo  mais  do  que  os  feli- 
zes. 

Adeus,  meu  querido  filho.  Não  te  peço  que  me 
dês  uma  nova  que  me  enlouqueça  de  alegria,  por 

que  a  não  espero.  Adeus. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José, 

Está  a  terminar  o  teu  supplicio.  Depois  d'essa 
provação  do  julgamento  começarás  a  sentir  Deus. 
Tens  padecido  immenso  porque  não  perdoaste  *,  e 
não  perdoaste  porque  eras  homem  ;  porém,  a  mão 
de  Deus  vai  erguer-se  sobre  a  tua  alma,  e  então  a 
sentirás  em  toda  a  plenitude  da  honra.  Eu  sinto  no 
meu  coração  um  impulso  sobrehumano  a  chamar-te 
o  espirito  atribulado  para  fora  d'este  mundo.  Sin- 
to-me  religioso  ao  mesmo  passo  que  conheço  a  ne- 
cessidade de  igual  esteio  para  ti.  Pôde  ser  que  Deus 
nos  queira  dar  ao  mesmo  tempo  esta  consolação. 
Elle  tem  visto  a  dolorosa  piedade  e  a  admiração 
respeitosa  com  que  tenho  assistido  á  tua  desgraça. 
Dirá  elle  á  minha  alma  que  te  abra  diante  dos  olhos 
lagrimosos  os  livros  que  ensinam  as  crenças  de  La- 
cordaire — o  racionalista  que  experimentou  o  toque 
divino  de  Paulo  — ,  do  padre  Félix  e  de  tanto  espi- 
rito de  hoje  que  provaram  a  fé  ardente  com  que 
creram  pela  santa  morte  que  tiveram  ?  Porque  não 
ha  de  ser  verdade,  meu  querido  filho,  a  divindade 
de  Christo,  e  a  santa  coragem  dos  martyres  ?  Por- 
que ousamos  duvidar  da  celestial  origem  da  reli- 
gião em  cujo  seio  os  mais  desamparados  dos  bens 

VOL.  II  5 


66  Correspondência  epistolar 

da  vida  encontram  a  doce  preexistência  da  bem- 
aventurança  ? 

Eu,  ha  seis  mezes,  que  vergo  a  um  peso  im- 
menso  de  desventura,  traspassado  de  dores  de  cor- 
po e  alma,  e  a  sentir  ainda  sobre  o  coração  o  peso 
d'estas  duas  crianças.  Tenho  tido  relâmpagos  de 
lu^,  que  de  súbito  me  levam  a  esperança  para  Deus. 
Tenho  orado,  e  hoje  ouvi  com  profundo  recolhi- 
mento os  meus  filhos  orar  por  ti. 

Quando  um  homem  chegou  a  essa  ultima  bar- 
reira de  desgraça  em  que  estás,  ou  morre  esmaga- 
do e  suíFocado  sob  o  peso  dos  inimigos,  ou  se  le- 
vanta inabalável  com  os  olhos  postos  em  Deus. 
Crê,  filho,  e  sentir-te-has  a  triumphar.  Olharás  pa- 
ra os  algozes  sem  os  ver  ;  e  refugirás  do  passado, 
dando  o  restante  das  tuas  lagrimas  aos  teus  cruci- 
ficados irmãos  que  choram  ao  pé  de  ti. 

A  minha  alma  irá  onde  estiveres,  martyr ! 

O  que  tenho  visto  escripto  contra  ti  são  os  dous 
libellos  e  este  papel.  Que  inimigos  tens,  filho  !  Co- 
mo a  honra  da  intelligencia  humana  se  ha  curvado 
diante  das  tuas  dores !  Se  não  houvesse  um  ou 
dous  infames,  quem  sahiria  contra  ti  pela  impren- 
sa !  O'  meu  amigo,  que  enxovalho  vês  tu  n'esse 
papel  ?  Não  o  vejo  eu.  Alli  ha  um  couce  de  ranco- 
roso inimigo.  Com  a  tua  desgraça  não  é  possivel  a 
zombaria. 

Não  terás  tempo  para  lêr  mais,  nem  eu  cabeça 
para  te  escrcNer.  Sahi  da  cama,  ha  momentos,  e 
torno  para  alli  onde  parece  que  me  negreja  a  tris- 
teza do  tumulo. 

Alma,  meu  desgraçado  ! 

Teu 

Camillo, 


Correspondência  epistolar  6j 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Se  Deus  me  desse  saúde  para  eu  estar  ao  pé  de 
ti,  agradecer-ih'o  hia  com  as  mãos  erguidas.  Eu 
desde  hontem  que  estou  anciadissimo  por  saber  de 
ti  alguma  cousa.  Pedi  a  duas  pessoas  que  me  tele- 
graphassem. .  .  Chega  o  Commercio  do  Porto,  Por 
elle  soube  que  deviam  chorar  as  almas  que  te  viram 
abatido.  Fulgurou-me  n'alma  um  relâmpago  de  es- 
perança n'este  momento  !  Quem  sabe,  meu  Deus ! 
quem  sabe  se  te  absolvem,  meu  filho  ?  Como  eu 
curvaria  a  cabeça  diante  de  Deus,  se  ainda  te  visse 
livre  nos  meus  braços  !  Terrivel  nova  me  dás  ama- 
nhã, se  este  raio  de  luz  não  vem  da  Providencia ! 
Meu  querido  amigo,  seja  o  que  for.  Salve-se  a  tua 
razão  e  o  teu  talento,  assim  como  a  tua  honra  se 
salvou  aos  olhos  mesmos  dos  que  te  condemnarem. 
Vive,  meu  filho,  vive,  que  o  resplendor  do  teu 
martyrio  é  formoso.  A  alma  que  te  arrastou  até 
ahi,  não  poderá  jamais  espertar  em  teu  coração  um 
acordar  de  remorso.  Tudo  isso  era  preciso  para 
que  os  annos  da  velhice  te  não  fossem  lacerados 
pelos  remordimentos  que  travam  da  alma  ao  avisi- 
nhar-se  da  barreira  eterna.  Tu  vaes  perante  Deus 
com  a  expiação  cumprida  do  que  houve  desmiseri- 
cordioso  no  teu  desastre.  Os  homens  o  que  fizeram 
foi  levantar  a  tua  desgraça  em  pedestal  bem  alto. 
Quando  os  teus  sobrinhos  forem  homens  elles  cita. 
rão  com  orgulho  a  honra  que  te  crucificou;  e  a  allu- 
cinada  senhora,  que  te  manda  ultrajar,  deixará  aos 
seus  successores  a  memoria  de  ter  delapidado  os 
bens  ganhados  com  honra  para  defender  o  crime 
de  sua  filha. 


68  Correspondência  epistolar 

Alma,  Vieira  de  Castro.  Se  ahi  não  tiveres  um 
peito  bem  cheio  de  coração — lagrimas,  vê  Deus 
n'essa  solidão,  e  vê-me  de  mãos  postas  diante  de 
ti  e  d'Elle. 

Teu 

Camillo. 


Meu  Vieira  de  Castro. 

Estarás  julgado?  Se  no  meu  coração  fallasse 
Deus,  estarias  obsolvido.  A  esperança  de  hontem 
reforçou-se  com  os  artigos  da  defeza.  Magnificos  ! 
São  a  amostra  do  superior  talento  do  Jayme.  Quan- 
tos hoje  me  vieram  perguntar  por  ti,  e  tinham  lido 
o  supplemento  do  ^rimeir^o  de  Janeiro,  me  alenta- 
ram com  as  suas  esperanças.  Crê-se  possível  a  tua 
absolvição ;  mas,  ao  mesmo  tempo,  releio  a  tua 
carta,  onde  dizes :  «E'  certo  que  serei  condemna- 
do.» 

E,  se  o  estás  a  esta  hora,  eu  antes  queria  essa 
dor  grande  da  minha  vida  \  a  incerteza  atribula-me. 
Porque  me  não  dizem  d'ahi  a  terrível  nova  que  eu 
pedi  ?  Isto  faz-me  suppôr  que  foste  condemnado. 

Se  o  foste,  choremos  e  levantemo-nos  d'este 
abatimento.  Separa  o  passado  de  ti ;  entre  o  que 
foste  e  esperavas  ser,  e  o  que  és  e  serás,  está  uma 
cousa  esmagadora  como  a  morte.  Renasceste.  Não 
tens  passado  ;  começas  hoje.  Ao  que  foste  apenas 
te  liga  o  que  a  honra,  n'alguma  hora,  te  disser  que 
sejas.  Se  n'esse  ponto,  embora  negríssimo,  pozeres 
os  olhos,  já  tens  uma  razão  forte  para  que  vivas. 
Tens   de   completar  o  teu  caracter.  Aniquilaste  o 


Correspondência  epistolar  6g 

punhal  que  te  feriu  :  é  mister  quebrar  o  braço  que 
o  vibrou.  Grande  e  nobre  aspiração  para  homem 
dos  teus  sentimentos.  Eu  peço  perdão  á  Providen- 
cia, se  ha  n'isto  um  rancor  que  não  serve  para  con- 
solar desgraçados  da  tua  condição.  A  um  homem 
ordinário  e  vulgar  seria  como  instigal-o  a  ser  o 
que  a  honra  lhe  não  aconselha.  A  ti,  não,  Vieira  de 
Castro.  Em  matéria  de  dignidade  creio  que  não  te 
suscito  pensamento  que  não  haja  ganhado  em  tua 
alma  a  consciência  d'um  propósito  inabalável.  Em 
uma  das  tuas  cartas  ha  uma  phrase  que  m'o  asse- 
gura \  e, .  ainda  sem  ella,  adivinhava-te  por  causa 
mesmo  do  teu  silencio. 

Se  eu  te  via  absolvido,  aqui,  comnosco,  meu 
querido  amigo !  Se  Deus  me  desse,  no  concurso  de 
tantas  dores,  esta  alegria!  Eu  sei  que  nunca  mais 
um  riso  bom  te  alumiaria  o  rosto.  Sei  que  tarde  se 
descondensaria  a  negrura  que  envolve  o  teu  pas- 
sado. Mas  que  immensa  confiança  eu  tinha  no  amor 
de  teus  irmãos  e  no  meu ! 

A  estjs  horas  se  está  representando  no  Porto  o 
drama.  Hontem  me  asseveraram  de  lá  que  os . . . 
cm  obsequio  á  viuva  do  Brâzil,  iam  reprovar  com 
os  pés  a  audácia.  Não  o  patearão,  porque  os  pon- 
tos, em  que  podiam  fazel-o,  não  os  percebem.  No 
restante,  como  te  não  vêem  no  palco,  espantam-se 
de  não  achar  a  occasião  opportuna  do  desforço. 
Oxalá,  porém,  que  o  nrieu  drama  tenha  essa  imme- 
recida  gloria. 

Estou  ancioso  pelo  correio  d'ahi.  Sei  que  me  não 
podes  escrever  \  mas  alguém  me  escreverá.  Se  tu 
fosses  absolvido,  pôde  mesmo  ser  que  teu  irmão 
m'o  dissesse.  Não  sei,  meu  Deus!  Porque  conheces 
a  impaciência   das   minhas    dores,    aceita-me  esta 


70  Correspondência  epistolar 

como  d'um  infeliz  que  não  sabe  amar  senão  infeli- 
zes maiores.  Adeus,  meu  filho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  amigo. 

Sei  já  tudo.  Sinto  vontade  de  te  felicitar.  Hoje 
comprehendo  que  nenhuma  outra  situação  te  con- 
vinha. Tens  por  ti  o  respeito  de  muitos  que  te  ha- 
viam vituperado.  Adivinho  a  apinião  publica  —  a  in- 
fame que  colhe  as  flores  de  sobre  a  lama  que  atira 
aos  infelizes  e  coroa  os  com  ellas.  A  sociedade  tem 
penetrantes  remorsos  de  te  haver  injuriado.  Hon- 
tem  pedia  a  forca;  amanhã  alcunhará  de  iniqua  a 
sentença  que  te  não  abriu  as  portas  do  cárcere,  para 
ella  ter  o  jubilo  de  te  insultar  outra  vez.  Bem.  Dez  an. 
nos  de  degredo.  A  Relação  converterá  isso  em  cin- 
co. Tens  trinta  e  um  annos.  Estás  honrado,  estás 
pobre,  estás  debaixo  d'um  castigo  que  te  depura  do 
que  se  passou  menos  piedoso  na  tua  catastrophe. 
Não  ha  no  teu  infortúnio  senão  gravidade  trágica, 
desgraça  para  assombro  e  lagrimas.  Compaixão! 
para  quê  ?  Basta-te  o  respeito.  Passas  assim,  nobre 
condemnado,  para  que  ninguém  ousasse  motejar-te. 
Odiaram-te?  Optimamente.  As  devassas  tripudiam? 
Bem !  a  humanidade,  a  sociedade  o  pagrá.  uSei  que 
pratiquei- um  grande  crime;  mas  isso  não  é  commt- 
go,^  Bravo!  meu  querido  amigo!  Não  ha  nada  mais 
alto,  mais  santo,  mais  lagrimavel !  Lagrimas,  porém, 
de  veneração  por  essa  tua  egrégia  alma.  Em  que 
estás  pensando  n'esta  hora,  meu  filho  ?  Não  farás 
de  ti  mesmo  este  alto  conceito  ?  Fazes.  Não  ha  quem 


Correspondência  epistolar  7/ 

mais  de  animo  frio  assistisse  ao  ruir  espantoso  da 
sua  felicidade.  Ergue-te  d'essas  ruinas,  e  verás  que 
és  mais  que  um  homem. 

Agora,  meu  querido  José,  peço  a  Deus  que  me 
deixe  erguer  cedo  d'esta  cama  para  te  ir  abraçar. 

O  meu  terror  passou.  Hontem  fui  victoriado  no 
theatro  por  amor  de  ti.  Hoje  creio  que  lá  serás  ado- 
rado no  infeliz  que  tem  uns  traços  remotos  da  tua 
desgraça. 

**'^  tem  chorado  esta  tarde.  Porque  ?  Ella  espe- 
rava-te  livre,  esperava-te  aqui;  e  todavia  a  cada  ho- 
ra a  assaltava  a  convicção  de  que  não  podias  ser 
absolvido,  depois  que  a  honrosa  franqueza  das  tuas 
respostas  no  tribunal  exigia  que  tamanho  triumpho 
de  dignidade  não  sahisse  á  praça  d'este  infame  mun- 
do sem  pungente  castigo. 

Meu  filho,  adeus.  Beijo  as  tuas  faces;  mas  que- 
ro-as  enxutas  de  lagrimas. 

Teu 

Camillo. 


Meu  presado  amigo. 

Não  te  escrevi  hontem  nem  ainda  hoje  posso  di. 
zer-te  parte  do  que  me  enche  o  coração.  Tenho 
agradáveis  noticias  da  tua  heróica  conformidade 
Não  me  enganei  comtigo,  filho.  A  carta  que  hoje 
recebeste  encontrou-te  descarecido  de  alentos.  Ces- 
sou a  minha  missão  de  consolador.  D'ora  em  diante 
os  teus  amigos  devem  pedir-te  coragem  nas  suas 
angustias. 

Estou  de  cama :  perdi  ambos  os  ouvidos  :  ficaram- 
me   horrendas   dores,   que  me  tomam  toda  a  face. 


7  2  Correspondência  epistolar 

Não  ha  que  fazer  d'este  podre  estojo  de  uma  alma 
que  Deus  deixou  acabar  alanceada  por  obscuras  di- 
lacerações. As  tuas  desgraças,  meu  querido  amigo, 
encontram-me  abatido  demais  para  que  eu  me  res- 
tringisse a  lamental-as.  Soífri  muito  pensando  nas 
tuas  noites  de  cárcere.  Não  hei  de  softrer  pensando 
nas  do  desterro,  porque  hoje  creio  que  vai  Deus  com- 
tigo. 

Asúm  se  julgava  em  Jerusalém. . .  Que  sublime  é 
aquilio! 

Adeus,  Vieira  de  Castro.  Beijo  as  tuas  faces  com 
extremos  de  pai. 

Teu 

Camillo. 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Recebi  a  tua  carta  escripta  depois  do  julgamento 
e  outra  hontem.  Algumas  terás  minhas  que  se  tem 
encontrado  com  as  tuas.  No  concurso  de  desventu- 
ras que  te  assoberbam,  tem  faltado  a  da  doença. 
Não  sei  se  este  beneficio  te  é  concedido  para  que 
toda  a  força  da  sensibilidade  se  te  concentre  na  al- 
ma, visto  que  as  dores  corporaes  quebram  as  do  es- 
pirito. A  mim,  graças  a  Deus,  equihbram-se  umas 
com  outras,  de  maneira  e  forma  que  me  não  seja 
pcrmittido  um  instante  de  contentamento,  nem  se- 
quer de  esperança  n'elle.  Este  tormento  dos  ouvi- 
dos é  d'uns  que  eu  d'antes  imaginava  que  me  en- 
doudeceriam se  durassem  uma  hora.  Como  se  não 
bastassem  vinte  mezes  de  ouvir  incessantemente 
uma  zoeira  de  mar  tempestuoso  e  um  silvo  de  va- 
por,  accresceu  agora  a  dor  penetrante  de  lado  a 


Correspondência  epistolar  jS 

lado.  Ora  vê  tu,  filho,  no  que  se  tornaram  aquelles 
dous  rapazes  que  em  i858,  na  travessa  do  Laranjal, 
diante  de  um  inspirativo  fogão,  conversavam  acer- 
ca de. . .  Que  tombos  do  mundo  e  de  nós !  Tu  es- 
tás ahi  a  olhar  para  as  trevas  que  vem;  e  eu,  enve- 
lhecido, acurvado  para  o  tumulo,  e  a  resvalar  para 
elle  por  entre  os  braços  de  dous  filhos ! 

E  onde,  meu  filho!  onde  doze  annos  depois,  pa- 
ramos a  olhar  para  o  passado !  Não  sei  se  um  quar- 
to de  cárcere  cederia  em  tristeza  a  um  em  Villa  do 
Conde. 

Passam-se  semanas  sem  que  eu  tenha  sequer  ani- 
mo para  sahir  da  cama.  Não  posso  trabalhar,  e  dif- 
ficilmente  entendo  o  que  leio,  quando  os  olhos  se 
não  esquivam. 

Deliberamos  ir  para  ahi  no  principio  de  janeiro, 
não  obstante  eu  ter  de  lá  sahido  doentíssimo.  É 
bem  de  suppôr  que  ahi  estejas ;  mas,  se  houvesses 
de  sahir  mais  cedo,  eu  iria  já.  Presumo  que  não  po- 
des sahir  sem  que  a  Relação  responda  ao  aggravo. 

Mil  cousas  te  quero  dizer,  menos  próprias  d'esta 
carta.  Adeus,  meu  querido  amigo,  santa  aífeição  que 
symbolisas  todos  bem  que  poucos  dias  de  alegria  no 
fim  da  minha  mocidade.  Mortos  somos  ambos.  A 
posteridade,  sempre  curiosa,  notará  que  dous  tama- 
nhos desgraçados  se  houvessem  prezado  tanto.  Não 
é  isto  vulgar.  Deus  me  deixe  viver  para  que  eu  pos- 
sa escrever  a  tua  biographia,  e  sentar  me  no  banco 
dos  réos  a  responder  á  pergunta  infame  da  razão 
que  eu  tinha  por  te  julgar  tão  honrado,  tão  bom, 
tão  martyr,  e  tão  digno  de  se  padecer  por  ti.  Adeus, 
meu  filho. 

Teu 

Camillo. 


7^  Correspondência  epistolar 

Meu  amigo  do  coroação. 

Que  valeriam  dramas,  se  a  tua  desgraça  não  fos- 
se o  drama  ?  Uma  idéa  no  theatro,  e  essa  escripta 
a  medo,  como  quem  receava  damnificar  a  tua  po- 
sição, é  o  que  é  a  obra  que  o  mundo,  este  mundo 
do  Porto,  teria  reprovado,  se  tu  não  transpareces- 
ses alguma  vez  no  personagem  em  que  os  parvos 
quizeram  vêr-te.  Ainda  bem  que  os  doutos  não  vi- 
ram no  meu  drama  armadilha  á  curiosidade,  e  me- 
nos especulação  vil.  E'  aquillo  que  te  digo  na  dedi- 
catória :  uma  composição  em  que  fluctuam  idéas 
que  alguma  vez  esvoaçariam  no  teu  animo. 

A  opinião  publica  desfizeste-ae  refizeste-anomodo 
como  respondeste  ao  juiz.  Poucas  palavras  vinga- 
ram mais  do  que  o  óptimo  discurso  do  Jayme.  O 
que  geralmente  se  diz  de  ti  é  que  íipeste  ra{ão.  Não 
pôde  dizer-se  mais,  senão  que  te  absolveriam  to- 
dos se  fossem  jurados.  Eu  não  os  creio,  meu  ami- 
go. Urgia  que  o  jury  estivesse  fulminado  pela  tua 
dignidade  para  dizer  que  não  estava  provado  o  que 
tu  confirmavas,  honrando-te  com  o  feito  de  homem 
de  bem.  Foi  a  coroa  de  esplendido  martyrio  com 
que  remataste  a  tua  magestade  no  infortúnio.  Se 
houvessses  fugido  em  vez  de  te  apresentares  á  jus- 
tiça, terias  procedido  com  vulgar  e  leio  desaccordo. 
Se  sahisses  absolvido,  ser-te-ia  impossivel  com  vin- 
te annos  de  solidão  conseguir  a  rehabilitação  que  te 
deram  em  três  dias. 

Se  estas  crianças  me  não  tivessem  como  chum- 
bado n'este  grilhão  de  soífrimentos,  eu  pedia  a  Deus 
licença  para  me  dispensar  do  peso  da  vida.  Adeus, 


Correspondência  epistolar  jS 

meu  filho.  Até  qualquer  dia.  Sinto  uma  tristeza  in- 
fernal. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  filho. 

Teu  irmão  levantou  os  olhos  da  alma  para  onde 
eu  fitara  os  meus.  Bello  coração  e  superior  enten- 
dimento. Vou  fazer  novo  estorço  por  te  ver.  Hoje, 
tenho  tido  uma  leve  melhora.  Acabo  de  ler  um  li- 
vro que  me  fez  chorar.  Chama-se  Nossa  Senhora 
de  Lourdes,  E'  uma  traducção  que  d'ahi  me  en- 
viou não  sei  quem.  Tem  uma  maviosa  historia  a 
recepção  d'este  livro.  Eu  estava  na  cama  ás  7  ho- 
ras da  noite,  tristíssimo,  aborrecendo  quantos  livros 
me  lembravam.  Pedi  que  me  trouxessem  um  mau 
livro  de  Gauthier  :  Mademoiselle  de  Maupin,  Abri-o; 
enojou-me.  N'isto,  chega  o  correio  com  o  livro  de 
Nossa  Senhora  de  Lourdes,  Abri  seis  paginas  no  pro- 
pósito de  não  ler  mais.  Li  tudo,  li  465  paginas.  Cho- 
rei !  Bella  cousa  chorar !  se  sentires  um  raio  de  fé 
na   tua  purificada  alma,  lê  ao  menos  seis  paginas. 

Adeus !  quem  me  dera  vêr-te  nos  meus  braços  ! 

Teu 
Camillo, 


Meu  querido  José, 

Li  todo  o  processo.  Eu  não  pensava  que  umas 
cartas  de  bacharel  facultavam  o  alvedrio  de  tão  su- 


j6  Correspondência  epistolar 

perlativas  infâmias  como  ahi  vão  no  insulto  do  ad- 
vogado da  authora !  Aquillo,  se  não  é  original,  foi 
imitado  de  algum  causidico  que  sahiu  da  taberna 
para  o  foro,  e  d'aqui  para  o  esquecimento  da  hu- 
manidade envergonhada.  (Nota  2.*).  Lá  me  vi  en- 
xovalhado ;  mas  que  direito  temos  nós  a  queixar - 
mo-nos,  se  tu  não  te  queixas,  meu  amigo  ? 

A'  volta  do  pedestal  d'um  anjo  de  bello  mármo- 
re apparece  ás  vezes  n'um  jardim  um  sapo  com  a 
sua  pelle  rugosa  a  reçumbrar  peçonha.  E,  por  des- 
graçada analogia,  estava  ao  pé  do  vomito  bilioso  do 
canalha  o  discurso  de  Jayme  Moniz.  Que  bello  fei- 
xe de  fiôres  orvalhadas  de  lagrimas  !  Que  talento  a 
competir  com  o  coração !  Eu  chorava  lendo-o.  Que 
doce  angustia  não  seria  ouvil-o  ! 

Vi-o  uma  vez.  Era  um  semblante  doentio,  elegia- 
co.  Espalhava-se-lhe  nos  olhos  a  luz  da  fronte,  onde 
um  formoso  anjo  da  tristeza  parecia  ter  bafejado 
inspirações  das  que  vem  de  outra  vida.  Gontem- 
plei-o,  e  cada  vez  que  os  periódicos  fallavam  da  en- 
fermidade d'elle,  eu  contristava-me  como  se  o  ti- 
vesse no  coração.  Mas  o  mais  bello  da  tua  defeza 
não  foi  a  eloquência  d'elle  :  devia  de  ser  a  commo- 
ção.  Que  triumpho  elle  alcançou,  podendo  chegar 
ao  periodo  final  sem  o  exprimir  soluçando!  A  tua  des- 
graça deixa  aquelle  discurso,  como  as  estatuas  que 
se  curvam  a  chorar  sobre  as  urnas  das  cinzas  nas 
sepulturas.  Sc  um  dia  poderes  dar-me  o  retrato  do 
Jayme,  eu  t'o  agradecerei  muito.  Adeus. 

Teu 

Camilio. 


Correspondência  epistolar  ']j 


Meu  querido  José, 

Não  te  escrevi  ha  quatro  dias.  Desejei  conversar 
com  o  teu  mano  António,  que  fez  o  favor  de  me 
procurar;  mas  não  pude  ir  á  hora  em  que  elle  es- 
tivesse desoccupado. 

A  tua  ultima  carta  deixa-me  uma  suave  esperan- 
ça de  que  as  tuas  lagrimas  emfim  se  esgotem,  e  o 
luto  não  vá  além  do  tempo  em  que  pôde  vestil-o 
uma  honrada  alma.  Quanto  me  revelas  de  profun- 
das commoções  t'as  adivinho  eu  pela  intuição  que  é 
o  talento  dos  grandes  desgraçados.  Distingues  a  al- 
ma que  trahiu  da  alma  que  amou;  d'esta  chamou 
Deus  a  si  a  luz  que  era  sua,  e  por  isso  ainda  te 
alumia  as  visões  e  t'as  amargura  com  saudades. 
Resta-te,  pois,  esse  vasto  infortúnio,  a  religião,  o 
mysticismo  que  mais  tarde  se  desfigura  em  tranquil- 
lidade  absoluta  de  consciência,  absorvida  toda  na 
honra,  que  tem  sido,  e  só  essa,  o  teu  amparo. 

Eu  nunca  te  disse,  meu  querida  amigo,  que  todo 
o  meu  terror  consistia  na  idéa  de  que  a  final  o  cri- 
me te  parecesse  inferior  ao  desforço.  Desde  a  hora 
em  que  oscillasses  na  injustiça  ou  demasia  da  tua 
vingança,  o  teu  tribunal  intimo  matar-te-hia,  antes 
do  julgamento  cá  de  fora.  Depois,  porém,  que  li  o 
processo,  desfez  se-me  todo  o  receio,  e  alegrei-me  com 
vêr-te  absolvido  diante  de  ti  próprio.  Insisto  em  te 
dizer  que  os  dez  annos  de  degredo  são  o  preço  por 
que  com_:iraste  o  direito  de  ser  encarado  com  res- 
peito pela  maioria,  e  com  ódio  por  alguns ;  mas  com 
motejo,  com  piedade  insultadora,  por  ninguém.  A 
ti  o  que  te  matava  fulminantemente  seria  a  irrisão. 
Essa   foi  que   tu  sopesaste  para   todo    o   sempre. 


7<5*  Correspondência  epistolar 

N'outra  situação  —  na  vulgar  dos  que  toleram  —  as 
tuas  lagrimas  seriam  ridículas ;  as  que  hoje  chora- 
res, ou  por  excesso  de  compaixão,  ou  por  amor  ex- 
traordinário, são  respeitabilissimas.  Adeus,  meu 
Vieira  de  Castro.  Dá-me  a  consolação  de  saber  que 
ha   uma  hora  em  que  vês  alguma  luz  diahte  de  ti. 

Teu 

Camillo. 


Meu  amigo. 

Sente-se  no  coração  a  causa  de  me  não  enviares  o 
retrato  do  Jayme.  Como  é  que  ainda  ha  almas  as- 
sim ?  Com  que  perfumes  do  céo  resistem  ellas  á 
peste  do  mundo  ?  Por  isso  esse  rapaz  vive  tão  só 
comsigo,  tão  apartado  da  gente.  Uma  noite,  encon- 
trei-o  n'uma  rua  despovoada,  quasi  reclinado  sobre 
o  hombro  de  uma  senhora.  Creio  que  toda  a  sua 
vida  era  ella;  nas  lagrimas  d'esses  olhos  se  teria 
elle  visto,  em  noites  de  doença,  e  nos  dias  sem  sol, 
sem  alegria,  sem  outra  consolação  que  a  das  lagri- 
mas que  fazemos  chorar.  Os  desterrados  que  se 
afazem  ás  tristezas  d'uma  convivência  assim  santifi- 
cada por  a  própria  indiíFerença  da  sociedade,  por  via 
de  regra  são  bons,  e  mais  depressa  acham  o  raio 
de  luz  que  leva  á  Divindade.  Entre  as  cousas  divi- 
nas vê-se  a  alma  chorada  da  mãi  e  a  certeza  de  ou- 
tra existência.  E  depois,  deixar  ir  a  vida  de  tempes- 
tade em  tempestade ;  a  salvação  é  segura ;  o  farol 
do  porto  nunca  se  apaga. 

Dize-lhe  que  nós  lhe  agradecemos  infinitamente  o 
affectuoso  respeito  com  que  mandou  desviar  a  inju- 


Correspondência  epistolar  7^ 

ria  de  sobre  a  sepultura  das  nossas  alegrias.  Dize- 
Ihe  que  ella  penou  dezenove  mezes  encarcerada  en- 
tre paredes  que  gotejavam,  e  que  desde  então,  ha 
onze  annos,  ainda  não  teve  um  dia  em  que  a  des- 
graça a  não  pozesse  diante  dos  insultos  da  socieda- 
de. Dize-lhe,  em  fim,  que  ella  teria  abençoado  o 
marido  se  a  matasse,  visto  que  esta  sociedade  não 
prescinde  de  atirar  lama  ás  que  não  morrem,  e  san- 
tifica  as  que  morreram.  Está  muito  castigada.  Digo- 
t'o  eu  como  um  penitente  o  diria  a  Deus  para  ha- 
ver misericórdia  pela  humildade  da  confissão. 
Sinto-me  hoje  muito  doente,  meu  filho,  e  incapaz 

de  pensar.  Adeus,  até  breve. 

Teu 

Ca  mil  lo. 


Meu  querido  amigo. 

Escrevi  hontem  e  hoje  um  opúsculo  que  te  dedi- 
co. Suggenu-m'o  uma  conversação  que  tive  com  um 
abbade,  no  caminho  do  Porto  para  aqui  a  teu  res- 
peito. Este  homem  havia  sido  condiscipulo  em  Coim- 
bra de  teu  tio  António  Manuel.  Contou-me  elle  um 
caso  de  adultério,  que  eu  refiro.  Guardei  quanto 
pude  e  quanto  devia  respeito  ás  cinzas  da  snr.* 
D.  Claudina  —  respeito  á  porção  da  alma  immacu- 
lada  que  tu  extremas  do  que  houve  deplorável  na 
condição  d'essa  senhora.  A'manhã  vou  ao  Porto  fa- 
zer imprimir  esta  pequena  cousa,  que  valerá  tanto 
como  as  outras  no  teu  destino.  Nada,  miseravel- 
mente nada.  Este  e  outros  escriptos  meus  em  que 
o  teu  nome  vier,  são  legados  que  eu  deixo  aos  meus 
filhosy^^para  que  elles  os  transmittam  como  prova  de 


8o  Correspondência  epistolar 

que  eu  te  quiz  muito,  e  dei  testemunho  da  tua  digni- 
dade. Bem  sei  que,  a  feição  d'esse  villanaz  do  tri- 
bunal, a  sociedade  me  está  asseteando  com  insul- 
tojs.  Quando  appareceu  o  Co;/<i^/72;7ac/o,  uns  perió- 
dicos portuenses  de  dez  réis  assobiaram-me  a  valer. 
Um  d'elles  pedia-me  que  escrevesse  o  drama  do 
meu  crime  com  uma  mulher  que  fizera  morrer  de 
paixão  o  marido.  Achei  certo  bom  senso  n'isto,  dada 
a  hypothese  da  capitulação  pathologica  da  moléstia 
do  defunto.  Adeus.  O  Santos  crê  que  o  drama  se- 
ja bem  acolhido. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  amigo 

Lá  vai  o  anno  que  abriu  a  represa  das  tuas  amar- 
guras. Nenhum  da  minha  vida  foi  tão  acerbo  como 
este.  Nada  espero  do  que  vem,  nem  dos  outros.  Al- 
gum tempo  a  espectativa  da  morte  consolou-me  de 
muitas  dores.  Isto  succedia  no  tempo  em  que  eu 
não  tinha  justiça  quando  me  queixava  da  sorte.  Ago- 
ra, depois  que  estas  creanças  brincam  felizes  na 
minha  negra  atmosphera,  e  a  respiram  com  delicias, 
a  morte  apavora-me. 

Ha  três  dias  que  estou  na  cama  olhando  para 
estas  neblinas  do  mar  que  me  gelam  a  alma.  Lem- 
bro-me  de  ti,  atando  o  passado  com  o  presente,  e 
fugindo  da  perspectiva  do  nosso  futuro  de  ambos. 
Punge-me  quando  quero,  —  e  não  sei  nem  posso  — 
dar-te  consolações.  Meu  querido  amigo,  não  tens 
amigo  mais  dedicado  nem  mais  infeliz.  Assim  devia 


Correspondência  epistolar  8i 

ser.  Os  afortunados  não  saberiam  chorar  por  ti  por 
não  haverem  chorado  por  si  mesmos. 
Meu  filho,  esperemos. 

Teu 

Camillo. 


oMeu  querido  filho. 

Esta  tua  carta,  meu  amigo,  deveria  eu  aceital-a 
como  merecida,  se  eu  houvesse  escripto  o  drama  co- 
mo eu  sei  que  o  podia  fazer,  cheio  de  inspirações  da 
tua  desgraça.  Tenho  diante  de  mim  dous  invenciveis 
empeços:  um  e  principal  o  sagrado  respeito  que  não 
deixava  transferir  d'ahí  para  um  palco  um  homem 
como  tu ;  o  outro,  era  o  medo  de  que  a  gentalha 
infamasse   o  escripto  com  as  vaias  de  especulação. 

Desviei-me  pois  muito  de  ti,  e  apaguei  no  meu  es- 
pirito quanto  pude  a  trágica  poesia  que  paira  sobre 
o  tumulo.  Bem  viste  que  fiz  gravitar  a  acção  do  dra- 
ma para  uma  filha  com  que  eu  quiz  affrontar  a  sus- 
peita de  que  eu  ia  pintar-te,  ao  par  de  não  sei  que 
infame. 

Desejo  muito  que  appareça  o  opúsculo  que  escre- 
vi. Lá  deixei  fallar  mais  o  coração  e  espirrar  o  fel 
sem  que  elle  bata  na  cara  senão  dos  que  vivem.  Es- 
crevo-te  com  grande  difficuldade  na  cama.  Estou 
bem  doente,  meu  filho. 

Mcu  querido  amigo,  eu  não  me  lembro  de  ti  sem 

lagrimas.  Adeus. 

Teu 

Camilio. 


VOL.  II 


82  Correspondência  epistolar 


Meu  amigo, 

Dize-me  como  está  a  tua  alma,  filho.  Quando  me 
faltam  as  tuas  cartas,  receio  que  a  saúde,  ao  cabo 
de  tantos  abalos,  se  te  enfraqueça.  E'  bom  e  justo 
conjecturar  que  não  desejas  viver ;  mas  eu  que  pre- 
vejo uma  épocha  de  tranquilidade  no  inverno  da  tua 
vida  peço  a  Deus  que  lá  te  deixe  chegar,  e  que  os 
meus  filhos  ainda  deponham  nas  tuas  mãos  as  car- 
tas que  recebi  tuas  n'esta  desgraçada  occasião. 

A  verdade  terrível  que  eu  já  vou  experimen- 
tando é  uma  tristeza  com  anciãs  de  desesperação 
que  me  não  deixam  trabalhar,  e  que  tudo  me  ves- 
te de  negro.  Estou  adivinhando,  persinto  o  abrir-se 
um  abysmo  que  me  vae  devorar  a  vida,  ou,  peor,  a 
razão. 

Deus  se  doa  de  desgraçados  como  tu  e  eu. 

Teu 
Cantil  lo. 


Meu  querido  amigo  do  coração, 

Peço-te  perdão  pelos  desgostos  novos  que  o  meu 
drama  te  está  grangeando.  O  primeiro  é  o  artigo 
do  Jornal  do  Commercio  de  sabbado.  Se  aquillo  é 
verdadeiro,  o  drama  desagradou  e  cahiu  a  pontapés 
da  moral  publica.  Se  aquillo  é  mentira,  é  mister 
desfaçatez  muito  animosa  para  vir  assim  adulteran- 
do o  que  o  publico  pensou  do  drama.  As  recitas  se- 
guidas parecem  desmentir  o  critico.  Seja  como  for: 


Correspondência  epistolar  83 

protestei ;  viu-se  o  protesto ;  pateiem-me  ;  mas  que 
te  poupem,  meu  querido  amigo.  O  Diário  de  Noti- 
cias, cujo  couce  eu  esperava,  houve-se  mais  beni- 
gnameme.  Ha  jornaes  que  nada  dizem,  e  louvados 
sejam  por  isso. 

Parece-me  que  escreverei  algumas  cartas  ao  G. 
de  Meirelles  acerca  do  meu  drama,  se  a  imprensa 
d'ahi  me  provocar.  Então  é  que  eu  hei  de  revolver 
ódios  e  fedores  de  boas  almas  remexendo  a  fundo 
nas  latrinas.  A  tua  desgraça  ha  de  apertar  mais  a 
orbita  de  degredo  da  sociedade  —  degredo  em  que 
eu  me  expatriara  ha  muito.  Não  deixarei  de  mim  ou- 
tra memoria  boa. 

Com  muito  prazer  dedicarei  o  livro  ao  teu  amigo 
de  Pernambuco.  Tenho  pena  que  m'o  lembrasses. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  amigo. 

Estou  espantado.  O  que  ahi  se  diz  do  drama  é 
tudo  quanto  eu  não  podia  imaginar.  Pesa-me  que  a 
imprensa  o  não  diga.  Hoje  escrevo  a  *  =*  *  pedindo- 
Ihe  que  me  remetta  o  que  se  houver  escripto  con- 
tra o  Condemnado,  Estou  reunindo  os  elementos 
para  escrever  uma  carta  que,  se  me  não  engano,  ha 
de  valer  mais  que  o  drama.  O  Jornal  do  Commer- 
cio  será  o  escopo  ostensivo  ;  mas  cu  queria  envol- 
ver nas  roscas  do  vergalho  o  F.  .  .  e  o  F. . .;  e,  se 
o  F. .  .  me  dér  azo  a  inflamar-lhe  os  seus  antigos 
brios,  estimarei.  Eu  sou  menos  bom  do  que  tu.  Que- 
ro me  só  com  os  infelizes  bons.  Que  saltem  para  o  ou- 


84  Correspondência  epistolar 

tro  lado  todos  os  infames.  Não  ha  ninguém  mais  inde 
pendente  com  a  resalva  d'um  caldo  de  couves.  A 
raiva  do  J.  ..  desafiei-lha  com  duas  ailusões  a  um 
famoso  artigo  sobre  a  Inviolabilidade  da  vida  hu- 
mana^ qce  o  Herculano  mandou  de  Casal  de  Lo- 
bos, segundo  é  fama. 

Os  olhos  não  me  deixam  escrever,  filho.  Estão  afo- 
gados em  lagrimas ;  mas  olha  que  são  de  ophtalmia. 

Alvoroça-me  uma  alegria  vinda  não  sei  d'onde. 
Tu  não  irás  para  a  Africa.  Deus  não  te  abandona- 
rá a  estes  cafres  nem  aos  outros. 

Teu 

Camillo, 


Meu  querido  José, 

Escreveu-me  hoje  o  Santos,  espantado  da  guer- 
ra surda  que  lhe  faz  a  imprensa,  e,  ao  mesmo  tem- 
po, diz  que  o  drama  é  applaudido.  Gonta-me  da 
pateada  é  inaugurada  por  dous,  que  succumbiram  ao 
estrondo  da  manifestação  contraria.  Este  espanto 
do  homem  é  irrracional.  Eu  sinceramente  te  digo  que 
esperei  a  noticia  de  terem  sido  quebrados  os  ban- 
cos na  primeira  representação.  Pois  é  possivcl  que 
dez  grosas  de  cocottes  inéditas  não  dispozessem 
das  ferraduras  dos  maridos  e  amantes  contra  o  dra- 
ma ? !  Onde  está  o  brio  d'esses  alcouces  ? 

O  Condemnado  devia  ser  já  retirado  da  scena, 
visto  que  está  impresso. 

A'  excepção  do  Primeiro  de  Janeiro^  não  houve 
um  jornal  que  dissessse  duas  palavras  aíFectuosas  ao 
livro,  e  este  mesmo  desde  que  viu  a  catadura  da 
imprensa  de  Lisboa,  encolheu-se  silencioso,  e  com- 


Correspondência  epistolar  S5 

mungou  no   conciliábulo   do  que  por  ahi  chamam 
respeito  á  moral. 

Eu  lucto.  Vou  escrever  logo  que  d'ahi  venham 
farrapos  com  que  eu  possa  bandarilhar  essa  gente. 

Que  queria  o  F.  ?  Que  queria  esssa  senhora  de 
quem  a  sociedade  diz  o  que  eu  não  ousaria  bosque- 
jar muito  em  sombra  ?  Oh  meu  caro  amigo,  se  Deus 
me  desse  saúde,  e  um  clarão  de  alegria,  com  que 
amor  d'arte  eu  não  entraria  de  tamancos  por  esses 
lamaçaes  dentro  ! 

Levantei-me  á  noite,  porque  a  alma  me  dava  phre- 
neticas  vibrações.  Tenho  andado  duas  léguas  no 
âmbito  do  meu  quarto,  e  não  comsigo  acalmar  a  fe- 
bre nervosa  que  me  faz  o  pensar  na  impossibilida- 
de em  que  me  vejo  de  fugir  para  sempre  d'este  in- 
fame paiz  com  os  meus  pobres  filhos. 

Reparte  commigo  das  tuas  dores  que  eu  tenho  co- 
ração para  ellas. 

Teu 

Camillo. 


Meu  Vieira  de  Castro, 

Alegrou-me  a  tua  carta  de  hontem,  meu  querido 
amigo.'  As  que  me  tens  escripto  depois  do  julga- 
mento convencem-me  que  a  desgraça  não  feriu  a 
tua  poderosa  compleição  intellectual.  Lá  está  o  teu 
espirito,  a  graça  fulgurante,  o  lume  vivo  dos  coris- 
cos de  sarcasmo  que  são,  a  meu  ver,  o  supremo  ta- 
lento d'este  século  —  a  feição  litteraria  que  unica- 
mente quadra  ás  cousas  e  ás  pessoas  do  nosso  tem- 
po. Parecer-te-ha  puerilidade ;  mas  alargou-se-me  o 


86  Correspondência  epistolar 

peito   de  jubilo  quando  pude  rir-me,  pela  primeira 
vez,  depois  que  me  esereves  d'essa  casa. 

Quanto  a  entender  com  a  imprensa  de  Lisboa, 
não  poderei  aceitar  a  teu  parecer.  Se  não  for  já, 
será  na  2.*  edição  do  Condcmnado,  se  se  fizer  de- 
pressa. Se  não,  escreverei  no  Primeiro  de  Janeiro, 
A'manhã  fica  prompto  o  opúsculo.  Vale  pouco  co 
mo  estylo  e  como  tudo.  Tem  valor  intrínseco,  só  para 
ti.  Olha  que  o  padre  já  morreu  depois  que  eu  co- 
mecei a  escrever  a  narrativa.  Era  abbade  nos  su- 
búrbios de  Guimarães.  Lê  a  ultima  pagina  e  dize- 
me  que  raivas  eu  vou  accender  n'esses  peitos  de 
matérias  azotadas  inflammaveis !  Eu  queria  que  es- 
sas duas  paginas  finaes  fossem  desenvolvidas  pelo 
talento  do  Jayme.  Se  eu  te  podesse  defender,  fal- 
laria  n'aquelle  sentido  duas  horas,  e  pouco  mais 
diria.  Não  citaria  criminalistas  nem  physiologistas. 
Desprezaria  as  futilidades  do  alfayate,  das  econo- 
mias, da  casa  alugada  ou  devoluta,  etc.  Pôde  ser 
que  d'ahi  resultasse  o  darem-te  condemnação  de 
maior  pena.  Eu  tenho  dito  que  só  um  homem  po- 
dia defender  outro  na  tua  situação :  eras  tu.  N'este 
paiz,  ninguém  mais.  Tu  eras,  e  serás  o  mais  elo- 
quente homem  de  Portugal.  Quando  tiveres  a  mi- 
nha edade,  terás  restaurado  a  tua  primazia.  Eu  já 
te  não  ouvirei ;  mas  pedirei  aos  meus  filhos  que  se 
façam  vistos  de  ti.  Has  de  ser  tu  quem  os  ha  de  fa- 
zer homens.  D'aqui  t'o  peço. 

Teu 

Camilo. 


Correspondência  epistolar  Sy 

Meu  querido  José, 


Devemos  hoje  receber  o  opúsculo.  Não  ajustam 
as  idéas  finaes  que  vão  n'elle  ao  que  tu  adoptarias 
na  defeza  de  um  réo  nas  tuas  circumstancias.  Eu 
não  saberia,  meu  filho,  tirar  da  fria  premeditação  as 
illações  directas  e  commoventes  da  desculpa.  Um 
realce  d'alma,  uma  concepção  introversa  deixa-me 
entender  o  teu  espirito  ;  mas  com  palavras,  com  ar- 
gumentos não  vingaria  ninguém,  que  não  fosses  tu 
com  o  teu  talento  e  as  tuas  experimentadas  angus- 
tias, convencer  nem  sequer  persuadir.  Desforços  de 
tal  ordem  serenamente  meditados  !  Deus  me  livre 
da  sombra  dos  infernos  que  atravessaste  até  che- 
gar ao  leito  onde  o  teu  coração  já  não  podia  receber 
um  abalo  de  piedade.  Eu  concebi  que  os  dias  ou  ho- 
ras que  intercorreram  desde  a  affronta  ao  desforço 
foram  uma  cadêa  de  idéas,  umas  a  derivarem  das 
outras,  fechada  em  fim  pelo  elo  da  morte.  Poderei 
ter-me  enganado.  E  porque  não  ?  Quem  é  que  pôde 
julgar-te?  A  tenta  da  psychologia  não  alcança  o  abys- 
mo  onde  tu  meditavas  ou  premeditavas.  Parece-me 
pois  que  me  desencontrei  da  tua  alma  e  razão  no 
modo  como  expliquei  muito  superficialmente  o  que 
foi  em  ti  a  premeditação.  Esta  tua  carta  deixa-me  me- 
ditativo, a  scismar  como  um  hábil  artista  da  pala- 
vra, mais  ou  menos  accêsa  pela  paixão,  poderia  aba- 
lar a  consciência  d'um  jury.  Hei  de  tentar,  como  ar- 
tista, como  romancista  alguma  vez  esta  these  que 
me  causa  um  assombro  ligado  ao  desejo  de  a  poder 
seguir  de  modo  que  tu  a  applaudisses. 

Os  meus  filhos  receberam  os  teus  recados.  O 


88  Correspondência  epistolar 

Jorge  vê  muito  o  teu  retrato,  e  fixa-o  com  tristeza. 
Adeus,  fiiho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  querido  amigo. 

Recebo  duas  cartas,  incluindo  uma  a  Secreta  que 
hei  de  ler  devagar.  Já  a  li  de  fugida,  e  folguei  de 
vêr  que  tocaste  os  pontos  capitães  em  que  eu  as- 
sentaria a  tua  defeza  a  dentro  do  rigoroso  circulo 
da  premeditação. 

Agora  fallemos  da  tua  mágoa  por  amor  da  má 
interpretação  que  a  maldade  ou  a  estupidez  podem 
dar  á  narrativa.  Primeiro  que  tudo,  contei  uma  his- 
toria ouvida,  e  essa  historia  não  era  a  tua.  Em  se- 
gundo lugar,  seria  inverosímil  que  a  mulher  agoni- 
sante  dissesse  ao  sacerdote:  amei  e  fui  amada: 
se  amou,  esqueceu  o  amor  ao  través  do  supplicio 
de  annos;  se  foi  amada,  não  ousará  dizel-o  ainda 
que  o  sinta.  O  que  ahi  ha  não  só  verosimil,  senão 
verdadeiro,  é  o  marido  dizer:  «Mentiu-me!  se  me 
não  amou,  fingiu-o ;  eu  aceitei  a  mentira  e  a  mu- 
lher; cahida  a  mascara,  vi  a  infame;  castiguei  a  na 
extensão  da  perfídia.  Quiz  demorar-lhe  a  agonia 
tanto  quanto  podesse,  aproximando-a  da  duração 
da  minha  irremediável  desgraça  —  coração  e  orgu- 
lho esmagados.» 

Mas  a  que  vem  isto  ?  Repito :  eu  não  quiz  con- 
tar a  tua  desventura  nem  no  Condemnado  nem  n'es- 
te  folheto  N'aquelle  criei  o  que  quer  que  fosse  que 
defrontasse  um  caso  verosimil  e  desse  ares  de  ana- 
logia com  o  verdadeiro.  Na  narrativa,  aceitei  uma 


Correspondência  epistolar  8g 

historia  que  julgo  verdadeira,  e  que  me  parece  bem 
trazida  ao  intento.  Se  n'este  ou  no  outro  escripto 
eu  intentasse  bosquejar  muito  em  sombra  a  snr.* 
D.  Claudina  havia  de  vestir-lhe  a  memoria  de  lu- 
tos molhados  de  piedosas  lagrimas ;  mas  a  severi- 
dade não  inclinaria  reverente  a  cabeça  diante  do 
seu  tumulo.  Ora  por  isso  mesmo  que  eu  o  não  po- 
dia assim  fazer,  é  que,  de  todo  em  todo,  abstrahi 
de  referencias  reprováveis  a  tal  senhora  a  quem  tu 
has  de  perdoar  primeiro  de  que  os  teus  amigos. 
Que  a  sociedade  esgaravate  nos  meus  dous  escri- 
ptos  referencias,  personalisações,  pontarias  cobar- 
des, embora;  mas  tu,  meu  amigo,  não  deves  ahi 
ver  senão  hypotheses,  pretextos,  inquaciraçôes  em 
que  o  dramaturgo  ou  romancista  busca  mostrar  as 
correlações  da  tua  catastrophe. 

Quem  ha  de  inferir  do  que  eu  escrevi  a  incer- 
teza em  que  estou  da  probidade  com  que  diligen- 
ciaste o  teu  casamento?  Pois  não  bastaria  para  mim 
o  que  basta  para  os  teus  inimigos  —  as  cartas  im- 
pressas no  processo  ?  Vês  o  lado  péssimo  das  cou- 
sas, e  sobejam-te  direitos  á  desculpa.  O  folheto 
(verás)  não  impressiona  ninguém  para  bem  nem 
para  mal.  Devo  dizer-te  que  as  tuas  expansões  só 
me  magoam  por  que  exprimem  o  teu  desgosto.  Não 
obstante,  eu  me  consolo  com  a  certeza  de  que  elle 
—  o  folheto  —  não  será  these  para  allusões,  nem 
ha  de  ser  ferido  pelo  lado  que  se  te  figura. 

Adeus,  meu  querido  José.  Abraçote. 

Teu  do  coração 
Camillo. 


go  Correspondência  epistolar 


Meu  amigo. 

Reli  as  magnificas  paginas  da  tua  inexprimivel 
dor.  Bem  m'o  dizia  eu  que  só  tu  eras  idóneo  para 
arrancar  um  réo  ás  presas  da  justiça;  e  direi  ago- 
ra mais,  que  nem  tu,  se  a  experiência  te  náo  desse 
o  baptismo  d'esse  fogo  infernal  que  faz  os  athletas, 
os  esmagadores  da  hydra  que  se  chama  a  Razão 
social.  Esta  razão  tem  momentos  de  se  aquecer  e 
diluir  a  um  raio  do  céo;  o  raio  é  a  palavra  que  en- 
tra, punge,  dilacera  e  repuxa  do  pedregal  a  fonte 
das  lagrimas.  Um  jury  assim  íjopesado  e  como  coa- 
cto,  é  misericordioso,  é  compassivo,  é  bom  sem  o 
querer  ser.  O  homem  que  assim  o  subjugou  é  a 
mais  sublime  cousa  humana  que  Deus  creou.  E'  o 
que  tu  foste  uma  vez,  quasi  brincando  com  o  teu 
talento;  é  o  que  ninguém  podia  ser  em  Portugal, 
desde  que  tu  cerraste  os  teus  lábios  com  a  mão  que 
beijaste  na  primeira  hora  da  tua  viuvez. 

Ha  não  sei  que  semelhança  entre  a  eloquência 
e  o  raio  O  raio  abraza,  pulverisa  quasi  sem  quei- 
mar; a  eloquência  deslumbra  quasi  sem  persuadir. 
Nos  lances  supremos  da  espécie  do  teu  desaggra 
vo  levado  a  juizo,  cumpria  raciocinar  menos  e  aper- 
tar mais  o  coração.  A  lógica  das  multidões  é  a  dos 
jurados.  Da  lama  petrificada  não  ha  fusil  que  tire 
faisca.  Pareceu-me  argumentador  sobre-excellente 
o  Jayme;  e,  depois  que  o  reli,  sem  deixar  de  o 
admirar  muitíssimo,  notei  que  apenas  uma  vez  o 
ecce  Deos  lhe  relampagueou  no  espirito. 

A  que  vem  tudo  isto,  meu- amigo?  Ah!  queria 
dizer-te  que  n'este  papel  que  hoje  te  devolvo  está 
tudo  o  que  não  estava  no  discurso  da  tua  defeza, 


Correspondência  epistolar  gi 

nem  nas   cousas  que  eu  tenho  escripto  indirecta- 
mente apropositadas  a  ti. 

Mais  tarde  poderás  escrever  um  formoso  livro 
com  lagrimas  ;  mas  não  o  escreverás.  De  hoje  a 
dez  annos,  do  homem  que  és,  não  existirá  um  áto- 
mo: tudo  se  haverá  desfigurado  em  alma,  em  fa- 
culdades, em  impressões.  A  desgraça  não  vai  além 
de  certas  balizas,  e  dentro  d'ellas  ou  mata,  ou  suc- 
cumbe.  As  saudades  eternas  são  as  que  deixam  as 
almas  que  nos  felicitaram,  que  nos  dulcificaram  o 
travor  das  cousas  baixas  da  vida,  que  nos  honraram 
o  talento  ostentando  a  soberba  de  serem  nossas. 
Essas  sim ;  lembram-nos  sempre,  porque  nos  fal- 
iam do  céo.  e  não  nos  estão  contemplando  de  lá 
nos  cárceres  ou  nos  desterros.  Perdão,  e  adeus,  fi- 
lho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  querido  amigo. 

Ha  muitos  dias  que  não  te  escrevo.  Tenho  es- 
tado como  atrophiado  de  alma  e  de  corpo  debaixo 
d'um  peso  de  tristeza  que  me  esmaga.  Estas  crian- 
ças estão-me  sempre  a  pedir  contas  do  futuro  que 
lhes  vou  preparando  —  um  ponto  negro  que  me 
salta  ao  espirito  cada  manhã  e  me  faz  dos  dias  uma 
cerrada  escuridão.  Ainda  bem,  meu  pobre  amigo, 
que  são  desgraçados  os  que  mais  te  querem,  e  por 
isso  se  sentem  impellidos  para  as  tuas  dores  que 
ensinam  coragem  aos  mais  cobardes. 

Dize  ao  Pedro  dos  Reis  que  o  seu  escripto  sahe, 
precedido  d'uma  carta  minha,  no  Primeiro  de  Ja- 


g2  Correspondência  epistolar 

neiro.  Gostei  muito  da  idéa  e  da  forma.  Bom  seria 
que  esse  moço  empregasse  as  suas  horas  a  traba- 
lhar, de  modo  que  ao  sahir  d'ahi  possa  vender  as 
suas  desgraças,  como  eu  fiz  quando  sahi  da  cadêa. 
Hoje,  toda  esta  carta  é  de  quem  pede  uma  con- 
solação á  alma  generosa  que  ia  velar  as  horas  do- 
lorosas de  um  enfermo  de  typho.  As  tuas  lagrimas 
devem  ser  boa  consolação  para  quem  as  merecer. 
Os  pequenos  são  felizes  :  este  contraste  é  o  dos 
anjos  a  brincarem  á  volta  d'urr)a  voragem,  d'onde 
eu  os  vejo  a  resvalar  para  o  meu  seio.  Deus  m*os 
não  tire  ainda  assim.  Hontem,  vi  e  festejei  um  teu 
sobrinho.  Tirei-o  pela  semelhança  comtigo  e  com  o 
António. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José, 

Não  me  tem  faltado  alguma  das  tuas  cartas.  Pal- 
iei ha  pouco  ao  Germano  de  Meirelles  no  sentido 
da  tua  carta.  Disse-me  que  os  folhetins  escriptos  á 
pressa  e  na  occasião  sentiam-se  da  falta  de  harmo- 
nia, e  requeriam  ser  refundidos  para  sahirem  mais 
lustrosamente  em  livro.  Além  de  quê,  alguns  apre- 
ciadores de  má  fé  e  má  alma  lh'os  tem  menos-ca- 
bado  com  a  pecha  de  muito  lyricos  e  pouco  lógi- 
cos. Por  maneira  que  o  talentoso  rapaz  teme-se  de 
cahir  no  desagrado  dos  litteratos.  Seja  como  for, 
instado  por  mim,  espero  que  elle  os  retoque  e  re- 
produza. Se  elle  apanhasse  o  estylo  e  amputasse 
parte  dos  adjectivos  explicaria  melhor  e  persuadia 
mais.  Ainda  assim,  o  Meirelles  tem  muitissimo  ta- 
lento a  germinar  para  ao  diante,  não  te  parece? 


Correspondência  epistolar  gS 

Alegra-me  a  esperança  de  que  virás  para  o  Por- 
to, se  a  pena  te  for  commutada  em  algum  tempo 
de  prisão.  Eu  cuidaria  que  te  tinha  mais  perto  de 
nós,  e  que  a  privação  da  liberdade  te  seria  adoça- 
da pela  continua  presença  dos  teus,  e  dos  amigos 
que  te  mereçam  tal  nome.  Adeus,  meu  querido 
José.  Abraçamos-te  todos  com  saudade  e  esperança. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  Vieira  de  Castro, 

Commoveu-me  o  teu  aífecto  aos  meus  filhos.  Agra- 
dece-t'o  a  minha  alma.  Eu  não  comprehendo  o  apar- 
tar-me  d'elles,  senão  para  morrer.  E'  de  esperar 
que,  passados  annos,  a  necessidade  me  dê  forças,  e 
elles  mesmos  me  dêem  exemplo  do  desprendimen- 
to. Elles  hão  de  facilmente  desligar-se  de  mim  como 
eu,  ha  trinta  annos,  suspirava  por  não  ter  familia 
que  me  nublasse  o  sol  dos  quatorze  annos.  E'  tudo 
providencial.  Estas  avesinhas  emplumam  e  alam-se 
para  regiões  onde  os  pobres  velhos  dos  pães  não 
podem  acompanhal-as.  E'  então  que  a  gente  desce 
d'ellas,  que  vão  voando,  os  olhos  para  a  terra  onde 
nada  nos  fica,  e  dizemos:  «Acabou-se  tudo:  agora 
podemos  morrer.» 

Entretanto,  meu  caro  amigo,  se  elles  deverem  a 
ti  o  seu  futuro,  formarão  uma  das  paginas  mais  la- 
grimosas da  tua  biographia  —  lagrimas  que  são  a 
delicia  das  almas  que  só  sabem  chorar  quando  a  ad- 
miração toca  o  enthusiasmo,  e  chegam  a  entender 
que  ha  n'este  mundo  alguma  cousa  em  que  a  luz 
de  Deus  ainda  reverbera. 


g4  Correspondência  epistolar 

Como  não  receberia  eu  no  coração  o  teu  alvitre 
de  impellir  os  meus  filhos  para  fora  d'aqui  !.. .  Se 
elles  forem  um  dia,  pedir-lhes-hei  que  não  voltem. 

Deixa-mc  triste  o  que  me  dizes  da  Relação.  A' 
vista  dos  teus  receios,  eu  antes  quizera  que  o  pro- 
cesso chegasse  ao  supremo  tribunal  e  lá  fosse  an- 
nullado.  Sei  que  te  aterrra  o  supplicio  de  um  novo 
julgamento  ;  mas  que  abençoadas  torturas  se  sabias 
d'ellas  com  a  liberdade  de  envelhecer  e  morrer  de- 
baixo das  tuas  arvores !  Que  te  estou  eu  fallando 
em  velhice  e  morte  ?  Vaticino  que  terás  ainda  n'esta 
terra  a  posição  de  que  te  precipitou  a  fatalidade. 
Como  na  tua  queda  não  pesou  sentimento  infame 
nem  degradante,  a  rehabilitação  é  tão  natural  e  ne- 
cessária que  nem  tu  farás  esforços  para  ella,  nem 
o  mundo  concessões  para  t'a  dar. 

Folgo  de  me  não  haver  enganado  com  respeito  ao 
opúsculo.  Os  que  ahi  falaram  d'elle  superficialmente 
não  viram  sombra  das  tuas  suspeitas.  Consta-me 
que  a  extracção  tem  sido  mediana  aqui  e  ahi.  Meu 
querido  amigo,  peço-te  que  não  dês  grande  pezo  ás 
minhas  tristezas.  Eu  pejo-me  de  me  haver  queixa- 
do da  sorte,  a  quem  só  por  um  supremo  esforço  de 
coragem  poderá  consolar  dores  alheias.  Adeus. 

Teu 

Camillo. 


oMeu  querido  collega. 

Chamo-te  collega  porque  fazes  sermões.  Aqui, 
ha  dçis  mezes,  um  padre  de  P. . .  (vê  tu  onde  che- 
ga  a  minha  fama  agiologica !)  escreveu-me,  pedin- 


Correspondência  epistolar  g5 

do-me  um  sermão  sobre  não  sei  quê,  pelo  qual  me 
oíferecia  45j5(ooo  réis  fortes.  Nunca  do  púlpito  da 
minha  cabeça  teria  sabido  cousa  tão  cara,  se  eu  po- 
desse  pregar.  N'aquelle  lance  o  intelecto  estava  fa- 
nhoso e  a  piedade  fria.  Respondi  que  não.  Mas  no 
paquete  seguinte  vieram  as  dez  libras.  Agora  estou 
á  espera  que  o  padre  me  declare  um  Bossuet  lara- 
pio. Tenho  a  ordem  á  espera  que  elle  a  peça,  ou 
que  me  incumba  de  converter  o  gentio  de  P. . . 

Has  de  mostrar-me  um  dia  o  teu  sermão.  Falta- 
va-me  vêr  isto !  Tu,  meu  José,  a  compulsar  os 
Ghrysosthomos  e  os  Damascenos  através  d'uns  ócu- 
los de  prata. 

Resolvi  o  Germano  a  tirar  o  folheto ;  supponho 
porém  que  elle  o  não  poderá  fazer  até  ao  dia  12, 
em  razão  de  querer  retocar  os  folhetins  e  concate 
nal-os  mais  logicamente.  Hoje  lhe  direi  o  que  for 
preciso  para  activar  a  impressão.  O  Condemnado 
foi  para  o  Rio  em  pequeno  numero  de  exemplares. 
Penso  que  foram  cem.  Duvido  que  o  lá  represen- 
tem, sabido  o  effeito  de  Lisboa.  Os  artistas,  a  meu 
vêr,  querem  estar  de  boas  avenças  com  as  maiorias, 
sejam  ellas  boas  ou  más. 

Não  me  admira  a  pequena  venda  do  folheto  de 
teu  irmão.  *  Em  primeiro  logar  não  contava  cousa 
desconhecida.  Em  segundo  estava  escripto  sem  acri- 
monia  e  com  a  máxima  seriedade.  Em  terceiro  lo- 
gar era  muito  barato.  A  inducção  que  tiraste  do 
desafecto  por  ti  é  inexacta.  Esta  gente  queria  que  o 


1  A  I."  edição  biographica  de  Vieira  de  Castro,  escripta 
admiravelmente  por  seu  irmão  António,  está  esgotada  ha 
muito  tempo. 


g6  Correspondência  epistolar 

folheto  revelasse  os  pontos  culminantes  da  tua  vida 
em  relação  á  catastrophe.  Sobejam  as  revelações  no 
processo  \  mas  esperavam  que  teu  irmão  se  detives- 
se n'aquelle  passo.  Além  de  tudo,  se  a  biographia 
fosse  assignada  por  outro  qualquer  nome,  embora 
obscuro,  vender-se-hia  abundantemente.  Isto  não 
impede  que  tu  olhes  para  o  mundo  como  antes  o 
vias.  Eu  queria  escrever  sobre  o  opúsculo  no  *  *  *; 
mas  tu  ignoras  quem  são  aquelles  rabbis  da  impren- 
sa ?  Aquelles  homens  lançam  na  cuia  da  balança  as 
idéas,  e  na  outra  cuia  quinze  tostões.  Se  os  quinze 
tostões  sobem,  a  idéa  lançada  á  circulação  é  boa ; 
se  descem,  a  sociedade  pôde  subverter-se.  Razão 
porque  não  quero  entender  com  elles,  e  ha  muito 
que  os  não  trato.  O  Germano  escreveu  acerca  da 
tua  biographia.  Não  obstante,  fallarei  com  elle,  pe- 
dindo-lhe  licença  para  escrever  depois  que  elle  o  fez. 
Adeus,  meu  querido  amigo. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José, 

Não  me  tens  dito  nada  das  tuas  occupações  n'es- 
sa  casa.   Sei   que   tens   ahi  bastantes  livros ;  *  mas 


1  A  livraria  de  Vieira  de  Castro,  no  Limoeiro,  constava  dos 
seguintes  authores:  Cícero^  Beschcrelle,  Cavour,  Chateau- 
briand,  Gui:^oí,  Félix,  Camões,  Cinq-Mars,  Agrícola,  Pelle- 
tan,  Lamartine,  ^anmon,  "Barrot,  Qainet,  Macaullay,  Cas- 
tilho, Gautier,  Girardin,  Rap  et ,  Byron,  Mepères,  Heine  Bos- 
suet,  Homero,  Lamennais,  Ler?7iinier,  Goethe,  Filinto,  Shaks- 
peare,  padre  A.  Vieira ^  Ovidio,  V.  Hugo,  Villemain,  Fléchier, 
etc. 


Correspondência  epistolar  gj 

não  sei  se  podes  ler  com  attenção.  Escrever  é  q 
que  mais  quadra  ao  teu  espirito.  As  idéas  alheias 
não  podem  entrar  em  coração  e  alma  onde  ha  en- 
chentes de  amargura.  O  allivio  que  pôde  dar  a  in- 
telligencia  é  o  da  expansão,  o  esvasiar-se  em  affe- 
ctos  ou  ódios  a  superabundância  do  rancor  ou  da 
saudade. 

A  tua  saudade  deve  ir  até  onde  .a  honra  te  po- 
zer  a  baliza.  Pôde  ser  que  o  coração  por  vezes  tra- 
ve lucta  com  a  tua  dignidade,  se  te  deixares  ir  com 
elle  provas  para  mim  a  doçura  do  teu  caracter  e  a 
profundeza  do  amor  que  te  levou  ahi.  Todavia,  eu, 
se  Deus  me  ouvisse,  pedir-lhe-ia  que  tivesses  sem- 
pre o  fito  posto  no  futuro,  e  te  compenetrasses  da 
certeza  de  que  na  tua  vida  se  abriu  um  intervallo 
negro,  uma  vicissitude  que  ha  de  ser  allumiada  for- 
çosamente pelo  sol  de  dias  bonançosos. 

Adeus,  filho.  Hoje  estou  soffrendo  muito  da  zoei- 
ra e  d'uns  vagados  que  me  assustam.  Esta  infelici- 
dade da  doença  não  me  deixa  ir  vêr-te.  Figura-se- 
me  que  me  ha  de  apanhar  longe  de  casa  uma  febre 
cerebral.  Que  terrivel  é  este  soífrimento  !  Se  me 
dissessem  antes  de  eu  adoecer  que  havia  de  estar 
assim  dous  annos,  eu  cuidaria  que  ao  fim  de  pou- 
cos dias  preferiria  a  morte.  Assim  são  os  cegos  e  to- 
dos os  desgraçados  a  quem  a  Providencia  lhes  deixa 
uma  alma  contente  nas  suas  trevas.  Mas  eu  !  como 
está  esta  pobre  alma,  Vieira  de  Castro  !  Adeus,  fi- 
lho. Olha  que  eu  sô  tenho  estes  desafogos  comtigo. 
Se  fosses  feliz,  não  me  queixaria  tanto. 

Teu 

Camilio, 

voi,.  II  7 


g8  Correspondência  epistolar 


Meu  José, 

Todos  os  jornaes  publicaram  a  dadiva  e  a  rejei- 
ção. Como  isto  está  !  Espantam-se  de  o  delegado 
não  receber  de  bom  rosto  o  ferrete  na  testa  !  Es- 
crevi agora  uma  local  para  o  Primeiro  de  Janeiro, 
e  já  a  enviei  a  ver  se  amanhã  a  publicam.  Receio 
que  a  achem  mordente.  Se  m'a  rejeitarem  man- 
do-t'a. 

Respeito  a  sermões,  meu  filho,  escrevi  algumas 
dúzias  d'isso.  Nunca  li  nada  nem  sei  onde  se  lê  a 
boa  doutrina.  Sabido  o  texto  (o  que  se  aprende 
no  Evangelhe  do  dia)  pegava  a  discorrer  e  a  cor- 
rer segundo  a  piedosa  phantasia  me  esporeava.  Al- 
gumas vezes  collaborava  o  coração  mais  ou  menos. 
Todos  os  meus  sermões  eram  ignorantes  de  theo- 
logia  como  qualquer  bispo,  exceptuando  o  de . . . 
que  esse  é  mais  ignorante  que  qualquer  bispo. . .  O 
que  elles  tinham  melhor  que  a  theologia  era  lingua- 
gem commovente.  Quem  tiver  isto  em  maior  copia 
será  o  melhor  fabricante  de  sermões.  Ora  que  não 
farás  tu,  se  quizeres  ?  Mas,  pelo  que  vejo,  queres 
escrever  alguma  bibliotheca  de  pregadores  !  Pois 
escreve,  filho  :  escreve  tudo  que  te  entretenha. 

A  local  sahiu.  Ainda  assim  estrellaram^n^a,  Vê- 

se  que  respeitam  quem  dá  prendas  de  dous  contos. 

Ou  seria  antes  em  deferência  ao  M. . .  ? 

Adeus,  meu  querido  José. 

Teu 

Camillo. 


Correspondência  epistolar  gg 


Meu  José. 

Porque  me  não  escreves  ha  tantos  dias  ?  A'  es- 
pera de  carta  vou  adiando  escrevêr-te,  e  quem  sabe 
se  estás  doente,  ou  triste  a  ponto  de  te  aborrecer 
escrever  ?  Teu  mano  esteve  aqui  ha  dias,  e  pareceu - 
me  menos  descontente  do  teu  estado. 

Ha  muito  tempo  que  náo  fallei  ao  Germano  \ 
mas  teu  irmão  lhe  fallou  ;  talvez  saibas  se  elle  trata 
de  publicar  o  folheto.  N'esta  casa  pesa  uma  atmos- 
phera  de  fria  tristeza,  tanto  maior  quanto  lá  fora  ha 
alegria.  Para  consolação  nossa,  sabemos  que  estes 
gritos  não  deixam  ouvir  os  gemidos  de  muitos  infe- 
lizes em  maior  grau.  O  teu  carnaval,  meu  pobre 
amigo,  foi  como  o  meu  de  i85i.  Eu  era  então  mais 
feliz,  por  que  n'esses  três  dias  ninguém  me  procurou* 
Penso  que  sou  hoje  mais  desgraçado,  porque  então 
olhava  para  a  vida  doze  annos  depois,  e  imaginava-a 
pelo  coração  d'aquelle  tempo.  De  hoje  a  doze  an- 
nos sentirás  um  vácuo  maior  na  alma,  a  qual  se  re- 
cordará do  tempo  que  hoje  te  parece  calamitoso. 
Tens  tu  saúde,  meu  querido  amigo  ? 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  José, 

Eu  não  esperava  que  raios  tão  intensos  de  ale- 
gria rompessem  a  escuridão  da  tua  vida,  e  menos 
ainda  que  alguma  hora  eu  sentisse  o  prazer  de  aben- 
çoar uma  parte  d'esta  sociedade,  na  qual  eu  imagi- 
nava extinctos  todos  os  bons  sentimentos.  A  coroa 


100  Correspondência  epistolar 

dada  ao  Jayme  Moniz  tem  a  mais  brilhante  signifi- 
cação ;  e,  vinda  do  Brazil.  E'  tudo  que  a  provi- 
dencia te  podia  dar.  Eu  hoje  tenciono  escrever  a  no- 
ticia para  o  Primeiro  de  Janeiro. 

Ouvi  ler  as  cartas  do  Brazil.  Tocou-me  a  sim- 
plicidade da  carta  do  Albino.  Aquillo  é  um  homem 
ás  direitas.  Peço-te  que  digas  ao  doutor  Jayme  que 
eu  não  podendo  dar-lhe  diamantes  para  a  coroa, 
quizera  poder  dar  lhe  as  lagrimas  de  alegria  que 
elle  apreciaria  superiormente. 


Teu 
Camillo, 


Meu  José. 

Folguei  que  te  agradasse  o  folhetim.  Sei  que  no 
Porto  foi  gostado  de  muitos  e  reprovado  como  vi- 
rulento por  alguns.  Regala-me  a  apreciação  dos  se- 
gundos. Mas  o  que  me  lastima  é  que  d'ahi  nem  de 
cá  me  não  falle  ninguém  á  mão.  Anda  o  Germano 
a  desafiar  a  imprensa,  e  não  ha  sequer  um  anony- 
mo  que  nos  ladre.  Desprezo  ou  cobardia  ?  Se  esse 
homem  chamado  Ernesto  querelasse  ao  menos! 

Hoje  respondi  á  academia  dramática  sobre  li- 
cença para  representar  em  Coimbra  o  Condemna- 
do.  Por  affecto  de  rapazes  que  te  lá  conheceram  é 
que  o  drama  se  representa.  Em  Villa  Real  também 
se  está  ensaiando.  Veremos  se  se  annuncia  em  Ca- 
beceiras de  Basto. 

Ha  três   dias  que  me  dava  cuidado  o  teu  silen- 


Correspondência  epistolar  lOi 

cio.  Hoje  não  esperava  eu  carta.  Afiflige-me  o  teu 
abatimento.  Comparo-me  comtigo  Jios  dias  de  ha 
onze  annos,  e  vejo-te  incomparavelmente  mais  in- 
feliz. Se  eu  soíFria,  com  que  palavra  se  ha  de  di- 
zer o  que  passa  em  tua  alma !  Certamente  a  liber- 
dade em  Africa  te  ha  de  alumiar  a  alma  escureci- 
da ahi ;  mas,  olha,  filho,  os  teus  amigos  esperam 
que  lá  não  vás,  e  contam  com  a  tua  condescendên- 
cia e  conformidade.  Estas  delongas  na  Relação 
parecem-me  bom  annuncio,  e  estou  convencido  de 
que  ha  quem  trabalhe  poderosamente  a  teu  favor. 
Eu  queria  que  te  convencesses  como  eu,  e  até  que 
te  interessasses  na  tua  redempção,  para  que  a  es- 
perança te  fosse  amparando.  Vê  que  estás  muito 
novo,  meu  amigo,  que  a  tua  alma  não  pôde  nem 
deve  cahir.  N'essa  escuridão  deve  alumiar-te  a 
honra  —  a  honra  que  todos  vêem,  e  até  os  teus  ini- 
migos confessam. 

Deus  permittirá  que  a  nuvem  tenha  passado  e 
o  teu  espirito  volte  á  prodigiosa  serenidade  que  tu 
me  deixavas  entrever  nas  tuas  ultimas  cartas. 

Adeus,  meu  filho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José. 

Dou-te  uma  boa  nova.  O  morgado  de  Pereira 
vai  comtigo  para  Africa.  Este  homem  tem  a  sua 
casa  perdida  ou  muito  empenhada,  e  espera,  bem 
fundado,  resgatal-a  com  o  negocio  em  Africa  para 
o  qual  elle  tem  vocação,  força,  saúde  e  coragem. 
Não  leva  mais  de  um  conto  de  réis ;  mas  tu  lhe  da- 


J02  Correspondência  epistolar 

rás  a  parte  correspondente  nos  interesses,  ou  maior 
segundo  os  grandes  serviços  que  elle  pôde  prestar. 
Tu  serás  o  espirito,  e  elle  o  braço  Se  a  agricultu- 
ra te  convier  como  fonte  mais  copiosa  de  riqueza, 
deixa-lhe  a  elle  a  direcção  d'esse  mister,  que  tens 
um  homem  ao  pintar.  Além  de  tudo,  levas  comtigo 
um  homem  que  sabe  ser  amigo  como  um  cão  e  que 
tem  alma  á  proporção  da  força  Eu  exultei  quando 
o  vi  enthusiasmado  com  esta  idéa.  Ahi  o  tens  no 
principio  da  próxima  semana,  e  a  mim  com  elle. 
Quer  conversar  còmtigo,  e  fazer-te  sentir  que  não 
mudará  de  propósito,  e  que  não  voltará  para  Portu- 
gal senão  comtigo.  Deixa  a  mulher  e  os  filhos ;  e 
como  a  casa  em  que  vivem  tem  de  ser  vendida  para 
pagamento  de  dividas  cujo  juro  devora  os  restantes 
bens,  vão  ella  e  os  filhos  para  a  casa  de  Seide  que 
D.  Anna  lhe  oftereceu.  Isto  tudo  parece-me  que  te 
deve  alegrar,  meu  filho. 

Já  deves  saber  que  o  F. . .  sahiu  depois  de  uma 
escandalosa  exposição  de  torpezas  que  durou  vinte 
e  cinco  horas.  Como  a  tua  situação  me  parece  ma- 
gestosa  depois  d'este  ultimo  brado  a  teu  favor ! 

Eu,  infelizmente,  não  posso  escrever  a  tal  res- 
peito ! . . . 

Até  terça-feira,  penso  eu. 

Teu 


Camillo, 


Meu  José. 


O  Condemnado  levantou-se.  Com  a  máxima  sin- 
ceridade te  digo  que  eu  desejei  quando  o  concluí 
vêl-o  repellido  em  Portugal  como  lá  foi  no  Brazil. 
Se  a  sociedade  me  recebesse  aquillo  bem,  dir-se-hia 


Correspondência  epistolar  io3 

que   o  meu  protesto  era  vão,  e  o  escripto  uma  su- 
perfluidade. Se  eu  affrontei  os  infames,  porque  me- 
hei  de  doer  do  desforço  d'elles  ?  Eu  não  vim  a  con- 
verter, filho,  vim  provocar.  Ora  agora  contra  o  cou- 
ce é  que  eu  não  protesto. 

Vamos  ao  importante.  A  local  da  coroa  sahiu  ho- 
je. A  coroa  levantou  grande  poeira  no  Rio:  tornou- 
se  de  espinhos  para  a  tua  sogra.  O  Condemnado^ 
como  drama,  é  que  não  podia  nem  devia  offendel-a 
por  metade.  Se  ella  alguma  hora  o  ler,  verá  que  eu 
respeitei  quanto  devia  e  podia  a  memoria  de  sua  fi- 
lha. Se  tu  não  encontraste  alli  desdouro,  com  que 
direito  o  encontraria  ella  ?  Na  coroa,  porém,  ha  acin- 
te, ha  apologia  do  teu  acto  significada  no  brinde  a 
quem  t'o  justificou  como  lance  de  honra.  Talvez 
que  nem  os  signatários  comprehendessem  bem  o  al- 
cance do  presente,  e  os  ódios  que  hão  de  seguir-se. 

Teu  irmão  está  tão  enlevado  nas  tuas  propen- 
sões ao  negocio  de  Africa  que  não  será  maravilha 
lá  vêl-o.  A'  senhora  já  elle  disse  que  talvez  fosse  a 
Africa  estar  seis  annos.  Ella  porém,  sem  lhe  impu- 
gnar o  passo,  disse  que  o  acompanharia.  Esteve  elle 
contando-me  o  que  tenciona  fazer  para  que  o  teu 
commercio  se  estenda  a  Inglaterra  —  o  de  marfim 
especialmente.  Eu  tenciono  pedir-te  que  me  deixes 
ter  cá  sociedade  com  teu  irmão.  Bello  futuro  para  o 
grande  orador,  e  para  o  romancista  invalido !  De- 
pois as  crianças  serão  homens,  e  apenas  saberão  ler 
o  meu  nome  nas  capas  dos  livros.  Isto  encanta-me ! 

Teu 

Camillo* 


104  Correspondência  epistolar 

oMeu  José. 


Devias  ficar  pasmado  da  minha  sabida ;  se  náo 
antes  da  minha  desgraça.  Quatro  noites  sem  dor- 
mir, a  violência  das  duas  jornadas,  e  em  meio  d'isto 
a  alma  esmagada  no  centro  d'umas  trevas  mais, 
muito,  incomparavelmente,  muito  mais  negras  que 
as  tuas.  Gomprehendo  que  as  moléstias  te  dobras- 
sem mais  cedo  que  as  desgraças  moraes.  Se  eu  ha 
doze  annos,  quando  comecei  a  ser  tão  infeliz,  pade- 
cesse como  hoje,  ter-me-hia  matado.  Estes  peque- 
nos em  vez  de  me  adoçarem  a  vida,  amarguram- 
m'a  com  o  que  são  e  com  o  que  hão  de  ser.  Que 
será  d'estes  infelizes  a  quem  Deus  fará  gemer  com 
o  peso  do  meu  castigo !  A's  vezes  cuido  que  d'ou- 
tro  mundo  se  contempla  a  continuação  ou  o  effeito 
das  más  obras  que  se  cá  deixaram  a  fructificar.  Os 
filhos  expiando  a  culpa  dos  pães  seria  estúpida 
crueldade,  se  os  pães,  com  o  inferno  na  alma,  os 
não  vissem  d'outro  ponto,  sem  lhes  poder  enviar 
um  estremecimento  de  angustiosa  compaixão.  E'  hor- 
renda, e  é  assim  inintelligivel  a  eternidade  das  pen- 
nas. 

Adeus,  meu  caro  José.  E'  bem  de  esperar  que  eu 
ahi  volte  brevemente. 

Teu 

Camillo, 


Correspondência  epistolar  io5 


oMeu  querido  José, 

Assim  como  tu  me  dizes  que  o  meu  folhetim  é 
bom,  costumo  eu  dizer  aos  doentes  irremediáveis 
que  o  ar  do  semblame  não  accusa  a  gravidade  da 
moléstia.  São  delicadezas  bem  entendidas,  filho.  O 
que  me  resta  do  que  fui  é*um  descernimento  lúcido 
para  lamentar  o  que  sou.  Esta  debilidade  de  espi- 
rito explica-m'a  de  sobra  a  doença  cerebral.  Em 
quanto  padeci  grandes  dores  nervosas,  escrevi  com 
phantasia  e  facilidade  ao  passo  que  ellas  me  estor- 
ciam os  nervos ;  mas,  depois  que  a  moléstia  se  lo- 
calisou  na  cabeça,  o  deperecer  foi  rápido.  Se  ainda 
hoje  a  muito  custo  escrevo  d'isso  que  vês,  ante-vejo 
a  completa  paralysia  do  cérebro,  e  em  seguimento 
a  morte. 

Basta  de  choradeira. 

E'  admirável  a  dedicação  do  Albino  Guimarães 
e  a  idéa  então  é  soberba  de  honradez,  de  pondo- 
nor  e  respeito  a  ti. 

Teu  do  coração 

Camillo, 


Meu  caro  Vieira  de  Castro- 

Magoou -me  a  noticia  do  fallecimento  de  teu  tio. 
Ainda  ha  pouco  falíamos  d'elle  quando  jantávamos 
ahi.  Posto  que  a  tua'alma  transborde  de  dores,  creio 
bem  que  te  não  achou  impassivel  a  nova  triste.  Deus 
sabe  se  a  tua  desventura  lhe  pesou  bastante  nos  fios 
consumidos  da  vida !  Aquelle  pondonoroso  velho  de 


io6  Correspo7idencta  epistolar^ 

certo  louvou  o  teu  desforço,  mas  sentiu  profunda- 
mente a  tua  desgraça. 

Teu  irmão  enviou-me  hontem  as  obras  do  Alva- 
res d' Azevedo.  Agradeço-t'as.  Eu  queria-as  somen- 
te emprestadas  para  as  ler  ***  ^  porém,  trazem  es- 
cripta  uma  dedicatória  em  teu  nome.  Ficam  como 
estimado  mimo  entre  os  poucos  livros  estimados. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José. 

Folgo  muito  de  saber  que  escreveste.  Manda- 
me  o  teu  artigo;  mas  dize-me  se  é  desagradável 
para  ti  que  se  saiba  a  procedência.  Lerei  cuidado- 
samente as  provas.  Não  te  prometto  que  elle  se 
publique  d'uma  assentada,  porque  o  jornal  está 
carregado  de  matéria ;  e  o  B . . .  tem  muito  d'olho  a 
matéria  que  lhe  estruma  o  papel  e  o  abrolha  em 
fructos   de  coroas.  No  entanto  verei  se  o  consigo. 

Passei  duas  horas  deliciosas  com  o  teu  Antó- 
nio, que  me  leu  um  bom  folhetim  sobre  o  affecto 
ás  velharias.  Aquelle  sadio  e  previsto  espirito  sa- 
be o  que  é  fazer  que  as  boas  letras  e  o  brilhante 
estylo  sirvam  os  interesses  do  seu  commercio.  Tua 
cunhada  tem  a  aureola  da  mãi  terna  e  da  esposa 
carinhosa.  N'um  relanço  de  dez  minutos  vi-lhe  bem 
todas  as  formosuras  da  alma  que  Deus  lhe  doura 
com  a  felicidade  domestica. 

Recebe   um   abraço    de   todos,   e  o  coração  do 

Teu 
Camillo. 


Correspondência  epistolar  loy 

oMeu  José, 

Achei  o  teu  trabalho  excellente  como  estylo, 
e  creio  que  o  é  como  doutrina.  Prezo-me  de  não 
entender  a  parte  mais  substancial  d'elle.  Quanto 
a  alterações  apenas  fiz  uma  que  verás  no  começo 
por  causa  de  um  periodo  de  setenta  linhas,  que  era 
preciso  rarefazer.  Também  substituí  a  palavra  pa- 
rir, e  o  rebotalho;  uma  por  muito  physiologica,  a 
outra  por  não  ter  foros  de  fidalga  lusitana.  Não 
digo  bem:  a  palavra  é  portugueza;  mas  não  está 
bem  no  teu  artigo  que  é  todo  selecto  e  escripto, 
como  lá  dizem,  de  luva  branca.  Isto  me  relevarás, 
por  que  m'o  exigiste. 

Eu  estimo  que  teu  mano  ahi  esteja  n'esses  dias, 
Permitta  Deus  que  elles  não  sejam  mais  amargu- 
rados que  os  outros. 

Vou  vivendo,  meu  amigo.  O  Jorge  está  muito 
magrinho  e  privado  de  ir  ao  ar.  Estou  a  ver  quan- 
do Deus  me  põe  aquelle  cadaversinho  sobre  o  co- 
ração. Se  assim  fôr,  digo-te  adeus  para  sempre. 

Teu 

Camillo. 


oMeu  querido  José  *. 

O  dia  de  hoje  não  tem  de  ser  mais  angustiado 
para  ti  que  o  de  hontem  e  o  de  amanhã.  As  com- 
memorações  pungentes,  meu  filho,  são  as  da  sau- 
dade. Tu  eras  mais  desgraçado  no  dia  oito.  A'  vol- 


No  anniversario  da  morte  de  D.  Glaudina  Guimarães. 


io8  Correspondência  epistolar 

ta  de  ti  estavam  infames  que  te  viam  aíFrontado. 
No  dia  de  hoje  o  rugir  dos  ódios  dizia  que  tu  não 
eras  homem  para  ser  escarnecido  nem  lastimado. 
Se  hoje  vivesses  tranquillo  e  ignorante  do  oppro- 
brio  que  duas  ou  três  pessoas  conhecessem,  eras 
incomparavelmente  mais  digno  de  compaixão.  Se  eu 
fosse  um  dos  que  o  soubesse,  não  poderia  fitar-te 
sem  me  saltarem  as  lagrimas. 

Agradeço  a  Deus  estar  comtigo  teu  irmão.  Eu 
não  sei  que  te  possas  queixar  da  sociedade  tendo 
por  ti  a  alma  d'elle  que  poderia  ser  extremosa,  mas 
não  ser  recta  e  grande  da  honra,  que  é  o  aço  que 
mais  lhe  retempera  as  qualidades  de  amigo.  Dá-lhe 
um  abraço  meu.  Envio-lh'o  como  commemoração 
d'este  dia  em  que  tu  subiste  pela  escaleira  da 
desgraça  a  uma  altura  d'onde  assoberbas  os  infa- 
mes. 

Teu 

Camillo, 


Meu  caro  José. 

Eu  adivinhei  todas  as  afflicções  que  te  levou  o 
Santíssimo  Viatico  á  cadêa.  Quem  lá  o  acompa- 
nhou e  te  foi  insultar  com  as  phrases  e  com  a  cu- 
riosidade, honrou  o  Ghristo  como  se  quer.  O  que 
eu  admiro  é  que  Elle  se  não  peje  dos  obséquios  de 
tal  canalha. 

Eu  n'estas  cousas  de  actos  religiosos  estou  bo- 
nito. Cada  dia,  filho,  me  sinto  mais  escurecido, 
mais  atheu.  A  razão,  a  experiência,  o  mundo  de 
baixo,  não  ensinam  mais  nada.  Ora  quem  é  que  ha 
de  sacudir  as  azas  da  lama,  e  voar  para  cima  ?  Hei 


Correspondência  epistolar  jog 

de  morrer  como  quem  se  vinga  e  escarnece  das 
amarguras  que  me  esperavam  no  inferno  de  cá  — 
porcaria  que  nos  dispensa  de  crer  na  outra  de  lá. 
Olha,  se  eu  lá  estivesse,  quando  ahi  foi  essa  horda 
de  senhoras,  eu  sahia-lhe  ao  cimo  da  escada,  e  per- 
guntava-lhes  o  que  queriam.  Depois,  despiria  o  ca- 
saco para  lhes  fallar,  em  mangas  de  camisa,  o  mais 
selecto  palavriado  das  cavalhariças.  E  acabaria  por 
pedir-lhes  o  attestado  que  mundifica  as  toleradas. 
Ora  aqui  tens  a  lição  que  eu  daria. 

Teu 

Camillo. 

Meu  José, 

Escrevo-te  de  Braga  onde  cheguei  agora.  Veio 
commigo  um  ricaço  de  Benguella,  com  três  filhos 
mulatos.  Este  homem  quiz  ir  vêr-te  ao  Limoeiro; 
mas  não  achou  quem  o  apresentasse.  Esteve  vinte 
e  nove  annos  em  Africa;  enriqueceu  a  agricultar 
cana  para  agua-ardente.  Disse-me  que  tu,  empre- 
gando na  agricultura  oito  a  nove  contos  de  réis, 
deves  ter  duzentos  no  fim  de  dez  annos.  Achei-lhe 
demasiado  espirito  prophetico  quando  elle  por  fim 
me  disse :  «O  Vieira  de  Castro  não  ha  de  negociar 
por  muito  tempo ;  porque  elle  ha  de  ser  o  motor 
do  desmembramento  das  colónias  e  o  presidente 
da  republica.»  E  ajuntou :  «O  governo  se  fosse  es- 
perto nunca  para  lá  mandaria  semelhante  homem 
com  tanto  talento.»  Cousa  singular  !  Este  homem 
é  fino.  Chama-se  M ,  e  é  da  Povoa  de  La- 
nhoso. 

Confrontando  os  teus  artigos  com  as  previsões 


jio  Correspondência  epistolar 

d'este  sujeito,  não  pude  deixar  de  o  admirar  e  sau- 
dar-te  desde  logo  imperador  de  Angola.  O  que  é 
certo  é  que  tu  tens  destinos  extraordinários,  e  es- 
tás no  primeiro  acto  da  tua  funesta  celebridade. 
Não  viverei  para  ver  os  outros;  mas  adivinho  que 
o  ultimo  será  uma  cousa,  seja  o  que  for,  deslum- 
brante. Uma  cousa  sei  eu  que  deslumbra  comple- 
tamente os  fulgores  da  vida. . .  Adeus. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  José 

Estive  em  Braga  três  dias,  e  em  todos  te  escrevi. 
A'manhã  é  que  ainda  vamos  para  Seide,  e  pouco 
tempo  lá  estarei.  Dava-me  já  cuidado  a  falta  das 
tuas  noticias,  quando  hontem  o  António  me  disse  que 
estavas  bom,  e  confidencialmente  me  communicou 
o  bom  êxito  dos  teus  negócios  quanto  ao  Ermo. 
Deus  te  dê  algumas  felizes  soluções  nos  teus  dese- 
jos para  que  te  não  seja  tudo  escuro. 

Vou  muito  triste  a  Seide.  Quando  me  lembro 
dos  dias  que  alli  passamos,  figura-se-me  que  elles 
pertenceram  á  minha  época  de  felicidade.  E,  com 
tudo,  eu  já  então  era  desgraçado  como  hoje  e  como 
amanhã.  De  todas  as  tuas  dores  a  que  mais  pena 
me  faz  é  a  saudade.  A  saudade !  que  tormento, 
meu  amigo ! 

E  o  plástico  que  lá  foi  para  dar  a  demão  ao 
busto!  Olha  que  é  relevantemente  cómico  a  emba- 
çadella  do  Phidias  quando  te  viu  desbarbado  !  Ahi 
o  temos  a  escanhoar  no  barro,  mas  com  a  desfor- 
tuna   de  lá   te  não  conhecerem  no  Rio !  Pôde  ser 


Correspondência  epistolar  iii 

que  a  intenção,  posto  que  especuladora,  não  viesse 
dos  teus  inimigos.  Em  todo  o  caso,  fizeste  bem, 
meu  filho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José. 

Penso  no  dia  de  amanhã  com  mais  receio  do  que 
tu.  Não  me  consterna  o  augmento  do  prazo,  por- 
que prevejo  que  antes  de  dez  annos  taes  terremo- 
tos sociaes  ha  de  ter  havido  que  a  entrada  em  Por- 
tugal te  seja  não  só  franca  mas  solicitada.  Que 
visualidades  de  romance,  meu  José ! . . .  Cubro  a 
minha  asneira  com  as  reticencias. 

Por  em  quanto,  meu  filho,  a  minha  cabeça  não 
amanhece.  Sento-me,  pego  na  penna,  e  fico-me  com 
cila  apontada  ao  papel  como  quem  esperasse  uma 
idéa  para  a  arpoar  com  os  bicos.  Em  meio  d'isto 
pedem-me  lá  de  Lisboa  SoíZ&ooo  réis  de  decima 
annual  como  escriptor ;  e  de  cá  qí&ooo  como  caval- 
leiro.  Quando  te  levantares  com  a  republica  d'Afri- 
ca,  Guiné,  Ethyopia,  etc,  faze-me  guarda-mór  da 
torre  do  tombo  que  eu  vou  para  lá.  Se  não  houver 
torre  do  tombo,  quem  contará  á  posteridade  a  ori- 
gem da  tua  dynastia  ? 

Brinquemos  a  chorar. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  José. 

Parecia-me  incrível  o  aggravo  da  pena,  com  tudo 
eu  esperava-a  ;  esperavam-a  todos  porque  os  juizes 


IJ2  Correspondência  epistolar 

não  se  esquivavam  a  dizel-o  ainda  antes  de  verem 
o  processo.  Creio  bem,  meu  amigo,  que  a  sentença 
te  foi  indifferente.  Tu  voltarás  para  Portugal  antes 
dos  dez  annos.  Gomo,  e  por  que  indultos,  não  sei, 
nem  o  diria  se  o  soubesse.  Tenho  medo  de  ser  tolo 
aos  teus  olhos,  ou  ameaçar  doudice  nas  minhas 
imaginações.  No  Porto  fez  péssimo  effeito  a  deci- 
são. Está  tudo  por  ti.  Mas  que  monta  ?  Despresivel 
caridade  a  que  vem  do  ódio  saciado.  Eu,  meu  fi- 
lho, sinto-me  esmagado  pelo  peso  do  teu  infortú- 
nio, e  não  posso  com  a  idéa  de  que  te  não  hei  de 
vêr  mais.  Adeus. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José, 

Recebo  a  tua  carta.  Agradeço  a  Deus  a  coragem 
que  te  elle  dá,  meu  querido  amigo.  Agora  recebo 
a  carta  inclusa.  Se  eu  tiver  mais  saúde  do  que  te- 
nho n'esta  hora,  vou  também.  É  bem  de  crer  que 
não,  porque  a  alma  adivinha-me  que  te  não  verei 
mais.  E'  terrivel  tudo  isto  que  está  passando  na  tua 
vida.  Desgraçados  aquelles  que  te  conheceram  e 
amaram.  Eu  devia  forçosamente  conhecer-te.  Amei 
um  José  Augusto,  que  morreu  afogado.  Outro  José 
Augusto  que  morreu  despedaçado  de  paixão  ahi 
em  Lisboa.  Tu  eras  o  meu  terceiro  amigo.  Adeus, 
meu  filho. 

Teu 

Camillo, 


Correspondência  epistolar  ii3 


Meu  José, 

A***  recebeu  hontem  a  tua  commovente  carta, 
e  foi  comtigo  chorar  na  vida  que  lá  nos  fica  para 
além  de  nove  annos,  nos  dias  últimos  da  nossa 
felicidade.  Fomos  desgraçados  todos  a  um  tempo. 
Morreremos  sem  saudade  do  que  deixamos,  porque 
teremos  gastado  a  alma  a  deplorar  o  que  irreme- 
diavelmente se  ha  perdido. 

Ha  cinco  dias  que  padeço  mais  e  muito.  No  dia 
quinze  d'este  mez  faz  um  anno  que  eu  tive  a  pri- 
meira ameaça  de  congestão.  Não  creio  que  estes 
ataques  tenham  prazos  fataes  ^  mas  é  certo  que  os 
padecimentos  se  aggravaram  com  a  aproximação 
do  calor. 

Dizes-me  uma  cousa  incomprehensivel.  Se  o  su- 
premo tribunal  só  entende  em  nullidades  de  pro- 
cesso, que  lucra  a  parte  no  recurso  ?  Com  o  pre- 
texto de  augmento  de  pena,  parece-me  isso  absur- 
do, até  mesmo  porque  o  máximo  d'ella  são  os 
quinze  annos.  Não  comprehendo  o  alcance  d'estas 
infâmias. 

Aquelle  Severino,  que  te  procurou,  é  um  óptimo 
homem.  Conheci-o  em  tempos  remotos  chefe  pa- 
gador de  tropas.  Depois,  vi-lhe  o  nome  assignando 
umas  correspondências  contra  mim.  Depois,  soube 
que  elle  vivia  pobre  em  Lisboa,  e  dei-lhe  que  fazer 
e  uns  400  réis  por  dia.  Tive  então  occasião  de  o 
avaliar  melhor,  e  achei-o  bom  e  bem  apalpado  pela 
desgraça.  Li  que  elle  agora  fora  ou  ia  ser  despa- 
chado para  escrivão  d'alfandega  de  Ambriz. 

Estamos  muito  tristes,  filho.  A***  tem  cem  an- 
nos no  coração.  Deus  te  livre  d'isto  que  é  peor  que 

VOL.  II  8 


114  Correspondência  epistolar 

tudo.  Esperas,  meu  querido  amigo  !  Então  ainda  ha 
na  tua  existência  o  melhor  d'ella.  Mas  que  pena 
não  ter  eu  a  tua  idade  para  ainda  te  ver  vigoroso 
e  grande  n'algum  ponto  menos  espadanado  do  san- 
gue e  lama  em  que  tudo  isto  de  Portugal  vai  en- 

volver-se  ! 

Teu 

Camillo. 


fMcu  José, 

O  F...  escreveu-me  pedindo-me  um  manuscri- 
pto  de  seis  paginas  com  o  meu  nome,  para  elle  pu- 
blicar. Acrescentava  que  o  producto  o  livraria  de 
difficuldades.  Ora,  tendo  eu  publicado  oitenta  e  cin- 
co volumes  e  contando  as  difficuldades  pelas  pagi- 
nas, entendi  que  o  homem  pedia  uma  asneira,  e 
publicando  as  seis  paginas  ajuntaria  mais  uma  ás 
difficuldades  existentes.  Não  lhe  respondi  por  tan- 
to. Além  de  que,  o  homem  é  doudo,  e  eu  estou  ca- 
lejado do  attrito  com  doudos. 

E'  impossível  que  o  F. . .,  lendo  as  ultimas  tiras 
do  teu  folhetim,  não  te  conhecesse;  jamais,  desco- 
brindo o  C...  a  procedência  do  Limoeiro.  Onde 
diabo  está  o  atheismo  que  lá  viu  o  syndico  ?  Quan- 
do muito,  ha  lutheranismo  na  tua  apreciação  boa 
ou  má  do  catholicismo.  Em  Portugal,  não  ha  sei- 
tas nem  dissidências:  ha  cocheiras  e  cavalgaduras, 
mormente  em  matérias  theologicas.  Olha,  meu  fi- 
lho, tu  imaginas  bem  o  que  é  isto ;  mas  não  medes 
toda  a  profundeza  d'este  poço  de  ignorância,  d'on- 
de  as  asneiras  sahem  alcatruzadas  pelo  F. . .,  que  é 
o  mais  sábio  dos  philosophos  do  Chiado.  A  respei- 


Correspondência  epistolar  ii5 

to  de  Deus,  quem  sabe  alguma  cousa  n'esta  terra 
são  os  pássaros  que  o  cantam  de  madrugada. 
Meu  querido  José,  adeus. 

Teu 

Camillo, 


Meu  José, 

Eu  já  sabia  a  historia  da  Ínclita  rameira.  Pa- 
rece-me  que  m'a  referiu  o  fornecedor  do  livro.  Es- 
te sujeito  possue  bons  exemplares  de  cousas  irri- 
tantes. 

Continuo  a  passar  muito  mal  e  muito  amargu- 
rado. Náo  vou  para  Seide  porque  morro  lá  de  té- 
dio. Não  sei  se  irei  para  a  beira-mar.  O  melhor  se- 
ria ir  alli  para  o  Repouso.  Veremos  onde  se  desfaz 
este  guano.  Tem  saúde,  filho,  e  não  a  exponhas.  A 
vida  quieta  olha  que  não  a  damniíica.  Os  frades 
apenas  sabiam  da  cella  para  o  refeitório,  e  tinham 
saúde  de  burros  sadios.  Adeus,  filho. 

Teu 

Camillo, 


Meu  caro  José, 

Não  me  recordo  do  nome  do  desorelhado  roma- 
no. Esta  moléstia  cerebral  apagou-me  muitas  lem- 
branças, ganhadas  com  muito  trabalho;  porque  fui 
sempre  escasso  de  memoria.  Entrelembro-me  po- 
rém, de  ter  sido  mutilado  em  nariz  e  orelhas  um 
primo  de  Mário,  por  ordem  de  Silla.  Não  me  lem- 


iiG  Correspondência  epistolar 

bro  do   nome,  e  penso  até  que  a  historia  lh'o  não 
dá.  De  certo  não  é  este  o  outro. 

Aqui  no  Porto  ha  muito  quem  te  attribua  as 
Farpas,  quero  dizer  a  Carta.  Acham-na  boa.  O 
Eça  de  Queiroz  que  está  aqui,  disse  que  lhe  pare- 
cia tua. 

Folgo  que  não  te  desagradasse  a  Advertência 
das  Colónias.  (Nota  3.^).  Eu,  quando  escrevo  de  ti, 
desmando-me  em  liberdade  excessiva  tocando  nas 
tuas  chagas  com  mais  franqueza  do  que  o  fazia 
rosto  a  rosto  comtigo.  Se  estás  contente  com  a  vi- 
rulência da  phrase,  que  eu  nunca  posso  avelludar 
quando  desfecho  contra  os  teus  inimigos,  também 
eu  estou  contentíssimo. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José. 

Não  te  escrevi  hontem  porque,  logo  que  rece- 
bi a  tua  carta,  resolvi  ir  hoje  a  ver  se  podia  sere- 
nar a  irritação  em  que  estás,  justissima,  porém  pre- 
judicial ao  teu  espirito  e  corpo.  A's  onze  horas  da 
manhã  tinha  a  malinha  prompta  para  sahir  de  tar- 
de ;  mas  a  noite  péssima  que  eu  tinha  passado  pro- 
mettia  o   embaraço   gástrico  que  está  começando. 

Peço-te  pelo  aífccto  que  te  tenho  que  te  hajas  com 
paciência  n'esta  provação  horrenda.  A  tua  digni- 
dade não  pôde  conformar  se  com  a  indifferença  dos 
scvandijas  e  dos  egoístas ;  mas,  meu  amigo,  aceita 
o  mundo  como  elle  é.  Não  te  abandonam  porque 
estás  condemnado  nem  porque  te  julguem  crimi- 
noso; abandonam-te  porque  te  consideram  impres- 


Correspondência  epistolar  iij 

tavel,  porque  não  podes  ser  útil.  Aqui  tens  a  ex- 
plicação chata  da  cousa  que  te  espanta  e  exacerba. 
E,  depois,  filho,  creio  que  exageras  o  teu  desam- 
paro. Lembra-te  da  minha  reclusão  ha  onze  annos. 
O  meu  delicto  era  irrisório  no  entender  dos  meus 
amigos,  e  os  meus  amigos  não  iam  lá.  Das  pessoas 
que  eu  conhecia  foram  lá  cinco,  e  das  que  me  não 
conheciam  poucas  mais  para  me  verem  e  injuriarem 
com  a  sua  curiosidade.  Pois  tu  não  entendeste  ain- 
da a  sociedade? 

Vê  lá  o  que  escreves,  José.  As  tagantadas  é  bom 
dal-as,  mas  não  no  ar;  quando  vibrares  o  latejo 
seja  de  modo  que  estale  nos  couros.  Que  te  não 
vão  tomar  á  conta  de  desespero  esse  desforço,  e 
d'ahi  lhes  dês  motivo  para  satisfação.  O  que  os 
afiflige  é  vêrem-te  sereno,  a  escrever,  a  ter  saúde,  a 
esperar,  com  a  tranquillidade  laboriosa  d'aquelle 
D.  Francisco  Manoel  de  Mello  que  escreveu  cin- 
coenta  e  nove  volumes  na  torre  velha  de  Belém 
onde  esteve  preso  nove  annos,  e  innocente.  A  co- 
ragem d'uns  desgraçados  é  a  coragem  d'outros  que 
sabem  medir-se  com  os  mais  infelizes,  logo  que  não 
poderam  medir-se  com  os  infames.  Tenho-te  dito 
muitas  vezes,  meu  filho,  que  pesadas  essas  dores 
do  cárcere  com  as  ignominias  da  liberdade,  não  ha 
que  hesitar  na  escolha. 

Recebo  outra  carta  tua. 

Pareces-me  melhor,  graças  a  Deus. 

Teu 

Camiilo. 


Ji8  Correspondência  epistolar 


Meu  amigo. 

O  António  disse-me  hontem  que  estavas  adoen- 
tado. Mortifica-me  o  receio  de  que  peores.  Hoje  re- 
cebi o  opúsculo.  Já  li  as  paginas  que  entendem  com 
as  mulheres  que  ahi  foram.  São  bellas,  tocantes,  e 
tuas.  Farejo  que  o  teu  livrinho  não  estalará  como 
suppunhas.  Está  muito  grave  para  isso.  N'este  paiz 
só  faz  estrondo  o  escândalo  ou  a  chalaça.  Um  li- 
vro bem  pensado  e  bem  composto  apenas  impressio- 
na os  dez  litteratos  intelligentes  que  por  ahi  vivem 
lurados  na  sua  obscuridade.  O  restante  é  a  malta  dos 
noticiaristas,  gentio  que  os  porteiros  de  Paris  leva- 
riam na  vassoura  para  as  carroças.  O  senso  publi- 
co —  a  gente  que  compra  —  como  fica  dito,  quer 
que  OíFenbach  collabore  no  livro,  e,  se  não  for 
este,  então  o  L.  d'A.  Parece-me  que  a  Consciência 
não  terá  grande  procura.  Conclusão.  Adeus,  meu 
querido  amigo.  Restabelece-te,  e  não  descreias  da 
felicidade  como  o  mundo  a  pôde  dar. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José. 

Não  recebi  ainda  a  carta  que  me  enviaste  para  o 
Porto.  Provavelmente  vem  hoje.  Triste  cousa  é  que 
não  estejas  livre  da  tosse  ^  mas  não  ha  que  recear 
d'ella  na  tua  compleição.  Grande  mal  é  padecer, 
ainda  que  a  doença  seja  mortal.  Quando  me  dizem 
que  ninguém  morre  de  zunidos  nos  ouvidos,  para 
me   consolarem,   parece-me    isto  escarneo.  Pois  o 


Correspondência  epistolar  ijg 

morrer  já,  não  seria  melhor  que  viver  mais  dez  an- 
nos  com  esta  irremediável  mortificação? 

Gosto  que  me  digas  se  a  venda  do  teu  opúsculo 
é  regular :  parece-me  que  ha  pouco  publico  para  es- 
criptos  d'aqaella  ordem.  Pôde,  porém,  ser  que  os 
que  o  não  percebem,  o  inculquem  por  amor  pró- 
prio, e  assim  se  vão  enganando  uns  aos  outros.  Tal- 
vez que  eu  esteja  sendo  injusto  com  as  intelligen- 
cias  do  meu  paiz. 

Ainda  te  lembras  d'esta  aldêa?  Estive  ha  pouco 
ao  pé  d'aquella  pedra  monumental  onde  astá  o  teu 
nome.  As  arvores  que  então  se  plantaram  abraça- 
ram-se,  e  afogaram  a  pedra  n'um  escuro  que  faz 
lembrar  um  tumulo.  Tumulo  das  nossas  alegrias  se 
me  afigura  aquillo.  Eu  era  ainda  o  rapaz  de  trinta 
e  sete  annos,  e  tu  quasi  uma  criança. 

Acho  tristíssima  esta  vida  do  campo.  Gomo  não 
trabalho,  as  horas  são  infinitas  \  e,  como  não  durmo 
bem,  as  noites  são-me  ainda  peores. 

Tem  paciência  com  as  tuas  dores,  e  lembra-te 
dos  que  soífrem. 

Teu  muito  do  coração 

Camillo, 


Meu  presado  amigo, 

*  *  *  recebeu  hoje  o  exemplar  que  lhe  mandaste 
da  2.^  edição.  Ella  t'o  agradecerá.  (Nota  4.*).  Fiz  a 
terceira  leitura  com  o  mesmo  agrado.  Se  fizeres 
terceira  edição  deves  purificai- a  das  palavras  mes- 
mo como  adverbio,  posto  que  tenhas  um  exemplo 
em  Gamões  e  outro  em  D.  Francisco  Manoel  de 
Mello; — da   palavra    imbecil   como  synonymo  de 


120  Co7'respondencia  epistolar 

inepto,  parvo,  etc.  —  e  da  palavra  banalidade.  Ne- 
nhuma é  portugueza,  nem  exemplificada.  Um  es- 
criptor  de  grande  voga  usou-as ;  mas  esse  escriptor 
não  é  bom  modelo.  Imbecilidade  é  a  fraqueza  phy- 
sica ;  banal  não  se  encontra  sequer  em  vocabulá- 
rios portuguezes:  ha  o  frivolo,futily  etc.  Isto  parece- 
se  com  as  nossas  questiúnculas  do  Ermo,  em  1860. 
Olha  que  estes  reparos  são  caturrices  que  já  ninguém 
faz  senão  eu  por  amor  a  uma  pieguice  chamada  ver- 
naculidade  que  ainda  ha  de  fazer  que  ninguém  me 
leia. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  amigo, 

A  tua  carta,  noticiando  a  inesperada  brevidade 
da  partida,  alvoroçou-mc  tristemente.  Eu  não  o  sup- 
punha  nem  ninguém.  Supponho,  porém,  que,  ainda 
mesmo  que  decida  o  supremo  tribunal  no  dia  vinte 
e  seis,  parece-me  que  nove  dias  depois  não  te  dei- 
xarão partir,  a  menos  que  os  teus  amigos  não  se 
esforcem  por  conseguil-o.  Notei,  quando  estava 
preso,  que  os  degredados  eram  intimados  um  mez 
antes,  e  que  no  ministério  competente  se  pedia 
com  muita  antecipação  a  lista  dos  presos  no  caso 
de  sahirem.  Eu  seria  cruel  se  te  desejasse  ahi  mais 
um  mez  inútil  e  atormentado,  quando,  desde  que 
respirares  o  ar  do  mar,  sentirás  o  coração  e  a  alma 
a  ganharem  azas.  Entretanto,  emquanto  ahi  estás,  e 
me  escreves,  como  que  te  sinto  viver  ao  pé  de  mim. 

Não  queres  que  eu  ahi  vá.  Ai,  filho,  eu  não  po- 
deria  ir.   Quem    te    mostrar   lagrimas,   ou  t'as  íí- 


Correspondência  epistolar  121 

zcr  chorar,  faz-te  mal.  Evita  ainda  que  as  pessoas 
de  tua  familia  te  vejam  partir.  Poderás  ?  Sei  que  te- 
rás mais  coragem  para  a  saudade  que  para  o  abra- 
ço do  adeus.  O  morgado  deve  ahi  estar  hoje.  Dá- 
Ihe  um  abraço,  e  dize-lhe  que  na  segunda  feira  me 
vou  d'aqui  embora,  nem  peor  nem  melhor  do  que 
vim.  Vou  peor,  porque  vou  desilludido  d'esta  espe- 
rança. Adeus,  meu  querido  José. 

Teu 

Camillo. 


Meu  querido  José. 

Ao  morgado  nunca  esfriaram  os  enthusiasmos  de 
ir ;  longe  d'isso,  a  sua  inquietação  era  a  demora  do 
processo.  Já  elle  me  havia  dito  que,  se  o  supremo 
tribunal  annullasse,  iria  sem  ti.  Suppunha,  porém, 
e  eu  também,  que  o  recurso  seria  decidido  mais  tar- 
de. N'esta  hypothese_,  descançou  e  cuidou  menos 
em  arranjos  de  partida,  de  modo  que  a  noticia  ines- 
perada o  contrariou,  já  porque  naturalmente  lhe  de- 
via abalar  o  coração  de  marido  e  pai,  já  porque  o 
embaraçavam  negócios  de  dinheiro,  de  colheitas  e 
até  de  segurança  do  restante  dos  seus  haveres  a  fa- 
vor da  mulher.  Entretanto,  não  mostrou  sombra 
de  intenção  de  não  ir.  Logo  que  chegou  a  Seide  onde 
estava  a  mulher,  sahiram  logo  para  aviar  as  cousas. 
A'manhã  vem  elle  aqui.  Hei  de  fallar-lhe  no  senti- 
do da  tua  carta  sem  a  menar  reserva.  O  teu  me- 
lindre é  honrado,  e  a  minha  responsabilidade  não  é 
pequena,  se  elle  lá  por  desventura  não  fosse  feliz 
ou  perdesse  a  saúde.  O  Ferreira  Lapa  pintou-lhe 
sinistramente  a  Africa,  ainda  assim  a  regra  de  mor- 


122  Correspondência  epistolar 

talidade  que  elle  estabeleceu  respeitava  aos  degre- 
dados submettidos  aos  trabalhos  próprios  d'elles,  e 
á  vida  devassa  que  elles  lá  vivem.  E'  claro  que  se 
o  morgado  fizer  lá  o  que  faz  aqui  não  pôde  contar 
com  a  saúde  que  tem  cá.  Espero  que  não.  Se  tu 
lhe  prescreveres  um  methodo  de  vida,  elle  ha  de 
observal-o.  A  ti,  meu  querido  amigo,  não  é  preciso 
que  te  aconselhem.  A  tua  robustez  não  te  ha  de 
enganar.  Sei  que  estás  alegre  com  o  alvoroço  da 
partida.  Podéra  não !  Sentes  a  plenitude  da  vida  as- 
sim que  voltares  a  Portugal  as  costas,  deixando 
após  ti  a  raiva  dos  inimigos  que  te  vêem  partir  sem 
infâmia,  com  todo  o  vigor  da  tua  intelligencia. 

Eu  desejo  não  morrer  sem  que  tu  de  lá  me  di- 
gas que  vives  serenamente.  Feli:{^  nunca  m'o  dirás. 
Fujo  de  pensar  na  conjectura  de  ainda  te  ver.  Pôde 
ser,  meu  Deus!  Cá  ficam  as  duas  crianças  para  te 
mostrarem  os  traços  do  teu  amigo  de  treze  annos. 

***  chorou  com  o  final  da  tua  carta.  Calemo- 
nos :  é  um  dever  não  te  dizermos  o  que  se  pensa, 
o  que  se  diz  e  sente  de  ti  n'esta  casa,  onde  te  vi- 
mos feliz  para  outra  viagem.  Adeus,  meu  querido. 

Teu 

Camillo. 


CARTAS  PARA  AFRICA 

Meu  querido  José. 

Tive  grande  pena  de  não  te  escrever  no  paquete 
de  dezeseis.  Sô  depois,  fallando  com  teu  irmão, 
soube  que  havia  sempre  n^aquelle  dia  mala.  Rece- 


Correspondência  epistolar  128 

bi  duas  cartas  do  morgado,  e  sentia  a  falta  da  tua, 
quando  me  veio  devolvida  de  Famalicão  para  o 
Porto,  onde  estou  desde  que  sahiste  de  Lisboa.  A 
tua  cana  aguou-me  o  contentamento  que  me  deram 
as  do  morgado,  descrevendo-me  rapidamente  a  tal 
qual  satisfação  da  viagem.  Para  mim  a  única  feli- 
cidade compativel  com  o  teu  infortúnio  é  ver  que  te 
respeitam  e  te  admiram  com  aífecto,  sentimento 
muito  diverso  da  commiseração  que  tu  rejeitas.  Atua 
carta,  porém,  mais  intima,  e,  por  desventura,  mais 
verdadeira  do  que  os  exteriores  que  aífectas  entre 
os  que  te  vão  por  amor  suavisando  o  desterro,  en- 
cheu-me  de  tristeza.  Esse  pressagio  de  morte  vale 
nada;  mas  o  desejo  de  morrer  é  muito.  Sei  que  o 
afazer-se  a  gente  a  pensar-se  e  pêrse  morto  é  meio 
caminho  andado  da  sepultura,  e  o  outro  que  falta  é 
mais  suave;  já  lá  não  nos  ficam  as  carnes  espeda- 
çadas  nas  desillusões,  nos  terrores  do  nada,  nas 
saudades  do  que  deixamos.  Ora,  meu  filho,  a  que 
vem  isto  ?  Está  já  a  carta  a  resentirse  de  quinze 
dias  de  cama,  d'onde  sahi  agora  para  te  escrever 
com  muita  diííiculdade.. .  Se  no  seguinte  paquete 
não  tiveres  carta  minha,  fica  entendendo  que  aca- 
baram os  meus  soffrimentos  e  que  estou  mais  feliz 
do  que  nunca.  A  cura  é  impossível.  Não  se  regene- 
ra o  sangue  em  circumstancias  de  vida  tão  deleté- 
rias. Olha  que  já  vejo  estas  crianças  com  esta  in- 
sensibilidade significativa  de  estar  isto  a  desfazer-se. 
E'  a  providencial  apathia,  o  morrer  primeiro  inte- 
riormente, o  desatarem-se  nós  que  me  pareciam 
horríveis  de  partir.  No  entanto,  quando  voltares  á 
pátria  —  d'aqui  a  cinco  annas  ?—  )á  acharás  os  meus 
pequenos  em  circumstancias  de  os  poderes  ajudar. 
Deus  lhes  não  falte  com  a  mãi. 


124  Correspondência  epistolar 

Eu  não  posso  continuar.  Vou  escrever  duas  li- 
nhas ao  morgado.  Desculpa  as  tristezas  tão  in:ipro- 
prias  para  quem  as  tem  tamanhas  como  tu  Adeus. 

Teu 

Camillo. 


Meu  José. 

O  teu  António  mandou-me  a  carta  que  lhe  es- 
creveste de  S.  Vicente.  E'  pallida  a  alegria  que 
me  ella  deu.  Não  posso  crer  que  as  considerações 
d'essa  boa  gente  que  te  admira  diminuiram  as  tuas 
tristezas,  filho.  Oxalá  que  a  Providencia  te  reno- 
vasse o  coração  para  ainda  o  sentires  viver  do  fu- 
turo. Escrevo-te  estas  duas  linhas  com  muito  cus- 
to. A  minha  enfermidade  até  já  me  faz  angustias, 
se  me  demoro  segundos  a  escrever.  Não  ha  pala- 
vras para  o  que  soffro;  é  a  anemia  mais  desgraça- 
da que  dar-se  pôde.  O  meu  cérebro  está  ralado  e 
dissolvido  em  sangue.  Pede  ao  morgado  que  me 
desculpe  de  lhe  não  escrever  n'este  paquete.  Dize- 
)he  que  tive  ha  dias  boas  novas  da  sua  familia,  e 
que  lhe  agradeço  as  noticias  que  me  tem  dado  da 
sua  boa  viagem.  Deus  o  ampare  e  o  veja  pai  das 
criancinhas  que  todo  futuro  libram  na  felicidade 
do  pobre  desterrado.  Adeus,  meu  querido  José.  Eu 
escrevo-te  para  te  dar  a  certeza  de  que  ainda  vivo. 

Teu 

Camtllo. 


Correspondência  epistolar  12S 


oMeu  querido  José 

Cuidei  que  teria  carta  tua  n'este  paquete.  Pro- 
vavelmente não  ha  ainda  tempo.  Não  tenho  falla- 
do  com  alguém  que  me  esclareça,  porque  ha  muitos 
dias  que  não  vou  á  rua.  O  meu  estado  não  é  mais 
grave;  mas  não  sinto  leves  melhoras.  Estou  ancio- 
so  por  saber  que  impressões  ahi  recebeste,  e  com 
que  santa  coragem  convertes  as  más  em  virtude 
de  conformidade.  Deram-me  quasi  seguras  espe- 
ranças de  que  a  tua  paragem  em  Africa  seria  pou- 
co demorada;  mas  este  pouco  é  um  relativo  que 
me  não  deixa  esperanças  de  te  ver.  Penso  que  es- 
tá entre  nós  o  muro  que  separa  a  vida  da  eterni- 
dade. Essa  supposição  fundada  na  minha  pertinaz 
doença  foi  que  me  impediu  de  ir  vêr-te. 

Noticias  de  Portugal  lá  as  terás  dos  periódicos. 
Presume-se  que  ha  ministério  para  longo  tempo. 
Deus  o  permitta,  porque  eu  em  teu  favor  espero 
muito  do  Sampaio  e  do  Jayme.  Verdade  é  que  lá 
está  um  personagem,  com  alma  de  Bragança,  onde 
se  aninham  implacáveis  rancores;  mas  ainda  assim 
espero  que  a  vontade  dos  ministros  e  do  procura- 
dor geral  da  coroa  prevaleça. 

Davas-me,  meu  filho,  uma  grande  alegria  se  me 
dissesses  que  estás  entretido  com  negócios  que  te 
fazem  esquecer  a  pátria;  e  mais  ainda  se  a  tua  saú- 
de não  soffresse  algum  abalo. 

Teu  mano  António  tem  estado  em  Madrid,  d'on- 
de  escreveu  excellentes  cartas  para  o  Primeiro  de 
Janeiro.  E'  assombrosa  a  actividade,  e  a  força  de 
vontade  d'este  rapaz  cheio  de  nobilissimos  senti- 
mentos. Não  o  vejo  ha  muito  tempo.  Assim  que  eu 


120  Correspondência  epistolar 

poder  sahir,  irei  pedir-lhe  que  me  diga  de  ti  algu- 
ma cousa. 

Adeus,  meu  querido  filho. 

Teu  do  coração 

Camillo. 


Meu  querido  José. 

Vi  as  cartas  escriptas  ao  António.  O  melhor  d'el- 
las  é  não  conterem  palavra  de  queixa  por  falta  de 
saúde.  Vaes  ou  ias  gozando  a  felicidade  immediata 
á  do  contentamento  que  é  a  suprema.  Depois,  ou- 
tra satisfação  grande  para  mim  é  ver  como  lá  te 
festejam.  Se  fosses  em  viagem  de  recreio  ou  offi- 
cial  não  poderias  ser  melhor  recebido.  Se  te  hou- 
vessem commutado  o  degredo  em  dous  annos  de 
cárcere  em  Portugal,  sofifrerias  angustias  incompa- 
ráveis. A'  perversidade  dos  homens  tirou  a  mão  da 
Providencia  os  flagellos.  Elles  cuidavam  que  te 
crucificariam;  e  tu  achas  ahi  um  ar  que  te  renova 
o  espirito,  aífeiçóes  que  te  fazem  estimar  a  vida,  e 
bases  sobre  que  assentes  o  edificio  da  velhice  tran- 
quilla. 

O  António  observou  que  o  teu  espirito  vai  flu- 
ctuando  em  diversos  desígnios.  Ainda  bem,  com 
tanto  que  a  final  não  optes  por  algum  que  descon- 
venha.  Seria  caso  estranho  que  fixasses  deliberada- 
mente o  que  has  de  executar,  antes  de  compulsa- 
res mão  por  mão  as  cousas  e  as  pessoas.  Gosto 
d'essa  natural  versatilidade  que  é  da  tua  Índole;  e, 
mais  que  tudo,  alegra-me  que  a  tua  condição  vá 
renascendo  n'essas  manifestações.  Marasmado,  aba- 
tido, e  como  espantado  da  estranheza  d'esse  mun- 


Correspondência  epistolar  i2y 

do  é  que  eu  não  queria  vêr-te;  por  que  então  con- 
siderar-te-hia  perdido. 

Tenho-te  escripto  não  sei  quantas  cartas,  sem- 
pre em  occasião  de  grande  abatimento.  A  minha 
enfermidade  nãò  cessa  nem  me  deixa  esperar  me- 
lhoras. Que  eu  não  torno  a  vêr-te  é  certo,  filho! 


Teu 
Camillo. 


Meu  caro  José, 

E'  meia  noite,  estou  na  cama,  e  não  tenho  aqui 
outro  papel.  Ha  bastantes  dias  que  por  aqui  passo 
sem  forças  para  affrontar  esta  Noruega  do  Porto. 
A  minha  doença  não  tem  progredido^  mas  não  ha 
já  que  esperar  melhoras.  Exhauriu-se  tudo.  Agora, 
venha  de  Deus  a  paciência  para  ir  resvalando  n'es- 
te  vagar  á  cova.  Os  meus  filhos  estão  bons,  e  a 
mãi,  com  a  alma  atormentada  pelo  presentimento 
do  meu  breve  fim,  ostenta  um  ar  de  esperança  que 
seria  incrivel,  se  não  fosse  contrafeita. 

D'esta  \ez  não  vi  a  carta  que  escreveste  ao  teu 
António.  Vejo  esta  que  me  escreves  em  que,  com 
bem  poucas  palavras  me  deixas  ver  até  ao  fundo 
o  abysmo  da  tua  tristeza.  Eu  vi  toda  a  tua  alma  no 
cemitério.  Transferi-me  á  tua  situação  e  senti  o 
coração  cheio  de  lagrimas.  Que  lance  de  olhos  não 
seria  o  teu  por  este  passado  que  aqui  deixaste  liga- 
do ao  tempo  das  minhas  saudades!  Tão  depressa, 
meu  filho  !  Tu  ahi,  e  eu  a  acabar  !  Praza  a  Deus 
que  a  dor  te  não  íaça  no  espirito  a  morte  antecipa- 


128  Correspondência  epistolar 

da,  a  oclusão  das  vistas  da  alma,  este  sentir-se  a 
gente  a  escurecer  por  dentro,  como  eu  por  supre- 
ma desventura  me  sinto.  Lá  vai  o  que  eu  pensei 
que  me  salvaria  sempre,  e  me  seria  galardão  para 
todos  os  heroismos  de  paciência ;  lá  vai  o  trabalho. 
Não  posso,  não  sei  escrever.  Ha  mezes  principiei 
um  livro,  que  foi  mandado  para  o  prelo  *,  e  está  pa- 
rado porque,  se  me  esforço  por  escrever,  a  cerração 
é  completa.  Feio  egoismo  este,  meu  filho !  sempre 
a  fallar-te  das  minhas  desgraças ! 

Eu  penso,  José,  que  tu  poderás  achar  tranquilli- 
dade  de  animo,  quando  o  habituares  a  qualquer 
trabalho.  Parece-me  que  voltarás  aos  teus  livros,  e 
ao  teu  talento  de  escrever,  quando  toda  essa  peço- 
nha te  entrar  no  sangue  sem  o  deteriorar. 

Afora  as  lides  commerciaes,  deverás  ter  um  la- 
vor de  espirito  que  te  introverta,  e  te  vá  dando  es- 
tes modestos  contentamentos  que  parecem  ter  com- 
migo  o  que  quer  que  seja  de  influição  providencial. 
Eu  senii-os^  c  hoje  morro  porque  os  não  posso 
gozar. 

A  advocacia  deveria  ser-te  manancial  de  grandes 
prazeres ;  mas  não  sei  se  ha  ahi  quem  te  seguisse 
acima  de  que  eu  penso  que  ahi  deve  ser  o  foro. 
Se  isso  te  desse  dinheiro,  não  seria  necessária  a 
ovação  dos  auditórios;  mas  eu  desconfio  que  as  re- 
tribuições hão  de  estar  na  proporção  da  mesquinhez 
do  commercio.  E'  pena,  meu  amigo,  que  não  tenhas 
bem  pronunciada  vocação  para  a  fertilidade  dos 
romances.  Tu  verás  como  é  bom  crear  gente  que 
nos  falia,  que  nos  colhe  as  lagrimas  do  coração  e 
as  faz  filtrar  ao  livro.  Ai !  que  saudades  me  cha- 
mam ao  tempo  em  que  eu  amava  as  figuras  da 
minha  phantasia,  e  visitava  os  locaes  onde  as  tinha 


Correspondência  epistolar  i2g 

íeito  viver !  E  que  fontes  de  doces  lagrimas  tu  não 
tinhas  aberto  para  que  a  verdade  não  faltasse  ás 
tuas  imaginações  !  Como  serias  procurado  e  lido ! 

Teu 

Camillo, 


Meu  querido  filho. 

Gostei  muito  da  tua  invocação.  Mandei-a  ao  Pri- 
meiro de  Janeiro  onde  sahiu  trasladada.  O  exem- 
plar, que  o  Miranda  Henriques  oíFereceu  a  sua  ma- 
mã, mandei-o  encadernar  para  lh'o  entregar.  A 
encadernação  não  pôde  ser  luxuosa  porque  não  ha 
aqui  quem  a  faça,  nem  quatro  laudas  se  prestam  a 
isso.  Amanhã  vou  pessoalmente  entregal-o.  D'esta 
vez  não  vi  a  tua  carta  ao  António,  porque  o  não 
tenho  encontrado.  Ha  muitos  dias  que  o  inverno 
me  não  deixa  sahir.  Os  meus  padecimentos  de  ca- 
beça tem-se  aggravado  irremediavelmente. 

Tristíssimo  também  tu  estavas  quando  me  escre- 
vias. Has  de  assim  ter  muitas  horas ;  mas  quem  as 
passou  ha  dous  annos  da  natureza  das  tuas  é  co- 
barde se  succumbir  ás  que  hoje  te  ennegrecem  o 
espirito.  Para  ti  não  houve  senão  uma  desgraça 
enorme  que  te  remiu  das  outras.  As  voragens  que 
se  abrem  ao  lado  da  tua  devem  ter  luz.  Supremum 
salus  nulla  esperare  salutem.  Mas,  ainda  assim,  tens 
um  horisonte :  a  caridade.  Eu  já  sonhei  que  te  via 
ainda  novo  a  atirar  dinheiro  ás  rebatinhas  aos  po- 
bres. Se  morreres,  velho,  entre  crianças  soccorridas 

VOL.  II  9 


j3o  Correspondência  epistolar 

pela  tua  fortuna,  terás  um  funeral  que  te  levará 
processionalmente  pela  posteridade  além. 

E'  formosa  idéa  essa  das  doze  lições.  E'  a  tua 
segunda  caridade  cm  Africa.  Sê  o  Paulo  d'esses 
ephesos.  Ajunta  á  peregrinação  o  apostolado... 

Horrorisa-me  a  palavra  suicidio  escripta  por  ti. 
Se  queres  rejubilar  os  teus  inimigos  faz  isso.  Deixa 
esse  epitaphio  de  remorso  sobre  as  tuas  cinzas. 
Valha-te  Deus  !  Não  vês  o  alto  ponto  em  que  te 
collocou  a  tua  honra !  Meditas  a  sabida  dos  miserá- 
veis cobertos  de  opprobrio !  Isso  é  inferior  a  ti  e  ao 
conceito  que  me  mereces. 


Teu 
Camillo. 


ULTIMA  CARTA  * 

Meu  amigo. 

Dás-me  ruins  novas.  A  saúde  que  estavas  gozan- 
do ha  dous  paquetes,  parecia-me  um  extraordinário 
beneficio  que  Deus  te  concedia.  Se  principias  a  ser 
doente,  deploro-te  sobre  todas  as  amarguras  da  tua 
vida.  Eu  não  conheço  nada  mais  digno  de  lastima 


*  D'esta  extensa  carta  apenas  se  trasladam  algumas  linhas. 
Não  comprehendo  hoje  a  prophetica  amargura  das  ultimas 
palavras. 


Correspondência  epistolar  i3i 

que  um  simulacro  de  vida  cortado  de  achaques.  Ha 
muitos  annos  que  não  sei  o  que  seja  uma  hora  de 
saúde.  Os  meus  prazeres  n'este  antro  chamado  o 
viver  são  as  poucas  horas  em  que  durmo,  se  as  não 
sobresaltam  as  nevroses  súbitas  ou  os  sonhos  hor- 
rendos que  me  prostram  a  alma. 

Teu  irmão  enviou-me  para  Seide  a  tua  carta. 
Não  vi  a  peça  do  desembargador,  nem  sabia  que 
até  esse  santo  intuito  das  prelecções  te  era  agoren- 
tado  por  dissabores.  Pensas  bem,  filho.  Não  falles 
nem  escrevas  para  esse  gentio.  Volta  a  tua  activi- 
dade a  outro  norte  intellectual.  Escreve  um  livro, 
que  se  possa  aqui  publicar.  Um  livro  para  cada 
anno.  Uma  cousa  reflectida  onde  não  transluza 
phrase  que  pareça  queixume  contra  os  homens  ou 
contra  as  cousas.  Põe  a  tua  provada  dignidade  aci- 
ma de  tudo,  e  faz  sentir  a  amigos  e  inimigos  que  o 
teu  talento  anda  alto  em  quanto  as  tuas  mãos 
mexem  em  cafés  e  bálsamos.  Estou  bem  certo  que 
os  teus  livros,  romanescos  ou  scientificos,  hão  de 
ser  lidos  com  interesse.  Faz  de  modo  que,  na  volta 
de  Africa,  encontres  em  Portugal  a  tua  reputação 
consolidada. 

A  Infanta  capellista  ha  muito  que  está  desfeita. 
A  consciência  entrou-me  pela  algibeira.  Perdi  muito, 
cavei  diííiculdades,  mas  sinto-me  bem  commigo. 

Escrevi  depois  um  romance,  que  te  hei  de  enviar 
no  próximo  paquete,  intitulado  o  Carrasco  de  Victor 
Hugo  José  Alves,  Aproveitei  grande  parte  da  Infan- 
ta —  tudo  que  não  embarrava  pelo  throno ;  mas 
ainda  assim  não  lhe  expongi  algumas  ironias  que 
me  hão  de  custar  injurias  dos  abjectos  que  são  aos 
cardumes  á  volta  do  rei. 

Ainda  não  recebi  o  teu  retrato,  que  já  pedi  ao 


i32  Correspondência  epistolar 

António.  Agradeço-t'o,  e  fica  certo  que  não  sahirá 
da  minha  gaveta. 

Adeus,  filho.  Lembra-te.  Escrevo  ao  pé  da  pedra 
em  que  está  o  teu  nome.  Cobrem  na  dous  cyprestes. 

Teu 

Camillo. 


APPENDICE 


Para  que  não  se  percam  as  oblações  da 
amizade  levadas  á  sepultura  de  José  Cardo- 
so Vieira  de  Castro,  colleccionei  algumas  chro- 
nologias,  que  não  são  todas  as  que  abençoa- 
ram a  memoria  do  insigne  orador.  Algumas 
sei  eu  que  as  ungiram  sinceras  lagrimas ;  e 
ainda  hoje  o  nome  querido  revive  nos  cora- 
ções luctuosos  que  lh'as  deram. 


JOSÉ  CÁEDOSO  VIEIRA  DE  CASTRO 


Da  vida  d'este  homem,  morto  duas  vezes,  morto 
para  o  mundo  antes  da  morte  o  tirar  do  mundo  ; 
da  vida  d'este  homem,  que  acabou  a  vida  antes  de 
morrer,  segundo  a  expressão  de  Séneca,  consum- 
mare  pitam  ante  mortem,  pôde  escrever-se  o  que 
elle  do  alto  da  tribuna  parlamentar,  d'onde  se  com- 
prazia em  semear  de  flores  de  rhetorica  o  caminho 
que  haviam  de  percorrer  os  argumentos  que  despe- 
dia contra  os  adversários,  disse  uma  vez  das  som- 
bras da  lanterna  magica,  que  se  succedem,  reve- 
zam-se  «nos  panos  do  muramento,  vivendo  o  minu- 
to da  existência  das  sombras :  etherea,  rápida,  fugaz, 
como  as  phosphorescencias  dos  marneis  *.» 

Tudo  foi  rápido  e  fugaz  n'aquella  vida  febril, 
agitada  e  tumultuosa :  triumphos,  glorias,  esperan- 
ças, sonhos,  enthusiasmos,  júbilos  Íntimos.  Tudo 
isto  passou,  turbilhão  dourado,  como  folha  levada 
pelo  vento.  Era  o  vento  da  desgraça.  Apagou  quanto 


^  Vieira   de   Castro  —  Discursos  parlamentares — i8G5- 
66.  Pag.  36. 


i36  Correspondência  epistolar 

elle  tinha  de  bom,  generoso  e  fecundo  no  coração, 
crenças  e  aífectos,  semente  divina  de  heroísmos  e 
dedicações,  e  encheu  com  as  cinzas  da  duvida  e  do 
desespero  o  sacrário  vazio  onde  aquelles  affectos  e 
crenças  se  tinham  gerado,  nascido  e  crescido.  Abriu- 
Ihe  em  seguida  as  portas  do  cárcere,  e  depois  d'um 
captiveiro  de  mezes,  durante  os  quaes  aquella  alma, 
no  sinistro  isolamento  feito  de  repente  á  roda  de  si, 
gemeu,  padeceu  e  consumiu  o  resto  das  suas  forças 
n'uma  agonia  excruciante  e  demorada,  arremessou 
com  elle  para  longe  da  pátria,  dos  seus,  das  recor- 
dações da  infância,  dos  sonhos  da  mocidade,  para 
longe  dos  sitios  em  que  elle  tinha  triumphado,  ama- 
do e  sido  feliz,  para  longe  do  céo  e  das  flores  da 
sua  pátria,  para  longe  d'este  sol  creador  a  cujos 
raios  se  accendera  o  seu  engenho  e  dilatara  a  sua 
alma.  Finalmente  veio  a  morte  e  levou-o.  Onde  a 
desgraça  passara,  esterilisando  tudo  como  a  pata 
do  cavallo  huno,  mocidade,  esperanças,  chimeras, 
illusões,  sentou-se  a  morte  armada  da  fouce,  como 
a  pintavam  os  antigos.  Triste,  triste,  triste ! 

Que  resta  hoje  dos  combates  em  que  o  acadé- 
mico consumiu  as  primeiras  forças  e  os  primeiros 
enthusiasmos  da  sua  juventude,  dos  triumphos  que 
ao  orador  politico  grangeou  a  sua  palavra  vigorosa 
e  elegante,  das  esperanças  de  que  o  homem  se  nu- 
triu, das  felicidades  que  sonhou,  do  ideal  que  todo 
o  trabalhador  julga  entrever  ao  cabo  da  sua  lide  e 
que  incita  o  sábio  a  não  desesperar  da  sciencia  e  o 
pobre  a  não  desesperar  da  riqueza  ? 

E  todavia  nunca  houve,  por  menos  entre  nós, 
carreira  a  que  o  futuro  promettesse  mais,  destino 
mais  brilhantemente  começado,  fado  na  apparencia 
mais  feliz. 


Correspondência  epistolar  i3j 

Grandes  predilecções  litterarias,  que  o  distingui- 
ram e  acompanharam  sempre,  levaram  Vieira  de  Cas- 
tro nos  primeiros  annos  a  experimentar  o  seu  talento 
em  tentamens  de  diversos  géneros  ;  escreveu  alguns 
artigos  no  Nacional  do  Porto,  folhetins  na  Revolu- 
de  Setembro^  e  o  Atheneo  teve-o  por  collaborador 
eíFectivo  muito  tempo.  Todavia  a  sua  obra  litteraria 
de  maior  significação  é  a  Noticia  da  vida  e  obras  de 
Camillo  Castello  Branco,  que  seria  de  todo  o  ponto 
um  bom  livro,  assim  como  é  um  livro  curioso,  ar- 
riscado e  intrépido,  se  a  tendência  para  o  estylo 
gongorico,  grandes  phrases  exageradas  e  palavras 
retumbantes  não  prejudicassem  o  sabor  da  lingua- 
gem no  que  respeita  ás  leis  do  gosto  *. 

Este  livro,  —  pormenor  talvez  ignorado  da  maioria 
dos  que  o  leram  e  conhecem,  —  foi  feito  n'um  se- 
gundo andar  da  rua  dos  Algibebes,  onde  Vieira  de 
Castro  vivera  com  Camillo  Castello  Branco  ha  doze 
annos,  em  1860  ^.  Existência  tranquilla,  retirada  do 


*  Apreciação  inexacta,  resultante  da  falsa  idéa  que  o  snr. 
S.  Nazareth  forma  do  gongorismo.  O  estylo  de  V.  de  Castro 
demasiava-se  em  pompas,  tecia-se  com  superabundância  de 
fios  do  melhor  ouro ;  mas,  com  toda  a  certeza,  não  peccava 
pelos  trocadilhos  e  conceitos  forçados  —  os  quaes  caracteri- 
sam  a  desprezada  e  desde  dous  séculos  obsoleta  escola  de 
Luiz  de  Gongora.  Quem  quizer  conhecer  os  seus  discipulos 
em  Portugal,  procure-os  no  púlpito  do  século  xvii,  nos  roman- 
ces atoantados  d'esse  tempo,  em  Jacintho  Freire  de  Andrade, 
e,  ás  vezes,  no  padre  António  Vieira,  exceptuadas  as  cartas 
e  os  papeis  polititos. 

C.  C.  B. 

2  Inexactidão.  O  livro  foi  escripto,  estando  eu  no  cárcere. 

c.  a  B. 


i38  Correspondência  epistolar 

mundo,  esquiva  ao  bulício  e  ás  agitações  da  socie- 
dade. Nem  pensava  em  politica,  nem  lia  jornaes. 
Nenhum  dos  dous,  nem  Gamillo  nem  elle,  sahia  de 
casa,  a  não  ser  algum  bocadinho  á  noite,  e  isso 
mesmo  raras  vezes.  Gomo  n'esse  tempo  não  havia 
ainda  jornaes  de  noticias,  era  cada  qual  senhor  de 
chegar  e  partir  quando  muito  bem  queria.  Os  prelos 
não  diziam  nada.  Por  isso  ninguém,  ou  quasi  nin- 
guém sabia  que  Gamillo  e  Vieira  de  Gastro  aqui 
estivessem.  Estes  dous  homens,  tão  extraordinários 
por  mais  d'um  titulo,  passavam  na  sombra  e  recrea- 
vam-se  com  o  mysterio  em  que  se  envolviam.  Iam 
apenas  á  casa  da  rua  dos  Algibebes  Júlio  Gesar 
Machado  *,  que  morava  n'esse  tempo  perto  d'aquel- 
la  casa,  n'uma  esquina  do  sexto  quarteirão  da  rua 
do  Ouro,  e  João  Ignacio  da  Gunha. 

Gamillo  estava  n'uma  das  suas  épocas  de  não 
querer  trabalhar.  Enfastiado  de  tudo,  como  que  fa- 
tigado da  vida,  e  quasi  que  com  asco  ás  letras,  não 
queria  vêr  livros  nem  ouvir  fallar  n'elles  ;  Vieira, 
que  tinha  por  elle  uma  amizade  que  tocava  as  raias 
do  fanatismo,  afinava  por  aquelle  grande  espirito^ 
e  também  não  queria  ler.  O  resultado  era  n'aquella 
casa  não  fazer-se  outra  cousa  senão  conversar.  O 
leitor  que  imagine  o  que  alli  iria  de  philosophia,  de 
ironia,  de  observação,  de  critica,  n'aquelles  cavacos 
permanentes  ! 

Vieira  tinha  a  nota  do  enthusiasmo  ou  a  da  ira ; 
Gamillo,  a  do  desdém,  a  do  riso,  a  do  desprezo. 
Mesmo  quando  gracejava,  o  primeiro  tinha  como 


'  Devo  á  sua  obsequiosa  amizade  estes  preciosos  aponta- 
mentos inéditos.  D'aqui  lhe  agradeço. 


Correspondência  epistolar  i3g 

que  lagrimas  e  apostrophes  nos  seus  ditos;  Gamillo, 
homem  superior  e  homem  experiente,  vasava  n'um 
sarcasmo  um  mundo  de  idéas. 

A  singeleza  de  costumes  de  Vieira  de  Castro 
n'essa  época  parecia  desmentir  os  boatos  que  se  ha- 
viam espalhado  a  respeito  dos  distúrbios  da  sua  vi- 
da de  estudante.  Gontava-se  que  elle  em  Coimbra 
fizera  época,  não  só  pelo  prestigio  da  sua  palavra  e 
pelo  ardor  da  sua  eloquência,  mas  pela  coragem 
dos  seus  actos,  muitas  vezes  pela  imprudência  e 
loucura  d'elles.  Entretanto,  ao  vêl-o,  quasi  que  não 
se  acreditava  em  semelhante  cousa:  eram  doces  as 
suas  falias,  e  no  trato  com  os  amigos,  meigo  e  dó- 
cil como  uma  criança.  Ninguém  diria  que  fosse 
aquelle  gentil  moço,  ceremonioso,  delicado,  o  ter- 
ror das  noites  de  Coimbra  e  dos  dias  do  reitor! 

Que  differença  entre  esta  sua  passagem  em  Lis- 
boa ha  doze  annos,  tranquilla  e  ignorada,  e  a  sua 
entrada  no  parlamento,  onde  veio  em  i865  repre- 
sentar um  circulo  da  opposição!  Que  celeuma  que 
se  levantou  á  roda  do  seu  nome  !  Que  tempestades 
e  que  triumphos !  Como  foi  applaudida  com  calor 
pelos  amigos  e  pelos  adversários  acerbamente  cri- 
ticada a  sua  estreia  parlamentar,  estreia  audaz  e 
brilhante  que  o  snr.  António  Rodrigues  Sampaio, 
grande  amigo  de  Vieira  de  Castro,  saudava  no  dia 
immediato  d'este  modo  na  Revolução  de  Setembro : 
«Nem  a  tribuna  antiga  nem  a  moderno  nos  offere- 
cem  melhores  modelos  de  eloquência.» 

Esta  apreciação,  na  qual  a  amizade  influia  mais 
que  o  juizo  recto  e  imparcial  de  quem  a  fazia,  não 
era  comtudo  inteiramente  destituida  de  fundamento. 
Vieira  de  Castro  nascera  para  fallar.  Era  fado  seu, 
como  fado  seu  foi  a  sorte  desgraçada  que  teve.  A 


140  Correspondência  epistolar 

sua  natureza  intrépida  e  audaz  amava  a  luta,  a  em- 
briaguez e  as  commoções  do  combate.  A  tribuna 
era  o  seu  elemento.  Subia  a  ella  como  o  soldado 
sobe  ao  assalto.  Sentia-se  grande  e  forte  n'aquelle 
mesmo  lugar  d'onde  Garrett  desfolhara  os  primores 
da  sua  palavra  académica,  que  realisou  entre  nós 
o  ideal  antigo,  o  consorcio  da  força  e  da  eloquência 
tão  amados  dos  gregos.  Como  o  author  do  discur- 
so de  Porto  Pirêo,  tinha,  ainda  que  em  grau  infe- 
rior, a  elegância  e  a  força,  e  uma  cousa  que  mais 
ninguém  teve  depois  de  José  Estevão :  o  calor,  a 
chamma  interior,  a  inspiração,  o  chamado  fogo  sa- 
grado, que  não  se  sabe  d'onde  vem,  se  desce  do 
céo  como  o  espirito  que  illuminou  os  apóstolos,  se 
se  eleva  do  coração  como  o  amor,  a  fé,  o  enthusias- 
mo,  mas  cujo  poder  é  assombroso  e  cuja  força  é 
irresistivel.  Onde  elle  experimentou,  de  uma  ma- 
neira definitiva,  esta  irresistivel  força  e  este  assom- 
broso poder  foi  n'aquelle  celebre  jneeting  do  Porto 
onde  elle  fallou  por  espaço  de  quatro  horas,  e  que 
constituiu  um  dos  episódios  mais  notáveis  da  nossa 
vida  politica  n'estes  últimos  annos.  O  seu  discurso, 
diz  quem  o  ouviu,  foi  um  rugido  e  uma  cólera, 
uma  magnetisação  e  um  milagre  * ! 

Foi  o  canto  do  cysne,  a  ultima  vibração  d'aquel- 
la  palavra  sonora  e  eloquente,  o  ultimo  som  d'aquel- 
ía  voz  possante  e  inspirada. 

Já  Vieira  de  Castro  estava  casado.  Tinha  visto 
o  novo  mundo:   percorrera  a  America  do  Sul,  no 


*  José  Cardoso  Vieira  de  Castro,  antes  e  depois  do  seu 
julgamento,  por  seu  irmão  António  Manuel  Lopes  Vieira  de 
Castro.  Pag.  5o. 


Correspondência  epistolar  141 

meio  dos  triumphos  que  lhe  grangeava  diariamen- 
te o  seu  talento  de  orador,  posto  por  elle  ao  servi- 
ço da  caridade  em  mais  d'uma  festa  de  beneficên- 
cia; visitara  a  America  do  Norte,  no  meio  das  preoc- 
cupações  politicas  de  que  a  Republica  sahiu  arma- 
da como  Minerva  da  cabeça  de  Júpiter;  dos  Esta- 
dos-Unidos  trouxera  este  livro  valoroso  e  audaz,  a 
mais  ardente  profissão  de  fé  democrática  que  até 
então  se  fizera  entre  nós ;  das  terras  de  Santa  Cruz 
trouxera  o  amor,  a  paz,  a  felicidade,  o  lar. 

Tudo  isto,  porém,  devia  durar  pouco.  A  estrella 
funesta  que  desde  os  primeiros  annos  disputara,  no 
destino  d'aquelle  homem,  com  assustadora  pertiná- 
cia, o  lugar  á  estrella  propicia  a  que  elle  devera  os 
seus  primeiros  triumphos,  i Iluminou  subitamente 
com  o  seu  lúgubre  clarão  os  horisontes  até  alli  de 
ouro  e  purpura  d'aquella  feliz  e  gloriosa  existência. 
Subitamente,  por  um  capricho  extravagante  e  bru- 
tal da  sorte,  cahiu  por  terra,  como  se  fora  castello 
de  cartas  levantado  pela  mão  débil  d'uma  criança, 
o  edifício  onde  todos  julgavam  que  morava  o  amor, 
a  gloria  e  a  felicidade.  Foi  uma  catastrophe  espan- 
tosa, e  cujo  desfecho  fez  lembrar  o  trágico  final 
d'aquella  peça  em  que  o  poeta  inglez  resumiu,  em 
versos  que  hão  de  sobreviver  a  todas  as  idades  e 
a  todos  os  cataclysmos,  tudo  quanto  pôde  haver  de 
mais  doce  no  amor  e  tudo  quanto  pôde  haver  de 
mais  cruel  no  ciúme. 

Desde  este  dia  Vieira  de  Castro  pôde  dizer-se 
que  morreu. 

A's  vezes  na  cadêa,  onde  eu  ia  visital-o  frequen- 
temente,—  confesso-o  sem  pejo  nem  temor  dos 
ódios  que  ainda  possa  resuscitar  a  sua  desgraçada 
memoria,  —  animava-se  com  a  presença  dos  poucos 


7^2  Correspondência  epistolar 

amigos  que  iam  vêl-o,  e  que  pela  sua  parte  faziam 
constantes  esforços  para  o  alegrar  e  distrahir,  con- 
versava, fallava,  ás  vezes  discutia  até  calorosamen- 
te ;  mas  tudo  isto  era  rápido,  fugaz,  ephemero.  Mi- 
nava-o  a  tristeza,  o  pezar,  a  nostalgia  de  todas  as 
cousas  que  lhe  tinham  sorrido  na  vida  e  que  elle 
tinha  amado.  Olhava  melancolicamente  através  das 
grades  para  o  Tejo,  que  lhe  passava  defronte  da 
janella  tinto  do  azul  voluptuoso  d'este  sereno  céo, 
para  o  sol  que  parecia  ter  medo  de  entrar  n'aquel- 
la  triste  morada.  Todavia  supportava  tudo  com  he- 
roica  resignação,  com  um  estoicismo  verdadeira- 
mente antigo.  Aquella  alma,  açoutada  por  tempes- 
tades que  fariam  sossobrar  os  ânimos  mais  varonis 
e  resolutos,  não  teve  nunca  uma  hora  de  desfalle- 
cimento.  Estava  como  aquella  arvore  de  que  falia 
o  padre  António  Vieira  n'um  dos  seus  sermões : 
despojada  das  folhas  que  a  revestiam,  das  flores 
que  a  guarneciam,  dos  fructos  que  a  enriqueciam, 
presa  ainda  pelas  raizes,  e  sustentando-se  na  terra 
(mas  não  da  terra),  espera  a  arvore  em  pé  a  ultima 
cahida  *. 

Era  uma  alma  de  tempera  rija,  uma  consciência 
corajosa  e  forte,  que  jamais  conheceu  desfalleci- 
mentos  cobardes  ou  condescendências  vergonhosas. 
Depois  do  julgamento  lhe  ouvi  dizer  mais  d'uma 
vez  que  não  voltaria  a  Portugal,  mesmo  no  caso 
da  intercessão  d'algum  amigo  valioso  lhe  alcançar 
uma  commutação  de  pena,  sem  completar  os  quin- 
ze  annos   de    degredo  a  que  estava  condemnado. 


*  Segundo  sermão  da  cinza,  pregado  em  Roma  no  anno  de 
1673. 


Con^espondencia  epistolai^  148 

Este  valor  na  desgraça  deve  merecer  algum  res- 
peito á  sua  memoria.  Que  respeitem  ao  menos  a 
memoria  os  que  não  poderam  perdoar  ao  homem. 

Santos  Nazareth. 


Morreu  no  degredo;  mas  eu  não  o  choro.  Logo 
que  elle  deixou  de  padecer,  as  pessoas  que  o  esti- 
mavam, e  se  doiam  da  sua  desgraça,  devem  dar 
graças  á  divina  Providencia  que  lhe  commutou  em 
agonia  de  instantes  o  supplicio  de  quinze  annos  — 
o  interminável  supplicio  de  toda  a  vida.  Eu  adora- 
va-o,  e  ainda  assim  não  choro  n'esta  certeza  atroz 
de  mais  o  não  ver.  Mais  atribulado  martyr  do  que 
foi  Vieira  de  Castro  ainda  os  homens  não  condem- 
naram  algum.  Mais  doce  coração  e  cérebro  mais 
ardente  de  egrégios  enthusiasmos  não  sei  onde  os 
houvesse  mais  infelizes.  Morreu,  queria  morrer, 
ouviu-o  a  misericórdia  de  Deus.  De  Deus ! .  . .  por- 
que não  ?  O'  crucificada  vida,  acabarias  tu  ahi  n*es- 
se  cemitério  de  Africa  ? . . . 

Em  i3  de  setembro  de  1871,  quando  elle  ia  ca- 
minho do  degredo,  escreveume  da  ilha  de  S.  Vi- 
cente estas  palavras:  «Levo  não  sei  que  sobresal- 
tos  de  que  vou  morrer.  Penso  serenamente  na  mor- 
te, e  é  isto  o  que  me  faz  crer  n'ella.  Vejo  a  morte 
como  um  descanço .  . .  Estas  tristezas  tem  tudo 
com  a  voz  interior  da  minha  alma  que  me  diz  que 
o  meu  dever  é  morrer. . .  E'  claro  que  o  meu  des- 
tino é  um  absurdo,  e  fugir  d'elle  seria  salvar-me. 
Os  teus  filhinhos  que  ponham  as  mãos  para  Deus 
por  mim  e  por  ella ...» 


144  Correspondência  epistolar 

Elle  tinha  amado  muito  a  desventurada  para 
quem  pedia  os  suífragios  de  dous  innocentes.  Ia 
perdido,  a  sorrir  á  morte,  a  crer  que  era  honra  sua 
seguir  a  alma  que  o  abysmára,  e  pedia  que  oras- 
sem por  ella  a  Deus. 

Em  21  de  novembro  de  1871,  dizia-me :  € . . .  Te- 
nho horas  de  escuríssima  melancolia . . .  Em  dia  de 
finados  fui  ao  cemitério.  Vesti  o  meu  luto  e  fui  lá. 
Eram  seis  horas  da  manhã;  ouvi  umas  missas,  e 
passeei  depois  por  entre  as  sepulturas.  Deus  viu- 
me  do  céo  por  um  punhado  de  lagrimas  com  que 
me  deixou  consolar.  Tive  pena  dos  mortos  de  Loan- 
da,  meu  filho.  Não  haverá  no  mundo  outros  nem 
mais  desamparados  nem  mais  esquecidos.  Não  ha 
uma  sepultura  visitada  por  flores;  rara  pedra  tem 
epitaphio,  e  nenhuma  urna  que  tenha  orvalhos !  Ha, 
ao  redor  dos  canteiros,  umas  arvoresinhas  com 
umas  flores  roxas  e  brancas.  Atirei  com  algumas 
para  cima  de  uma  sepultura  sem  nome,  e  trouxe 
umas  poucas  para  te  mandar  a  ti.  Estão  alli  mirra- 
dinhas,  mortas  e  debruçadas  n'um  pequeno  cálix. 
Tencionava  mandar  outras  também  ás  senhoras  de 
minha  familia;  já  puz,  porém,  na  carta  ao  António 
que  não  mandava  nenhuma:  podia  ser  agouro.» 

No  dia  de  finados  do  anno  seguinte.  Vieira  de 
Castro  já  era  um  dos  mortos  no  cemitério  triste  de 
Loanda.  Alli  jazia  em  meio  dos  desamparados  e  es- 
quecidos que  lhe  haviam  desafogado  o  coração  em 
lagrimas  consoladoras. 

Em  22  de  fevereiro  d'este  anno  escrevia-me : 
«Eu  tenho  tédios  mortaes.  Volto  a  sorrir  á  possibi- 
lidade de  morrer;  mas  agora  sem  tristeza;  é  com 
placidez,  com  animo  frio,  sem  presumpções  falsas, 
que  penso  e  desejo  isto.  Nenhum  sentimento  me 


Correspondência  epistolar  145 

prende  á  vida.  O  da  família  e  dos  quatro  amigos 
verdadeiros  esse  lá  irá  para  a  minha  sepultura  vi- 
giar por  mim. . .  Vou  dizer- te  uma  cousa  com  toda 
a  frieza  do  meu  animo.  Ando  desconfiado  de  que 
venho  a  acabar  pelo  suicidio..  .  N'esse  final,  nin- 
guém verá  a  vaidade. . .  Mau  é  quando  eu  começo 
a  pensar  muito  na  mesma  idéa,  e  este  desatino  an- 
da ha  tempos  com  insistência  a  martellar-me  no  cé- 
rebro. Deixa  vêr.» 

Não  se  suicidou.  Vidas  tão  vigorosas  e  capazes 
de  tamanha  enchente  de  amarguras  não  se  aniqui- 
lam. Desejava  a  morte,  esperava-a  da  mão  de  Deus. 

Ajoelhou  nacapella  do  cemitério,  pedindo-a.  Orou 
pelos  desterrados  que  o  precederam  na  redempção. 
Nunca  vi  tão  grande  infeliz  com  tão  entranhada  fé. 
Se  o  convencessem  de  que  Deus  se  compraz  em 
que  vivam  deshonrados  os  que  o  confessam.  Vieira 
de  Castro  seria  a  esta  hora  o  máximo  orador  por- 
tuguez,  o  tribuno  que  arrastava  as  multidões,  o  en- 
genho adquado  a  occupar  os  mais  elevados  postos 
da  politica.  Mas  elle,  morto  no  coração,  perdeu 
a  memeria  das  glorias  adquiridas,  e  a  esperança  das 
que  lhe  promettia  a  energia  do  seu  talento. 

As  suas  ultimas  cartas  para  mim  revelavam  a 
gravidade  da  doença  que  o  ia  extenuando.  Em  todas 
se  lastima  de  que  a  sua  agonia  vá  sendo  tão  demo- 
rada^ mas  de  seu  irmão  António,  o  seu  primeiro 
amigo,  escondeu  elle  sempre  a  enfermidade  e  os 
presagios  funestos.  As  ultimas  doze  horas,  que  di- 
zem os  telegrammas  terem  sido  o  prazo  da  doença, 
foram  a  exacerbação  dos  derradeiros  paroxismos. 
Um  amigo  e  seu  companheiro,  me  escreve  em  12 
de   setembro  que  receava  muito  pela  vida  d'elle,  e 

se   espantava  da  serenidade  com  que  entendia  nos 
voL.  n  10 


14^  Correspondência  epistolar 

negócios  commerciaes  em  que  buscava  acalentar  as 
dores  da  alma. 

Permittisse  Deus  que  elle,  nas  suas  horas  íinaes, 
não  visse  a  imagem  de  sua  extremosa  família  e  dos 
amigos  que  lhe  adoram  a  memoria. 

Ao  sahir  de  Lisboa,  em  4  de  outubro  de  1871,  me 
escrevia  o  meu  pobre  amigo:  «Adeus..  .  Se  por  lá 
morrer,  decerto  sobe  a  minha  alma  com  a  tua  ima- 
gem, b  O'  meu  Deus,  a  vossa  immensa  bondade  de 
certo  desviou  do  espirito  d'elle,  na  hora  do  trespas- 
se a  memoria  das  pessoas  que  o  amavam. 

Alma  que  me  serás  exemplo  e  conforto  nas  mi- 
nhas dores  n'esta  breve  vida  que  me  resta,  perdôa- 
me  se  eu  te  não  amei  quanto  devia.  Quando  eu  me 
sentir  dobrar  pela  desgraça,  pedirei  á  tua  imagem 
qne  me  ensine  a  soffrer  n'aquella  inquebrantável 
honra  com  que  aceitaste  o  immenso  cálix  que,  em 
fim  te  afastou  dos  lábios  o  anjo  bemdito  do  morte» 

Camillo  Castello  Branco. 


No  dia  5  d'outubro,  ás  9  horas  da  noite,  entre- 
gou a  alma  ao  Creador  o  exc.™*^  snr.  dr.  José  Car- 
doso Vieira  de  Castro,  victima  de  uma  febre  per- 
niciosa fulminante ! 

Geral  foi  o  sentimento  de  Loanda  inteira !  No  dia 
seguinte  teve  lugar  o  seu  funeral  a  que  assistiu  a 
primeira  sociedade  d'esta  cidade. 

O  snr.  governador  geral  veio  prestar  o  ultimo  tri- 
buto de  amizade  ao  seu  antigo  amigo,  pegando  n'uma 
das  argolas  do  caixão  e  acompanhando  a  pé  até  o 
cemitério  o  carro  mortuário. 


Correspondência  epistolar  7^7 

A'  beira  do  sepulcro  o  snr.  Urbano  de  Castro  re- 
citou a  bella  allocução  que  demos  n'outro  logar.  No- 
tou-se  uma  coincidência  notável — que  no  mesmo 
dia  e  hora  em  que  Vieira  de  Castro  era  accommet- 
tido  pela  febre  que  d'alli  a  poucos  momentos  o  havia 
de  trasladar  ao  sepulcro,  fazia  justamente  um  anno 
que  desembarcara  em  Loanda,  terra  do  seu  exilio  e 
seu  tumulo. 

A'  exc."^^  familia  do  finado  enviamos  d'aqui  os 
mais  sentidos  pêsames  e  acompanhamos  na  justa  e 
profunda  dor  de  que  também  estamos  possuidos 
pela  prematura  morte  do  nosso  desditoso  amigo. 


LOANDA  9  D'OUTUBRO  DE  1872 

Cahiste  tu  também  victima  infausta, 
A  mim  tão  caro,  a  Portugal,  ao  mundo, 
A's  musas,  ao  saber,  cahiste  Elmano! . . . 
Já  fria  o  corpo  teu  lapida  encerra 
E  o  somno  funeral  teus  olhos  fecha! 
Sombras,  sombras  sem  fim,  cobrem  teu  rosto 


E  no  silencio  do  sepulcro  existes! 
Antecipada  mão  do  tempo  avaro 
Rompeu  a  teia  da  existência  tua! 

J.  A.  DE  Macedo. —  Epicedio. 

José  Cardoso  Vieira  de  Castro  já  não  existe. 

E'  já  presa  da  morte  aquelle  vulto,  aquelle  co- 
losso, que  por  base  tinha  a  fama  e  seus  tropheus, 
por  aureola  as  irradiações  do  talento  e  os  brilhan- 
tes fulgores  do  génio,  verdadeiras  emanações  da  di- 
vindade ! 


148  Correspondência  epistolar 

Vieira  de  Castro,  o  académico  laureado,  o  rigido 
tribuno  do  povo  e  da  liberdade,  o  orador  consum- 
mado,  irresistivel  e  victorioso  jaz  hoje  enregelado 
pelo  frio  da  morte  e  arremessado  á  escuridão  per- 
petua do  sepulcro! 

A  imprensa  periódica  de  cujos  foros  Vieira  de 
Castro  foi  sempre  acérrimo  defensor  e  propugna- 
dor,  não  pôde  deixar  de  registar  com  dor  profunda 
esse  successo  infausto  e  cobrir-se  de  negro  crepe 
pela  perda  irreparável  que  acaba  de  soffrer! 

A  nós,  seu  amigo,  que  o  acompanhamos  nas  ho- 
ras amargas  da  provação  e  do  desterro,  a  nós  que 
sentados  com  elle  á  margem  do  seu  Euphrates,  no 
meio  d'essa  Babylonia  corrupta  e  devassa — lhe  ou- 
vimos soltar  sublimes  canções,  fructo  d'aquelle  gé- 
nio inspirado  e  divino,  resta-nos  a  vivissima  sauda- 
de que  nos  opprime  o  peito ! 

Vieira  de  Castro ! . . . 

Martyr  sublime  da  honra,  que  por  ella  te  preci- 
pitaste do  mais  alto  fastigio  da  grandeza  e  do  po- 
der para  o  abysmo  mais  negro  e  mais  profundo  aos 
olhos  do  vulgo  e  da  multidão,  martyr  invicto  que 
tudo  afifrontaste,  que  tudo  jogaste  e  malbarataste 
em  única  defeza  do  teu  nome  e  da  tua  probidade, 
adeus ! ! 

Descança  em  paz  á  sombra  do  repouso  e  do  se- 
pulcro. 

Tecer  teus  elogios,  formar  tua  apotheose,  é  em- 
preza  tão  impossivel,  como  é  impossível  á  humilde 
avesinha  seguir  o  voo  remontado  da  águia  real. 

Vieira  de  Castro!  — Teu  nome  é  a  synthese  mais 
completa  de  toda  a  grandeza,  de  toda  a  sublimida- 
de, de  toda  a  veneração! 


Correspondência  epistolar  i4g 

Génio  como  o  teu  não  se  exalta  porque  se  depri- 
me :  admira-se,  venera-se,  adora-se  ! 

Tua  memoria  será  bemdita  em  todo  o  tempo  e 
em  todas  as  gerações ! 

A  posteridade  passando  por  teu  tumulo  desco- 
brir-se-ha  respeitosa  ao  ler  o  teu  epitaphio: 

AO    MARTYR   DA    HONRA 

{Mercantil,  de  Loanda). 


A'  MEMORIA 


DE.  JOSÉ  (JAEDOSO  VIEIEA  DE  CASTEO 

De  dia  em  dia  as  lagrimas  saudosas 
De  afflictos  corações  estão  regando 
Marmóreas  campas,  urnas  lutuosas. 


Honrem  as  cinzas,  honrem  a  memoria 
D'esse,  que  do  mundano  atroz  conflicto 
No  céo  desfructa  singular  victoria. 

Bocage.  — Eleg. 

Morreu  o  H^eus  da  palavra,  assim  escreveu  o 
nosso  primeiro  jornalista,  consagrando  um  artigo  ao 
passamento  do  grande  tribuno  portuguez,  do  Cíce- 
ro do  nosso  parlamento  —  José  Estevão  Coelho  de 
Magalhães.  E  nós,  com  a  face  banhada  do  pranto 
que  a  dor  arranca,  diremos :  —  foi  cahir  nos  arden- 
tes areaes  d'Africa  uma  estrella  brilhante  que  n'a- 
quelle  céo  nebuloso  se  mergulhou  em  densas  tre- 


j5o  Correspondência  epistolar 

vas.  Deixou  de  existir  aquelle  que  o  infortúnio  enor- 
me, uma  desgraça  s'em  nome,  atirara  á  terra  do  de- 
gredo da  pátria,  do  estremecido  amor  da  mãi  e  da 
familia,  da  estima  dos  amigos,  alliados  pela  frater- 
nidade litteraria; — o  successor  de  José  Estevão, 
—  José  Cardoso  Vieira  de  Castro:  —  o  amigo  que 
havia  pouco  nos  honrava  com  expressões  puras  da 
sua  alma,  do  afTecto  de  um  coração  nobilissimo. 

O  grande  orador,  portentoso,  rico  de  imagens, 
poderoso  de  eloquência,  brilhante  pelo  estylo,  foi 
seccar  as  suas  coroas,  os  seus  lauréis  de  triumphos 
obtidos  nas  gigantescas  lutas  da  palavra,  —  n'um 
paramo,  para  onde  partira  da  pátria  que  honrara! 

Vieira  de  Castro  vergou  sob  o  peso  da  sua  crui: 
mas  não  d  ignominia  d'e!la.  Succumbiu  ao  transe 
da  sua  insondável  agonia ;  expirou-lhe  nos  lábios 
ungidos  de  lagrimas  o  verbo  eloquente,  cuja  magia 
arrebatava  as  multidões. 

Deus  escutou  a  fervorosa  prece  do  nobre  e  gran- 
de desgraçado ;  quiz  estancar  as  ultimas  lagrimas 
d' aquelle  honrado  coração  e  enviou-lhe,  como  doce 
trago,  a  morte  que  o  martyr  da  honra  de  certo  re- 
cebeu com  a  resignação  de  quem  expira  vergado 
ao  peso  de  sua  cru\. 

No  dia  5  d'outubro,  pelas  9  horas  da  noite, 
aquelle  espirito  que  ainda  nos  ardentíssimos  areaes 
de  Africa  scintillava  pelo  fulgor  do  talenlo,  ecli- 
psou-se.  A  Vieira  de  Castro  cerrou-se-lhe  a  noite; 
a  névoa  da  morte  toldou-lhe  a  vista,  e  atirou  ao  tu- 
mulo toda  a  seiva  de  uma  mocidade  preciosa. 

Morreu  Vieira  de  Castro,  rei  da  palavra;  des- 
appareceu  da  terra  aquella  voz  sympathica  e  elo- 
quente que  se  cobria  de  applausos  de  todos  os  seus 
coUegas  na  camará  popular. 


Correspondência  epistolar  i5i 

Quem  o  diria  ? !  Que  o  colosso  d'essas  gloriosas 
e  incruentas  luias^  o  Deus  da  palavra,  que  o  sobe- 
rano da  eloquência,  cuja  voz  potente  em  cada  dis- 
curso contava  triumphos  completos,  derrotava  egré- 
gios talentos,  havia  de  ir  banhar  a  radiante  fronte, 
e  para  sempre  sumir-se  no  ardente  clima  d'Africa?! 
Que  aquelle  cuja  voz  nobre,  gesto  verdadeiraiDente 
varonil,  que  supplantou  poderosos  adversários,  ha- 
via de  ir,  pelo  amor  á  sua  muita  honra,  no  sol 
dourado  da  manhã  da  vida,  no  desabrochar  das 
flores  do  génio,  seccal-as,  desfolhal-as  n'esse  clima 
inhospito,  sem  perfumes,  mas  cujas  exhalações  lhe 
ENVENENARAM  a  vida  prcciosa  ! . .  .  Quem  diria  que 
aquelle  coração  nobre  e  leal,  que  não  dava  tréguas 
ao  adversário  no  campo  da  discussão,  nas  lutas  da 
palavra,  que  só  o  deixava  no  ultimo  arquejar  da 
vida  intellectual,  ionge  de  ter  na  pátria  longa  vida 
que  ennobrecesse,  e,  como  José  Estevão,  quando 
a  morte  lhe  cortasse  as  prisões  da  existência,  jun- 
to ao  palácio  da  legislação  portugueza,  se  lhe  eri- 
gisse memoria  como  aquelle  tribuno,  a  quem  suc- 
cedeu,  —  na  terra  do  degredo,  teria  modesta  cam- 
pa, copada  por  tristes  cyprestes  que  no  g^mer  lú- 
gubre dizem  em  lutuoso  pranto  da  natureza :  — 
aqui  jaz  um  homem  que  honrou  a  pátria,  e  que  por 
amor  da  honra  abandonou  gloria,  renome,  honras 
e  posteridade  ! 

«Faltava-te  morrer.  Vieira  de  Castro»,  escreveu 
o  teu  eloquente  amigo  o  primeiro  romancista  por- 
tuguez,  —  Gamillo  Castello  Branco  :  —  sim,  e  falta- 
va-te morrer  «para  que  em  tua  sepultura  se  respei- 
tassem as  cinzas  de  um  grande  coração,  estremado 
na  honra  e  na  desgraça!» 

Eis-te,  nobre  amigo,   na  sepultura,  onde  as  vo- 


i52  Correspondência  epistolar 

zes  da  lisonja  se  não  escutam,  mas  onde  o  pranto 
amigo  vai  correr ;  onde  a  saudade  requeima  as  fa- 
ces pallidas  pela  dor  do  amigo  finado.  Eis-te  na  se- 
pultura, n'esse  abysmo  onde  te  fez  resvalar  a  mão 
que  osculavas  e  ungias  estremecido  das  lagrimas 
da  felicidade ! 

Ainda  bem  que  a  morte  foi  acabar  uma  tristeza 
irremediável.  Sequestrado  da  pátria,  não  te  cuspi- 
ram nas  grinaldas  dos  teus  triumphos ;  choraram 
sobre  ellas :  —  não  as  salpicaram  de  lodo  nem  de 
pó.  A  tua  alma,  martyr  da  honra,  viu  do  céo,  on- 
de de  certo  terás  recebido  a  palma  de  teu  marty- 
rio,  a  cidade  de  Loanda,  chorar  o  passamento  de 
tua  curta  vida,  onde  as  flores  da  tua  coroa  desabro- 
charam em  espinhos,  oh  grande  espirito ! 

Todos,  authoridades,  magistrados,  commercio  e 
povo  acompanharam  o  cadáver  do  finado  illustre  á 
sepultura. 

O  carro  funerário  também  foi  um  carro  de  trium 
pho,  se  bem  que  triste.  Ladeavam-o  com  as  faces 
orvalhadas  de  lagrimas  os  primeiros  homens  d'a- 
quelle  paiz  :  para  onde  se  mandam  degredados, 
mas  onde  ha  corações  doridos  que  soltam  vozes  de 
angustia  quando  vêem  esconderem-se  na  sepultura 
talentos  egrégios,  caracteres  nobres,  que  honrariam 
a  pátria,  se  o  infortúnio  os  não  ferisse  ! 

A'  beira  da  sepultura  ainda  amigos  dedicados, 
que  tinham  lagrimas  para  prantear  um  infeliz,  com- 
memoram-lhe  as  glorias  e  o  infortúnio,  uma  des- 
graça sem  nome. 

Nós,  em  homenagem  á  amizade  que  nos  ligou 
áquelle  grande  e  respeitável  desgraçado,  aqui,  n'es- 
tas  poucas  linhas,  como  desabafo  a  uma  lacerante 
angustia,  lhe  consagramos  um  tributo  á  sua  memo- 


Correspondência  epistolar  i53 

ria,   e   são   ellas   as   saudades  que  depomos  sobre 

sua  campa. 

J.  A.  d'Ornella.s. 

(O  Direito). 


VIKIRA  DE  CASTRO 

O  vapor  Cambridge^  chegado  dos  portos  d' Afri- 
ca, trouxe-nos  uma  triste  noticia. 

Vieira  de  Castro  morreu ! 

Vieira  de  Castro  que  ainda  hontem  dominava, 
com  a  sua  esplendorosa  eloquência,  o  parlamento 
portuguez;  Vieira  de  Castro,  esse  filho  dilecto  das 
idéas  ingentes  e  sublimes  do  porvir,  cujo  nome 
voou,  ainda  ha  pouco,  de  bocca  em  bocca  como  um 
hymno  d'amor  social ;  Vieira  de  Castro  que,  ébrio 
de  amor  e  de  esperança,  trouxe  das  terras  ameri- 
canas a  mulher  que  devia  enlutar-lhe  o  viver,  ar- 
chanjo  formosíssimo  que  elle  sonhou  em  horas  de 
longo  meditar ;  Vieira  de  Castro  já  não  existe  ! . . . 

Quantas  vezes,  por  sob  o  céo  tristuroso  do  exí- 
lio, elle,  o  liberal  convicto,  elle,  o  patriota  fogoso, 
mas  sincero,  quantas  vezes,  repetimos,  não  recor- 
daria, com  pungitiva  saudade,  o  paiz  que  lhe  foi 
berço,  o  paiz  que  admirou  o  génio  fulgurante  do 
seu  talento ! 

Quantas  vezes,  com  os  olhos  fitos  no  céo  afri- 
cano, não  sentiria  elle  bater-lhe  o  coração,  que  re- 
pousava dentro  de  tão  pequeno  âmbito ! 

Que  poemas  deslumbrantes,  lindos  de  profun- 
díssima tristeza,  não  estariam  gravados  na  retina 
da  sua  riquíssima  imaginação ! 


i54  Correspondência  epistolar 

E  Vieira  de  Castro,  a  victima  do  crudelissimo 
destino,  morreu,  tombou  como  roble  gigante,  pe- 
dindo, talvez,  ao  Senhor  dos  mundos  por  aquella, 
que  lhe  roubou  as  paisagens  esplendidas  do  seu 
paiz,  do  seu  Portugal,  do  seu  berço  querido ! 

Eil-o,  no  verdor  da  mocidade,  quando  os  pul- 
mões deviam  aspirar  o  ar  embalsamado  da  sua  pá- 
tria, quando  o  mundo  lhe  devia  sorrir  através  o 
prisma  da  ventura,  eil-o. . .  hontem  proscripto,  hoje 
no  pó  das  sepulturas. 

Nas  azas  dulcíssimas,  nós,  como  liberaes,  como 
admiradores  do  teu  talento  e  condoídos  também  da 
desgraça,  que  te  anciou  em  quanto  vivo,  nós,  re- 
petimos, te  enviamos  uma  saudade,  um  dolorosís- 
simo adeus ! 

Possa  a  tua  alma  encontrar,  na  mansão  celestial, 
o  premio  que  Deus  concede  aos  caracteres  genero- 
sos como  o  teu ! 

(O  Liberal). 


NOTAS 


AO 


VOLUME  PRIMEIRO 


É-me  aprazível  colligir  n'este  livro  a  glo- 
riosa estimação  com  que  foi  recebido  o  livro 
do  snr.  António  Manoel  Lopes  Vieira  de  Cas- 
tro. O  melindre  d^aquelle  escripto  ameaçava 
êxito  perigoso.  Fazia-se  mister  talento,  ver- 
dade incontroversa,  grande  prudência,  e  hon- 
ra muito  afouta  para  que  ninguém  pozesse  a 
ponta  de  um  dedo  sujo  n'essas  candidíssimas 
paginas.  Triumphou  o  império  da  probidade 
sobre  as  paixões  ruins.  A  biographia  de  Viei- 
ra de  Castro  estabeleceu  simultaneamente  a 
honra  dos  dous  irmãos  que  se  adoravam. 

Transcrevo  as  mais  distinctas  apreciações 
que  appareceram  nos  periódicos. 


NOTA  1.^ 


BIBLIOGRAPHIA 

yosé  Cardoso  Vieira  de  Castro^  antes  e  depois  do  seu  jul- 
gamento^ por  seu  irmão  António  Manuel  Lopes  Vieira  de 
Castro  —  Porto,  1871. 

E'  tarde  talvez  para  fallar  d'uma  publicação  que  tirava 
o  seu  principal  interesse  d'um  successo  que,  como  todas  as 
cousas  d'este  mundo,  veio  a  ser  esquecido  com  facilidade 
igual  á  avidez  e  sobresalto  com  que  ha  nove  mezes  eram 
indagados  e  repetidos  os  seus  mais  insignificantes  porme- 
nores. 

Que  haya  um  cadáver  mas,  que  importa  ai  mundo  } 

Mas  como  eu  não  venho  com  mão  iconoclasta  vasculhar 
cinzas  d'um  tumulo  que  se  cerrou  para  sempre  sobre  a  ju- 
ventude e  a  belleza,  nem  revolver  feridas  d'onde  cahe  con- 
tinuamente, indo  confnndir-se  com  o  pó  e  tornar-se  pó 
como  elle,  a  alegria,  a  esperança,  õ  futuro  d 'uma  existên- 
cia fadada  para  essas  mesmas  cousas  doces  e  risonhas,  que 
perdeu  para  sempre ;  quer  parecer-me  que  ainda  será  tem- 
po de  citar,  com  o  respeito  que  nos  devem  merecer  todos 
os  intuitos  generosos  e  todas  as  acções  elevadas,  a  piedade 
eloquente  e  o  persuasivo  amor  com  que  o  snr.  António 


i6o  Correspondmcia  epistolar 

Vieira  de  Castro,  n'um  opúsculo  sympathico  por  todas  as 
razões,  faz  a  defeza  de  seu  irmão.  Vê-se  por  ella  que  é  car- 
ne da  mesma  carne,  sangue  do  mesmo  sangue,  tanto  o  des- 
ditoso réo  como  o  angustiado  defensor. 

Para  a  rehabilitaçao  moral  do  primeiro,  ha  de  talvez  ser 
considerada  inútil  esta  voz  que  se  ergue  poderosa,  e  toda 
vibrante  de  sentimentos  affectuosos,  para  cobrir  com  o  seu 
misericordioso  carinho  a  honra  e  o  caracter  d'um  homem 
para  quem  o  tribunal  mais  foi  calvário  expiatório  que  pe- 
lourinho infamante.  Foi  proferida  essa  rehabilitaçao  pelo 
jury,  pela  imprensa,  pela  opinião,  e  lavrada  está  solemne- 
mente  por  essas  três  grandes  forças,  reconhecidas  e  acata- 
das nas  sociedades  modernas,  que  a  ellas  devem  todos  os 
progressos  do  espirito  e  da  consciência  humana.  Mas  ainda 
que  por  outro  lado  se  não  recommendasse,  o  opúsculo  do 
snr.  António  Vieira  de  Castro  tem  o  mérito  de  revelar  in- 
cidentes e  episódios  da  vida  de  seu  irmão  que  se  estavam 
conhecidos  dos  amigos  d'este,  eram  completamente  ignora- 
dos do  publico  em  geral 

Mostra-nos  principalmente  a  primeira  parte  do  opúsculo 
o  académico,  espirito  levantado,  coração  sensivel,  alma 
aberta  a  todos  os  sentimentos  generosos  e  a  todos  os  en- 
thusiasmos  legitimos,  imaginação  meridional,  talento  de 
orador,  e  sobre  tudo  criança  imprudente,  d'essa  imprudên- 
cia que  tem  gerado  os  heroísmos  e  as  dedicações  loucas 
que  fazem  iranzir  a  sobrancelha  aos  egoístas,  mas  que 
obrigam  os  astros  a  sorrir.  São  igualmente  narrados  n'esta 
primeira  parte  do  opúsculo  os  triumphos  alcançados  na 
tribuna  portugueza  pelo  académico,  então  já  deputado; 
mais  tarde,  as  honras  obtidas  no  Brazil,  onde  pôz  a  sua  pa- 
lavra eloquente  e  apaixonada  ao  serviço  da  caridade  e  da 
beneficência ;  depois  do  seu  casamento,  a  viagem  que  fez 
aos  Estados-Unidos,  em  cujas  instituições  e  em  cujos  cos- 
tumes deu  a  beber  ao  seu  espirito,  educado  nas  praticas 
constitucionaes  da  velha  Europa,  o  fecundo  leite  do  pro- 
gresso e  da  liberdade  americana  (sirva  para  exemplo  o 
opúsculo  que  depois  publicou  em  Portugal  com  o  titulo  de 


Correspondência  epistolar  i6i 

Republica) ;  na  volta  a  este  reino,  os  seus  últimos  esforços 
e  as  suas  ultimas  luctas  para  volver  á  carreira  parlamentar, 
depois  de  vêr  mallogrado  o  intento  de  passar  novamente 
ao  Brazil,  onde  queria  ir  advogar. 

Tudo  isto  é  contado  precipitadamente,  febrilmente,  mais 
como  quem  falia  de  que  como  quem  está  escrevendo ;  em 
todas  as  paginas,  por  baixo  da  febre  e  precipitação  de  es- 
tylo  com  que  estão  escriptas,  se  sente  um  coração  túmido, 
como  os  troncos  onde  o  maio  faz  subir  a  seiva,  de  sentimen- 
tos acrisolados  por  uma  desgraça  irreparável. 

A  segunda  parte  é  essencialmente  consagrada  a  refutar 
vários  pontos  da  accusação  tanto  particular  como  do  minis- 
tério publico.  Ahi  a  dor,  o  sentimento  fraternal  fica  afoga- 
do nos  Ímpetos  da  replica  c  na  vehemencia  dos  argumentos. 
Tem,  porém,  tão  persuasivo  tom  de  sinceridade  o  que  é  di- 
to e  affirmado  n'essa  segunda  parte  do  opúsculo,  quasi  sem- 
pre apoiado  pelo  testemunho  authorisado  de  pessoas  res- 
peitáveis, que  não  ha  lugar  para  suspeitar  de  infidelidades 
criminosas  a  paixão  que  pôde  agitar  aquellas  paginas. 

Não  esperem  de  mim  uma  apreciação  litteraria  do  snr. 
António  Vieira  de  Castro.  Seria  mal  escolhida  a  occasião 
para  discorrer  sobre  as  purezas  ou  impurezas  da  sua  lin- 
guagem, sobre  as  boas  ou  más  qualidades  do  seu  estylo. 
Notarei  simplesmente  que  ha  annos  publicou  elle  uma  tra- 
ducção  da  Família^  de  Paulo  Janet,  que  se  recommenda 
pela  intelligencia  com  que  está  feita,  não  lhe  faltando  ele- 
gâncias de  estylo,  apreciáveis  n'um  escriptor,  quanto  mais 
n'um  simples  curioso,  e  por  um  pequeno  prologo  muito 
bem  pensado  e  sentido. 

Santos  Nazareth. 


Hontem  mesmo  chegou  do  Porto  e  já  se  acha  á  venda 
em  todas  as  lojas,  um  pequeno  livro  que  tem  por  titulo  — 
José  Cardoso  Vieira  de  Castro^  e  que  é  escripto  por  seu  ir- 
mão António.  Segue-se  n'esse  livro  a  vida  de  Vieira  de 

VOL.  U  II 


102  Correspondência  epistolar 

Castro,  passo  a  passo ;  luctas,  gloria,  grandezas,  e  desgraça. 
Está  escripto  com  verdade,  que  é  a  melhor  defeza,  e  com 
affecto,  que  é  o  melhor  talento.  Separa  os  dous  irmãos  um 
intervallo  de  annos ;  o  mais  velho  é  mais  louro :  o  mais  no- 
vo é  mais  alto;  não  se  parecem  até,  talvez,  no  rosto — mas 
sente-se  que  vive  uma  só  alma  n'aquelles  dous  corpos.  E* 
como  que  uma  pessoa  em  dous  invólucros.  A  conformida- 
de moral  é  tão  forte  que  chega  a  fazer  esquecer  as  desse- 
melhanças physicas.  De  uma  vez,  na  prisão,  conversando, 
succedeu-me  como  que  confundil-os,  e  continuar  com  um 
a  conversação  que  principiara  com  o  outro.  Era  como  se 
cousa  alguma  me  indicasse  que  mudava  de  interlocutor. 
Dos  dous  irmãos  o  que  se  achava  mais  perto  de  mim  seguia 
a  idéa  desde  o  ponto  em  que  o  outro  a  deixara,  sem  a  mí- 
nima hesitação.  Em  todo  este  tempo  de  infortúnio,  o  triste 
irmão  tem-se  dedicado  a  Vieira  de  Castro  com  um  carinho 
sublime,  e  este  livro  em  que  se  honra  o  nome  e  a  vida 
d'aquelle  infeliz  moço  é  uma  nova  prova  da  nobreza  de 
affecto  de  seu  irmão. 

J.  César  Machado. 


PUBLICAÇÃO 

Anda  já  nas  mãos  de  muitos  um  opúsculo  ultimamente 
publicado  e  que  tem  por  titulo  José  Cardoso  Vieira  de 
Castro  antes  e  depois  do  seu  julgamento^  por  seu  irmão  An- 
tónio Manoel  Lopes  Vieira  de  Castro. 

O  interesse  que  ainda  move  e  moverá  sempre  a  grande 
e  lamentosa  catastrophe  a  que  anda  associado  esse  nome, 
que  em  varias  circumstancias  se  tinha  tornado  tão  illustre- 
mente  notável,  justifica  a  attenção  que  já  uma  parte  do 
publico  presta  ao  escripto  que  mencionamos. 

E'  elle  com  efFeito  digno  de  leitura,  porque  dictado  pe- 
los mais  nobres  sentimentos  e  escripto  com  a  insinuante 


Correspondência  epistolar  i63 

singeleza  que  só  dá  a  verdadeira  convicção,  expõe  em  toda 
a  sua  luz  um  caracter  que  tudo  leva  a  crer  generoso,  mas 
que  uma  funestíssima  aberração  pôde  entenebrecer. 

E'  esse  o  fim  d'esta  publicação,  como  se  evidenceia  da 
sua  leitura  e  como  diz  o  irmão  do  infeliz  encarcerado,  o 
snr.  António  Manoel  Lopes  Vieira  de  Castro  nas  seguintes 
linhas  da  advertência  que  precede  o  seu  trabalho : 

«A  primeira  parte  d'este  opúsculo  estava  destinada  á 
publicação  antes  do  julgamento  que  teve  lugar  nos  dias  29, 
30  e  31  de  novembro.  Sendo,  porém  mostrada  ao  snr.  Viei- 
ra de  Castro,  obstou  elle  tenazmente  á  realisação  dos  nos- 
sos desejos  dizendo,  que  por  modo  nenhum  consentiria 
que  fosse  prevenido  o  animo  de  seus  juizes. 

«Devo  confessar  que  me  parecia  indispensável  subtrahir 
á  pressão  de  uma  opinião  pouco  justa  um  homem,  cuja  pu- 
reza de  sentimentos  tão  profundamente,  eu  conhecia.  Não 
foi  sem  violência  que  cedi. 

«Em  compensação,  permitta-nos  o  leitor,  agora,  que  a 
sociedade  proclamou  o  seu  veredictum,  que  nós  digamos  a 
verdade  com  todo  o  desassombro,  e  que  nos  não  prendam 
falsas  considerações  de  modéstia,  porque  falíamos  de  um 
irmão. 

«Desde  que  o  destino  nos  flagellou  com  tão  grande  in- 
fortúnio, e  logo  depois  que  as  interpretações  tão  variadas 
como  erróneas  conquistaram  uma  direcção  falsa  á  opinião, 
foi  sempre  nosso  propósito  esclarecer  o  publico  a  seu  tem- 
po, com  as  nossas  palavras,  que  seriam  a  expressão  fide- 
líssima da  verdade. 

«Assim,  pois,  vimos  rogar  a  attenção  publica  para  os  fa- 
ctos que  passamos  a  narrar,  bem  como  para  as  breves  con- 
siderações que  nos  suggerem  as  duas  accussições  que  no 
tribunal  foram  feitas  a  um  homem,  que  se  preza  de  ter 
empenhado  sempre  todos  seus  recursos  em  demonstrar 
que  era  bom  filho,  bom  irmão,  óptimo  marido  e  grande  ci- 
dadão. 

«Apparecemos,  pois,  perante  o  publico  em  nome  de  dous 


164  Correspondência  epistolar 

sacratíssimos  princípios,  da  verdade  e  da  honra  de  uma 
família.» 

Santo  e  louvável  móbil,  que  nós  veneramos  e  que  a  opi- 
nião publica  do  paiz,  a  quem  é  dedicado  o  opúsculo,  não 
deixará  de  acatar. 

M. 

(Commercio  do  Porto). 


BIBLIOGRAPHIA 

O  snr.  António  Manoel  Lopes  Vieira  de  Castro  acaba  de 
publicar  um  opúsculo  que  tem  por  objecto  relatar  alguns 
dos  factos  mais  notáveis  da  vida  de  seu  irmão,  c  rebater  as 
calumnias  que  se  levantaram  pela  occasião  da  enorme  des- 
graça, que  arrojou  o  snr.  José  Cardoso  Vieira  de  Castro  ás 
cadêas  do  Limoeiro. 

Essa  publicação  honra  a  intelligencia  e  o  coração  do  au- 
thor,  cuja  nobreza  d 'alma  se  revela  em  cada  uma  das  pa- 
ginas que  a  amizade  traçou  sob  os  estos  do  mais  vivo  en- 
thusiasmo  fraternal. 

Se  fosse  possível  desligar  Vieira  de  Castro  da  horrível 
tragedia  da  rua  das  Flores,  appareceria,  depois  dos  factos 
narrados  por  seu  irmão,  a  sua  notável  personalidade  illu- 
minada  pelo  mais  esplendido  clarão  das  sympathias  publi- 
cas. 

Ao  correr-se  o  véo  que  encobriu  as  delicadezas  d'aquel- 
le  coração,  o  levantado  d'aquella  alma,  o  enthusiasmo  d'a- 
quelle  espirito  em  que  referviam  em  cachão  as  mais  nobres 
paixões,  a  justiça  individual  recua  absorta,  sem  força  para 
condemnar,  e  as  lagrimas  borbulham  dos  olhos  presencian- 
do o  eclipse  d'um  talento  predestinado,  d'uma  alma  eleva- 
da que  se  sumiram  nos  abysmos  do  infortúnio. 

Agora  que  a  justiça  dos  homens  pronunciou  a  sua  sen- 
tença, que  a  sociedade  tomou  o  seu  desforço,  apparecem 


Correspondência  epistolar  i65 

as  palavras  d'um  irmão,  não  a  implorar  piedade  ou  miseri- 
córdia, mas  •  a  rebater  o  infame  reptil  da  calumnia :  não  a 
apresentar  attenuantes,  mas  a  salvar  do  naufrágio  a  honra 
d'um  desgraçado,  que  espíritos  mal  intencionados  tentaram 
envolver  nas  ruinas  da  fatal  catastrophe. 

Ao  findar  tão  notável  trabalho  o  leitor  defronta  com  um 
Vieira  de  Castro  totalmente  differente  d'aquelle  que  a  opi- 
nião publica  phantasiára  a  seu  grado,  e  insensivelmente 
presta  homenagem  ao  author  que,  sem  se  apartar  da  ver- 
dade, soube  ser  escriptor  correcto,  advogado  eximio  e  ir- 
mão incomparável,  e  que,  esquecendo  a  hombridade  que 
ostentara  n'um  dolorosíssimo  transe,  deixou  fallar  o  seu 
coração,  e  pondo  mão  delicada  em  feridas  ainda  gotejando 
sangue,  a  ninguém  molestou  ou  offendeu.  O  defensor  con- 
quistou assim  metade  das  sympathias,  que  ninguém  depois 
da  leitura. de  tão  brilhante  trabalho  negará  a  José  Cardoso 
Vieira  de  Castro,  embora  condemne  o  modo  por  que  elle 
vingou  a  sua  honra  ultrajada. 

[Progresso  Conimercial). 


Tem  sido  muito  procurada  a  Biographia  do  snr.  Vieira 
de  Castro  escripta  por  seu  irmão  António.  São  geraes  os 
louvores  de  toda  a  imprensa  das  províncias  a  este  opúscu- 
lo ;  interessante,  pelo  que  narra  da  vida  académica^  parla- 
mentar, das  viagens^  das  publicações^  luctas  de  tribuna^  e 
actos  de  beneficência  feitos  com  a  palavra  do  biographa- 
do  ;  e  convincente,  pelos  documentos  authenticos  e  valio- 
sos que  publica.  O  preço,  que  é  baratíssimo,  concorre  com 
tudo  o  mais  para  que  o  snr.  António  Vieira  de  Castro  veja 
a  sua  obra  já  em  tão  pouco  tempo  quasi  por  toda  a  parte 
espalhada,  e,  sem  divergências,  bem  aceite  e  premiada.  E' 
notável  em  obra  portugueza,  e  onde  eram  tantas  as  amar- 
guras do  author,  a  delicadeza  e  fina  urbanidade  que  se  não 
desmentem  nunca!  Por  tudo  isto  ten^sido  muito  felicitada 


i66  Correspondência  epistolar 

o  snr.  Vieira  de  Castro,  e  terá  a  maior  satisfação  de  ver 
em  pouco  a  sua  edição  esgotada.  Assim  o  cremos  pelas  in- 
formações que  temos  da  venda  considerável  feita  já  nas  li- 
vrarias do  Porto  e  Lisboa. 


LIVRO  IMPORTANTE 

E'  o  intitulado  jfosé  Cardoso  Vieira  de  Castro^  antes  e 
depois  do  seu  julgamento^  por  seu  irmão  António  Manoel 
Lopes  Vieira  de  Castro.  Lemos  com  avidez  este  livro,  que 
é  uma  completa  desaffronta  de  uma  victima  illustre  atroz- 
mente calumniada  no  seu  infortúnio  —  Vieira  dd  Castro^ 
o  martyr  da  loucura  da  honra^  como  em  phrase  sublime  e 
eloquente  o  chamou  o  seu  erudito  patrono,  e  nosso  amigo, 
o  dr.  Jayme  Constantino  de  Freitas  Moniz. 

O  livro  que  temos  presente  não  é  simplesmente  a  expres- 
são eloquente  da  dor  do  amor  fraterno  :  é  mais  —  é  a  luz 
que  irradia  por  sobre  o  lúgubre  quadro  de  uma  honra  ma- 
culada pelo  infortúnio  e  pela  calumnia  atroz ;  é  a  repara- 
ção solemne  á  desdita  sem  par  de  um  génio  brioso  que  pen- 
sou, no  seu  delirio  vingar  no  sangue  a  honra  de  esposo, 
que  lhe  fora  ultrajada. 

Dizia  a  calumnia  que  Vieira  de  Castro  era  ambicioso,  e 
o  livro  que  temos  presente  prova-lhe  uma  abnegação  sem 
rival ;  que  era  perdulário,  e  o  livro  confunde  esse  aleive ; 
que  desbaratara  o  património  de  sua  esposa,  e  o  livro  faz 
desapparecer  essa  falsidade  ;  que  se  apossara  das  prendas 
de  sua  consorte,  e  o  livro  prova  que  o  desditoso  martyr 
as  apresentou,  não  só  as  que  trouxe  do  Brazil,  como  as  que 
comprou  na  sua  viagem  para  Portugal,  e  as  que  cá  com- 
prrou  ;  a  calumnia  accusa  de  dissoluto  a  Vieira  de  Castro, 
e  o  livro  prova  que  este  grande  martyr  da  sua  própria 
honra  sô  vivia  para  a  esposa  e  para  a  familia ! 

Tardia,  mas  completa  é  a  reparação  que  constitue  o  no- 
tável livro  J^osé  (Cardoso  Vieira  de  Castro^  antes  e  depois 
do  seu  julgamento.  Os  menos  benévolos  têm  n'este  livro  as 


Correspondência  epistolar  j6y 

provas  da  injustiça  com  que  julgaram  o  homem  brioso,  o 
talento  esplendido,  que  hoje  jaz  entre  ferros  —  nas  medo- 
nhas trevas,  onde  o  infeliz  tem  em  vida  a  sua  nobre  alma 
sepultada ! 

«Abençoado  o  esforço  do  amor  fraternal»  como  bem 
diz  um  nosso  coUega  do  Viriato^  dando  a  noticia  do  livro 
que  temos  presente,  «que  assim  recoUocaste  o  idolo  da  fa- 
mília no  altar  que  lhe  pertence.» 

Este  livro  foi,  pois,  o  bálsamo  puro  generosamente  der- 
ramado por  sobre  um  coração  golpeado,  pelos  mais  inexo- 
ráveis que  condemnavam  a  victima  da  honra  Vieira  de 
Castro  sem  o  ouvirem,  sem  commiseração  para  com  um 
desgraçndo,  que  tantas  lagrimas  causa  aos  homens  pundo- 
norosos. 

«O  livro,))  escreveu  ha  pouco  um  companheiro  de  prisão 
de  José  Cardoso  Vieira  de  Castro,  e  amigo  particular  do 
Jiosso  primeiro  romancista,  Camillo  Castello  Branco,  «d*on- 
de  a  verdade  resalta  a  cada  periodo,  escripta  em  lingua- 
gem a  um  tempo  castigada  e  fácil ;  o  censo  de  boa  lógica 
e  razão  tucidissima  com  que  faz  derivar  até  de  todo  escla- 
recer as  suas  proposições ;  a  eloquência  fácil  mas  apaixo- 
nada que  persuade  e  commove  ;  a  intenção,  ás  vezes  amar- 
ga, mas  sempre  digna;  a  explosão  do  sentimento,  emfim,  tudo 
revela,  a  par  de  um  vigoroso  espirito,  um  coração  dedica- 
do. Este  livro  é  o  ultimo  golpe  descarregado  sobre  as  ac- 
•cusações  contra  um  moço,  que  tão  mal  julgado  e  tão  mal 
comprehendido  foi.» 

Bem  haja  o  amor  fraterno,  subHme  e  inspirado  que  pode- 
rosamente desaffrontou  o  desditoso  que  esmagado  pela 
dor  como  que  lhe  falleceu  o  verbo  eloquente  para  defen- 
der-se. 

O  snr.  António  Manoel  Lopes  Vieira  de  Castro  tem  re- 
cebido, dizem  os  nossos  collegas  da  capital,  pelo  seu  tra- 
balho as  mais  honrosas  felicitações  dos  nossos  mais  distin- 
ctos  escriptores  —  especialmente  o  snr.  visconde  de  Cas- 
tilho, que  dirigiu  pelo  mesmo  motivo  ao  snr.  Lopes  Vieira 
de  Castro  uma  sentida  e  eloquentíssima  carta. 


i68  Correspondência  epistolar 

E*  merecedor  de  taes  honras  o  snr.  Lopes  Vieira  de  Cas^ 
tro. — No  seu  primoroso  trabalho  enlaça  s.  ex.*  com  o  amor 
fraterno  a  justiça  e  a  verdade^  põe  ao  conhecimento  de 
todos  a  honrada  vida  academiea  e  politica,  a  caridade  do- 
desventurado  talento  que  triumphantemente  desaffron- 
tou,  de  cuja  vida  escreveu  sentidas  e  honrosissimas  pagi- 
nas. 

O  nosso  respeito  ao  grande  infortúnio  do  desditoso  José 
Cardoso  Vieira  de  Castro ;  as  nossas  felicitações  a  seu  di« 
gno  irmão  o  snr,  António  Manuel  Lopes  Vieira  de  Castro^ 
pelo  seu  notável  opúsculo.  Juntamos  os  nossos  agradeci- 
mentos*pela  offerta  do  exemplar  que  se  dignou  enviar-nos. 

João  Augusto  d'Ornellas. 

{Direito). 


O  snr.  Henrique  da  Cunha,  moço  provinciano  de  bas- 
tante merecimento,  acaba  de  escrever  um  livro  de  considera- 
ções philosophicas,  acerca  do  julgamento  do  snr.  José  Car- 
doso Vieira  de  Castro. 

Tào  franca  é  a  opinião  do  snr.  Cunha  acerca  das  tristes 
occorrencias,  a  origem  d'aquelle  julgamento,  que  termina 
o  seu  escripto  com  as  seguintes  palavras:  «Em  Vieira  de 
Castro  não  ha  delido,  nem  instinctos  ferozes ;  ha  o  pundo- 
nor, o  nome,  a  gloria,  a  gloria  offendida.  Ha  uma  dòr  que 
mata  e  uma  agonia  que  se  sente  e  não  se  explica.» 

O  folheto  revela  talento  e  sobre  tudo  espirito  pensador 
e  dado  a  investigar  a  verdade.  A  propósito  d'este  assum- 
pto direi  que  o  livro  Vieira  de  Castro,  antes  e  depois  do 
seti  julgamento^  escripto  pelo  snr.  António  Vieira  de  Cas- 
tro tem  tido  procura  digna  da  elevação  e  primor  com  que 
está  escripto. 

Esperava-sc  talvez  um  escândalo,  a  condemnação  vio- 
lenta de  todo  o  julgamento  e  encontrou-se  a  biographia  do 
condemnado,  com  os  melhores  annos  da  sua  vida,  as  suas 
alegrias,  os  triumphos,   as  suas  boas  qualidades,  as  suas 


Correspondência  epistolar  i6g 

loucuras  de  criança,  as  suas  luctas  de  homem,  tudo  escri- 
pto  com  o  fogo  da  mais  decidida  amizade,  e  por  um  irmão 
que  valeu  para  o  condemnado  a  melhor  das  mães. 

{Primeiro  de  Janeiro). 


Appareceu  á  venda  em  Lisboa  o  opuseulo  intitulado 
José  Cardoso  Vieira  de  Castro.,  antes  e  depois  do  seu  jul- 
gamento. E'  escripto  por  seu  irmão  com  toda  a  elegância 
de  um  verdadeiro  escriptor  e  com  o  desassombro  e  a  recti- 
dão de  espirito  de  um  homem  de  honra  e  de  caracter.  Tem> 
sido  muito  procurado  e  muito  lido. 

(Correspondência  de  Lisboa  para.  o  Progresso  do  Porto). 


NOTA  2.' 


Convencionou-se  que  um  certo  musculo  que  nós  temos, 
como  qualquer  outro  animal,  servisse  para  designar  os  gran- 
des levantamentos  da  paixão  e  da  honra. 

O  musculo,  em  verdade,  não  passa  de  ser  um  órgão  oco 
e  contractil ;  mas  o  pundonor  e  os  doces  sentimentos  é  que 
ainda  não  estão  esburacados  de  todo. 

Entendem  alguns  caturras  que  abrir  o  coração  a  um  raio 
d'amor, —  verdadeira  aurora  da  felicidade  e  do  extasis, — 
e  receber  em  vez  d'esse  clarão  vernal,  um  enxurro  de  pe- 
çonha e  de  lodo,  não  é  cousa  para  estimular  sorrisos ;  nem 
se  lavam  taes  manchas  com  agua  de  flor  de  laranja,  como 
se  podem  lavar  as  faces  de  um  beliz. 

D'aqui  resulta  que  em  organisações  de  uma  sensibilidade 
melindrosa  o  estremecimento  é  mais  vivo ;  e  não  admira 
que  caiam  mortas  algumas  flores  quando  a  tempestade  do 
desespero  e  da  angustia  açouta  as  arvores  e  os  homens. 

Foi  isto,  em  meu  entender,  que  suscitou  a  composição  de 
Camillo  Castello  Branco  —  O  Condemnado^ —  drama  em 
que  fallo  não  para  bulir  sacrilegamente  em  nenhum  tumu- 
lo, nem  para  remexer  estupidamente  em  nenhuma  chaga, 
porém  que  devo  memorar  com  acatamento,  não  só  como 
trabalho  de  arte,  mas  também  como  resposta  audaciosa  á 
medonha  interrogação  que  a  fatalidade  pôde  levantar  so- 
bre um  leito. 


Correspondência  epistolar  iji 

Não  quero  prender-me  no  laço  de  applicações  mais  ou 
menos  directas;  aquillo  para  mim  é  uma  these,  uma  propo- 
sição, um  enunciado,  em  fim,  que  cada  qual  pôde  defender 
ou  contradictar  segundo  a  noção  que  tenha  do  justo  ou  do 
injusto. 

Ha  um  homem  que  entrega  o  nome,  a  honra,  o  amor,  o 
futuro,  a  tranquilidade,  a  bemaventurança  nas  mãos  de 
quem  elle  julga  que  será  sacrário  e  baluarte,  nas  mãos  que 
elle  beija,  convencido  que  ellas  terão  pureza  sempre  para 
não  manchar  o  thesouro,  vigor  constante  para  o  manter  e 
sustentar  bem  alto.  O  my  fair  warriorl  é  a  exclamação 
pitoresca  com  que  estes  crédulos  do  bem  depõe  o  seu  mun- 
do no  regaço  inaccessivel  das  esposas. 

Subitamente,  os  sonhos  de  roaa  dissipam-se,  os  nevoeiros 
sagrados  rarefazem-se ;  ha  o  acordar  aos  empuxões  de  um 
phantasma.  Relanceiam-se  os  olhos  em  torno,  e  vê-se  par- 
tido, mutilado,  apodrecido,  desfeito,  todo  esse  ninho  onde 
cresciam  os  filhos,  e  que  a  plena  confiança  enchia  de  res- 
peito e  de  amor. 

O  aturdimento  chega.  Cerram-se  os  olhos,  mas  vê-se  tu- 
do através  das  pálpebras.  Caminha-se,  mas  os  joelhos  ver- 
gam. Tenta-so  fugir  ao  montão  das  ruinas  infames,  mas  tro- 
peça-se  e  cahe-se.  N'essa  queda  pôde  encontrar-se  um  ca- 
dáver. Não  o  defendo;  lamento-o.  Quem  pôde  assignalar 
raias  ás  temerosas  explosões  de  uma  alma  em  labaredas } 
Quem  pôde  marcar  limites  ao  raio  ?  Impossível. 

Nem  todas  as  chammas  lavram  de  igual  modo. 

Ha  o  fogo  a  que  se  aquecem  os  pés  e  ha  o  incêndio  que 
devora  Roma. 

Deus  me  livre  de  contemplar  com  a  serenidade  glacial  de 
um  Nero  a  enorme  scintillação  que  se  diffunde,  que  ruge, 
que  desmorona  e  que  devasta;  mas  oxalá  que  não  se  apaguem 
do  mundo  os  derradeiros  vestígios  d'esse  melindre  austero, 
d'essa  nobreza  impaciente,  d'esse  calor  que  affronta,  d'essa 
religião  que  constitue  a  familia,  d'esse  culto  celebrado  no 
lar,  d'essa  castidade  sublime  e  pathetica,  d'essa  devoção 
piedosa  em  que  ella, —  a  mulher  —  levita  immaculado,  le- 


1^2  Correspondência  epistolar 

vanta  sobre  os  filhos  a  benção  materna,  sem  que  a  cons- 
ciência lhe  possa  chamar  indigna. 

O  Condefnnado  appareceu  em  beneficio  da  actriz  Gertru- 
des, precedido  da  grande  reputação  do  auctor,  e  talvez,  um 
poucochinho  mais,  da  gravidade  do  assumpto.  Fraquezas 
humanas,  a  que  não  escapa  nem  o  paiz  das  barbas  de  D. 
João  de  Castro ! 

A  principio  a  indecisão  manietou  o  publico.  Depois  con- 
venceram-se  todos  que  aquelle  tribunal  não  era  do  crime, 
que  se  não  julgavam  alli  os  factos  pelo  Código  penal^  e  ap- 
plaudiram  a  eloquência,  o  vigor,  o  brilho,  a  incisão  de  mais 
de  uma  pagina,  onde  o  ouro  do  estylo  reflecte  dolorosa- 
mente as  nuvens  de  uma  inspiração  melancólica. 

E.  A.  Vidal. 

{Diário  Popular  de  22  de  janeiro  de  1871). 


NOTA  3.* 


CARTAS  LISBONENSES 

Lisboa^  II  de  maio  de  i8yo 

Não  me  recordo  em  toda  a  minha  carreira  de  haver  tido 
que  escrever  um  folhetim  em  circumstancias  tão  penosas  e 
debaixo  de  impressões  tão  profundamente  tristes,  como  ho- 
je. Esse  desgraçudo  moço,  esmagado  a  esta  hora  pela  dor 
do  seu  infortúnio  e  pela  fatalidade  da  sorte,  preso,  abando- 
nado, inconsolável,  perdido,  era  meu  amigo  desde  os  pri- 
meiros annos  da  nossa  mocidade. 

Temperamento  ardente,  caracter  inquieto  e  febril,  denun- 
ciara muitas  vezes,  logo  ao  entrar  da  vida,  a  violência  das 
suas  paixões  e  o  enthusiasmo  exaltado  d'ellas.  Magoas  de 
coração,  ambições  quebradas,  feridas  do  orgulho,  esperan- 
ças illudidas,  fortuna  exhausta,  crenças  mortas,  íiguravam- 
se-lhe  ser  doenças  da  alma  a  que  não  era  dado  resistir,  e 
não  podia  tolerar  os  miseráveis  que  se  sujeitavam  a  ir  viven- 
do cada  um  com  o  seu  mal ! 

Em  todo  o  tempo  de  estudante  na  Universidade  de  Coim- 
bra, por  mais  de  uma  vez  a  vehemencia  do  seu  génio  acor- 
dou o  echo  de  acontecimentos  ruidosos.  Ao  mesmo  tempo 
em  tentativas  litterarias  e  em  ensaios  de  polemica,  a  sua  pen- 
na  audaz  atacava  de  frente  um  ou  outro,  e  os  prejuízos  que 
isso  causava  no  amor  próprio  de  alguns,  ou  a  estranheza 


i']4  CoiTespondencia  epistola)' 

que  produzia  n'outros,  habituados  a  não  poupaV  ninguém, 
o  vêr  que  os  não  poupava  a  elles,  ganharam-lhe  inimigos 
logo  na  idade  em  que  de  ordinário  apenas  se  encontram 
affeições  ou  indifferenças. 

Mas,  quando  elle  apparecia,  quando  fallava,  quando  es- 
cutava os  outros  com  a  benevolência  graciosa  do  talento 
verdadeiro,  apagava-se  logo  a  lembrança  das  suas  orações 
incendiarias,  dos  seus  discursos  violentos,  e  da  attitude  au 
daciosa  em  que  as  imaginações  o  haviam  sempre  desenha- 
do, para  não  vêr  n'elle  senão  um  moço  intelligente,  bem 
educado,  affectuoso,  franco  e  agradável,  gostando  de  rir  e 
de  vêr  rir,  estimando  tudo  que  é  grande,  a  honra,  o  talen- 
to, a  coragem,  a  dedicação,  ou  o  martyrio. 

E  então,  quando  por  essas  occasiões  vinha  a  Lisboa,  era 
uma  festa  permanente  para  elle  e  para  os  seus  amigos. 
Queria  tudo  quanto  é  doce  e  formoso,  flores,  musica,  con- 
vivência agradável,  jantares  alegres,  passeios  ao  campo, 
passeios  no  Tejo.  .  . 

A  pouco  e  pouco,  mas  sem  precisar  de  muito  tempo 
para  isso,  aquelle  espirito  fogoso  e  crente  foi  perdendo 
amargamente  as  illusões.  Sonhara  tudo  risonho  e  encanta- 
dor, e  a  vida  principiou  a  deixar-lhe  erguer  o  véo  das  cou- 
sas e  molhar  os  dedos  nas  lagrimas  d'ellas. 

Recuou,  coitado,  recuou  um  momento,  estonteado  do 
que  ia  sabendo,  mais  por  pena  dos  outros  do  que  por  susto 
de  si  próprio  Dotado  de  uma  sensibilidade  extrema,  sofTria 
pelo  espectáculo  dos  infortúnios  alheios,  tomava  a  peito  a 
causa  dos  tristes,  e  tornava  suas  as  dores  dos  que  estimava. 

A  vida  surgiu-lhe  então  pelo  lado  negro  e  pungente  dos 
destinos,  e  n'um  livro  que  escreveu  em  6i  —  Camillo  Cos- 
tello  Branco^  noticia  da  sua  vida  e  obras,  encontram-se  ás 
vezes  como  que  prcsentimentos,  imagens  lúgubres  de  quem 
receia  desgraça,  o  avistar  da  nuvem  ao  longe  com  a  idéa 
vaga  de  que  c  para  nós  que  ella  vem  pesada  e  negra.  . . 
Phrases  que  nem  o  assumpto  nem  a  occasião  pareciam  pe- 
dir, e  que  envolvem  a  melancolia  de  um  persagio .  .  . 

N'esse  livro,  que  estive  folheando  esta  noite,  diz  elle: 


Correspondência  epistolar  ijS 

«Ser  poeta  é  sentir;  sentir  o  infinito  das  paixões  volca- 
nicas  sem  lhe  esconder  o  fogo  ardente.  Ser  poeta  é  adivi- 
nhar aquelle  verso  do  girondino : 

L art  ne  fait  que  des  vers,  le  cceur  seul  est  poete. 

*> 

«Ser  poeta  é  amar  de  um  amor  impossivel  para  as  ima- 
ginações inspiradas  que  não  adivinharam  morte  prematura 
nas  lagrimas  da  mulher  que  foi  anjo.  Ser  poeta  é  prelibar 
na  historia  dos  tristes  da  humanidade  o  condão  desgraça- 
do de  conceber  o  amor  immenso,  para  depois  colher  espi- 
nhos na  semente  regada  de  prantos  á  luz  de  horóscopo 
maligno.  E'  medir  n'um  relance  de  vista  a  immensidade 
do  infinito,  e  cahir  logo,  com»  águia  fulminada  ao  fitar  o 
sol  nos  topes  da  serra,  nos  boqueirões  de  lodo  do  mundo 
positivo.» 

Não  o  deixava,  de  momento  a  momento,  em  todo  esse 
livro  curiosíssimo,  a  preoccupação  de  desgraças,  e  se  eram 
inevitáveis  ou  não,  e  se  tinha  cada  qual  de  cumprir  o  seu 
fado,  e  se  não  era  bello  ir  até  á  extremidade  em  todos  os 
sentimentos,  e  se  não  é  aviltante  e  inútil  o  querer  outrem 
consolar-nos  na  dor: 

«Não  sei  de  nada  mais  repulsante  que  esta  medicina  de 
commiseração  insultuosa,  com  que  almas  de  zinco,  inca- 
pazes de  se  elevarem  nunca  ao  fastígio  de  um  martyrio 
nobre,  mandam  calar  a  dôr  no  espirito  de  quem  soífre  ao 
pé  d'elles. 

«Este  modo  de  consolar  é  tolo  e  mau ;  tolo  porque  vem 
de  creatura  que  não  sentiu,  nem  sentirá  jamais  o  coração 
pela  agonia,  mau,  porque  exacerba  a  ferida  vertendo-lhe 
fel  no  sangue  que  ella  escorre.  A  insinuada  coragem  pôde 
mesmo  ser  uma  affronta  quando  a  consciência  do  que  sof- 
fre  vê  entre  si  e  a  terra  firme  os  oito  palmos  de  um  sepul- 
chro  aberto  que  é  impossivel  vencer.  Morre  duas  vezes  o 
naufrago  que  expira  com  os  olhos  na  praia.» 

A  politica,  por  uns  tempos,  encheu-o  de  vida.  Era  um 
orador  imaginoso,  que  sem  lisongear  ninguém,  sem  lison- 


1^6  Correspondência  epistolar 

gear  sequer  o  mais  fácil  dos  crédulos — o  povo,  encantava 
pela  elaboração  brilhante  das  idéas  e  pela  seducçào  da  sua 
palavra  eloquente. 

Todavia,  não  sei  dizer-lhes  como,  não  sei  dizer- lhes 
porque,  elle  próprio  o  não  sabe  talvez,  perdeu  tudo  e  prin- 
cipiou a  desmoronar  o  castello  que  erguera.  Caracter  fu- 
gaz, e  sempre  um  pouco  louco,  parecia  ter  gosto  ás  vezes 
em  vêr  desabar  o  edifício  da  sua  felicidade  e  da  sua  glo- 
ria. Não  era  resultado  do  acaso  nem  carência  de  habilida- 
de, era  falta  de  paciência,  phrenesi  nervoso,  estonteamen- 
to  febril.  Homem  que  tiver  animo  de  tomar  uma  attitude 
e  conservar- se  assim  até  ao  cahir  do  pano,  representar  um 
papel  e  leval-o  ao  fim,  ha  de  sempre  encontrar  idolatras  na 
turba  dos  superficiaes  e  dostnyopes;  mas  elle  ao  contrario, 
sacrificava  tudo  á  individualidade,  não  por  vêr  n'isso  um 
principio  d'acção,  uma  lei  não  só  physica  mas  moral,  senão 
pela  impaciência  das  aspirações  e  pelo  ardor  juvenil  de  se 
estremar  dos  grupos. 

Foi  ao  Brazil  no  propósito  de  vender  uma  edição  gran- 
de, qae  publicara,  dos  seus  discursos;  chegou  lá,  sósinho 
com  os  seus  livros :  fizeram-lhe  festas,  deram-lhe  bailes,  e 
elle  offereceu  o  producto  dos  livros  aos  asylos. 

Casou.  Foi  viajar  com  a  noiva,  ficaram  uns  tempos  na 
America  ingleza,  e  ha  dous  annos  vieram  para  Lisboa.  Não 
me  demorarei  a  fallar-lhes  d'essa  infeliz  senhora,  cuja  mor- 
te encheu  toda  a  gente  de  terror  quando  hontem  de  tarde 
se  espalhou  a  noticia,  logo  que  Vieira  de  Castro  foi  entre- 
gar-se  á  justiça. 

Febrilmente  louco  em  muitos  dos  actos  da  sua  vida  po- 
litica e  litteraria,  foi-o  ainda  infelizmente  n'es&e  lance  da 
vida  privada.  Os  jornaes  de  hoje  contam  todos  os  porme- 
nores d'esta  desgraça.  Só  não  contam,  e  quem  poderá  con- 
tal-as.?  —  as  horríveis  agonias  d'aquelle  dia  de  segunda  fei- 
ra em  que  elle  se  conservou  junto  da  alcova  onde  estava  a 
morta,  —  captivo  n'aquella  casa  luxuosa  e  elegante,  em  que 
havia  sido  feliz ;  vendo  passar  as  horas  em  sobresaltos, 
abandonado  de  todas  as  esperanças ;  sem  utn  raio  da  fé 


Correspondência  epistolar  ijj 

que  se  conserva  até  á  ultima  no  coração  dos  desesperados; 
olhando  para  os  objectos  outr'ora  queridos  que  o  cerca- 
vam, o  piano  em  que  ella  tocava,  a  carteira  onde  o  chama- 
vam de  manhã  as  idéas  da  véspera,  o  relógio  que  regulara 
os  momentos  da  sua  ventura,  e  não  passava  agora  de  uma 
machina  a  bater  no  vago,  podendo  parar,  adiantar-se  ou 
atrazar-se,  sem  que  a  elle  lhe  importasse  o  tempo,  por  já 
não  ter  tempo  seu ;  e,  ao  lado  da  morte,  assistindo  á  sua 
própria  vida  como  ao  espectáculo  da  maior  catastrophe!... 


JuLio  César  Machado. 


VOL.  W  *^ 


NOTA  4 


Transcrevo  um  folhetim,  que  eu  fiz  publicar,  com 
a  precedência  de  algumas  linhas.  Transluz  n*esse 
escripto  o  desaproveitado  engenho  de  Pedro  dos 
Reis,  irmão  de  uma  illustre  titular,  que  eu  me  abs- 
tenho de  nomear  receoso  de  lhe  embaçar  o  esplen- 
dor da  coroa. 

A  GERMANO  VIEIRA  DE  MEIRELLES 

Meu  amigo. 

O  diário  que  v.  exc.^  tão  enérgica  e  lucidamente  dirige 
tem  sido  entre  nós  todos  o  mais  condoído  da  desventura 
do  meu  amigo  José  Cardoso  Vieira  de  Castro.  Tem  v.  exc* 
levado  ao  coração  d'aquelle  infeliz  alentos  e  consolações. 
Por  cada  palavra  compassiva  que  v.  exc*  tem  escripto  em 
favor  de  Vieira  de  Castro  lhe  vai  a  minha  alma,  também 
agradecida,  pedir  que  enthesoure  no  seu  espirito  os  júbi- 
los de  uma  acção  nobilíssima.  Quando  o  condemnado  vol- 
tar da  Africa,  se  Deus  lhe  não  fechar  alli  o  prazo  do  seu 
supplicio,  V.  exc*  e  elle  saldarão  as  suas  contas  com  la- 
grimas. 

Hoje  recebi  um  escripto  que  offereço  a  v.  exc*  O  signa- 
tário d'elle  é  um  moço  que  tem  de  contar  algumas  prima- 
veras no  cárcere,  onde  a  estrella  sinistra  da  sua  vida  lhe 
dá  luz  immensa  para  vêr  o  passado,  e  lhe  negreja  o  futuro 


Correspondência  epistolar 


n9 


para  que  a  esperança  da  felicidade  o  não  possa  tirar  ás 
presas  da  existência  funesta  que  vive.  Ha  quinze  annos  o 
conheci  no  Porto,  criança  feliz  e  amada  de  seus  pães.  De- 
pois o  vi  estrear-se  esperançosamente  na  carreira  das  le- 
tras. Hoje  lhe  enflora  e  enfrutece  o  talento,  apesar  d'aquel- 
les  frios  da  desgraça  que  gelam  o  cérebro,  e  encostam  ao 
peito  a  pedra  glacial  da  campa,  cujo  peso  está  sentindo  em 
Tida.  Mas  não  esfriou  o  coração  do  moço.  A  portentosa 
hombridade  de  Vieira  de  Castro  foi-lhe  exemplo,  coragem 
■e  incentivo.  Ninguém  tem  direito  a  chamar-se  desgraçado 
ao  pé  do  meu  amigo,  de  cuja  alma,  despedaçada  por  tanto 
golpe,  resta  invulnerável  a  honra.  No  insinuante,  singelo,  e 
por  vezes  commovente  escripto,  que  lhe  envio,  ha  uma  tão 
lagrimosa  quanto  notável  pagina  da  vida  de  José  Cardoso 
Vieira  de  Castro.  Queira  v.  exc.^  augmentar  o  numero  das 
jninhas  obrigações,  publicando-a. 

De  V.  exc.^ 

amigo  e  collega 

Camillo  Castello  Branco. 


VIEIRA  DE  CASTRO 


(a  propósito  da  sua  biographia) 

Fez-se  finalmente  a  luz  ! 

Vieira  de  Castro,  condemnado  no  tribunal  de  primeira 
instancia  a  dez  annos  de  degredo  para  as  costas  d'Africa, 
pôde  amanhã  seguir  a  sua  triste  viagem  convicto   do  res 
peito,  do  pezar,  da  saudade,  da  sympathia  de  todos  pelo  seu 
caracter  e  pelo  seu  infortuuio. 

Desde  esse  dia  tremendo,  em  que  elle  sacrificou  no  altar 
da  honra  o  seu  amor,  as  suas  esperanças  de  gloria,  o  seu 
passado  brilhante  e  o  seu  futuro  mais  brilhante  ainda  ;  des- 
de esse  dia  em  que  este  infeliz  sem  nome  abriu  pelas  pró- 
prias mãos  a  porta  do  cárcere,  onde  o  criminoso  cheio  de 
virtudes  se  sepultava  com  a  sua  dor  e  a  sua  tristeza  éter- 


i8o  Correspondência  epistolar 

nas ;  desde  esse  dia  até  outro  não  menos  nefasto,  nem  um 
só  decorreu,  que,  ao  escoar-se  vagarosamente  pelas  grades 
do  cárcere,  lhe  não  gotejasse  no  coração  o  travo  de  uma 
nova  e  grande  dôr. 

Repetiram-se  sem  intercedencia  os  golpes  de  desvaira- 
dos e  impiedosos.  A  ignorância  e  a  malvadez  mancommu- 
navam-se  officiosamente  para  cuspirem  n'aquelle  sacratis- 
simo  infortúnio  o  fel  das  suas  perfídias  e  das  suas  atroci- 
dades. Á  calumnia  gratuita  succedia  a  calumnia  assalaria- 
da. A  impudência  vil,  o  cynismo  abjecto  e  a  torpeza  asque- 
rosa retouçavam-se  como  feras  saciadas,  em  tripudiar  in- 
fernal sobre  a  desgraça  de  um  grande  nome. 

Primeiro  a  apostrophe  virulenta.  Depois,  quando  amea- 
çava aclarar  a  razão  e  transparecer  a  realidade  eloquente 
dos  factos,  deturpavam-se  estes.  Se  isto  não  bastava,  o  gé- 
nio fecundo  do  mal  para  logo  inventava  novos  horrores. 

Os  amigos,  os  conhecidos  ou  aíTeiçoados,  que  não  viviam 
na  intimidade  d'elle,  hesitavam  suspensos  entre  uma  inter- 
rogação e  talvez  uma  duvida.  Assim  o  confessaram  al- 
guns. 

Os  indifferentes  davam  aos  aleives  a  coafirmaçào  terrí- 
vel do  silencio,  e  a  voz  dos  poucos  dedicados  mal  podia 
contra  a  onda  dos  impropérios,  que  alagava  por  mil  duetos 
mysteriosos. 

A  calumnia  ganhava  forças  e  proporções  gigantescas. 
Liberta  na  impunidade,  que  lhe  facultava  o  desprezo,  teve 
tempo  de  sobra  para  crescer  e  elevar  o  echo  abominável  da 
sua  voz.  Respirava  em  todos  os  antros ;  convinham-lhe  to- 
das as  armas ;  disfarçava-se  de  mil  modos;  fallava  por  mil 
boccas.  Decorreu  assim  muito  tempo.  Mas  eis  chega  um 
dia  em  que  todos  esses  rumores  vão  soterrrar-se  a  não  sei 
que  mysteriosos  abysmos,  a  fim  talvez  de  que  seus  echos 
não  possam  suífofcar  a  desejada  realisação  de  tão  pérfidos 
intentos.  Annuncia-se  o  julgamento  de  Vieira  de  Castro. 

A  nova  corre  em  toda  a  psrte.  A  sala  da  audiência,  o 
átrio  e  as  escadas  do  tribunal  não  bastam  a  conter  a  onda 
impetuosa  das  multidões,  curiosas  de  vêr  na  desgraça  o 


Correspondência  epistolar  i8j 

tribuno  que  ainda  hontem  as  inflamava  ao  fogo  da  sua  elo- 
quência arrebatada. 

Tomam  lugar  os  juizes,  e  vae  entrar  o  accusado :  á  porta 
assoma  um  vulto,  mas  em  vez  do  moço  audaz  que  se  es- 
pera é  um  velho  que  apparece.  Um  velho  amortalhado  no 
Seu  luto  eterno,  branqueada  a  barba  e  oscabellos  no  encerro 
de  muitos  dias  e  noites,  e  o  olhar  envidraçado  ao  perpas- 
sar continuo  da  desgraça.  Caminha  sem  arrogância,  mas 
com  firmeza,  com  coragem,  com  serenidade,  illuminada  a 
fronte  por  essa  formosa  luz  cujos  raios  se  prendem  de  certo 
ao  reo,  e  que  é  a  aureola  de  todos  os  martyres  da  fé  e  da 
honra. . . 

Foi  longo,  foi  muito  doloroso  aquelle  supplicio.  Eu  não 
sei  de  espectáculo  que  mais  tenha  de  magestoso,  de  lace- 
rante e  de  triste.  No  cemitério,  á  beira  de  um  tumulo,  po- 
dem chorar-se  pungentes  lagrimas  pelo  amigo  que  passou, 
mas  aquellas  são  mais  acerbas  e  com  mais  angustias  por- 
que é  um  amigo  que  se  vê  matar. 

Quizera  correr  um  véo  sobre  o  quadro  que  me  aviva  an- 
gustias passadas. 

Também  eu  lá  estive, 

D'esse  banco,  que  para  elle  se  converteu  em  pedestal  de 
virtudes,  sahi  eu  infamado. 

Lá  fugiram,  e  se  me  desfizeram  como  a  um  sopro  de 
morte  todas  as  alegrias  e  todas  as  illusões  da  mocidade.  O 
pouco  que  me  restava  de  repetidos  naufrágios  lá  se  afun- 
dou. Foi  lá  que  me  trocaram  pela  luz  benéfica  da  liberda- 
de a  escuridão  cerrada  de  setecentos  dias  e  noites  n'um 
cárcere  infecto  e  frio. 

N*este  cárcere  entrou  Vieira  de  Castro  um  dia. 

Eu  conhecia-o  apenas  pela  fama  dos  triumphos  e  não 
menos  pela  das  virtudes,  que  são  morgado  inalienável  na 
familia  d'elle. 

Da  ultima  vez  que  o  vira  nenhum  de  nós  presentia  ain- 
da a  imminencia  do  abysmo,  que  mais  ao  diante  se  nos  es- 
tava cavando.  Era  no  caminho  de  ferro  de  Setúbal  ao  Bar- 
reiro, e  d' aqui  para  Lisboa.  Vieira  de  Castro  vinha  acom- 


j82  Correspondência  epistolar 

panhado  dos  amigos,  que  mais  tarde  lhe  deviam  ser  con- 
fidentes no  drama  tenebroso.  Pareceu-me  triste.  Estranhos 
destinos  ! .  .  .  Elle  corria  descuidoso  a  abrir  o  tumulo  de 
toda  a  sua  ventura  para  se  sepultar  com  ella ;  eu,  sem  que 
ainda  o  soubesse,  vinha  assistir  ao  trespasse  de  um  morto 
querido,  e  tinha,  depois  de  lhe  cerrar  os  olhos,  de  me  en- 
carcerar também. 

Assim  deviam  approximar-se  e  conhecer-se  dentro  das 
paredes  de  um  careere  os  dous  viajeiros  de  então ! 

São  já  volvidos  nove  mezes,  sete  dos  quaes  tenho  vivido 
na  sua  intimidade. 

Do  que  n'essa  alma  ha  de  bom,  de  grande  e  genero- 
so nada  me  é  occulto.  Ao  acercar-me  d'elle  pela  primeira 
vez  attrahia-me  apenas  o  seu  infortúnio,  mas  para  logo  me 
senti  enlevado  no  seu  grande  espirito  e  coração  nobilíssimo. 
N'essas  longas  noites  em  que  os  primeiros  clarões  da  al- 
vorada nos  vinham  surprehender,  passeando  ao  longo  de 
uma  enfermaria  lúgubre  e  triste,  muitas  vezes  intentei  fazer- 
Ihe  ouvir  uma  palavra  de  consolação  ;  não  pude.  Deus  sabe 
que  não  pude.  Os  grandes  infelizes  podem  comprehender- 
se,  mas  não  se  consolam.  Amparam-se  apenas,  e  cho- 
ram. 

Depois,  no  seu  coração,  tão  golpeado  pelo  infortúnio, 
parece  ter  posto  a  Providencia  porção  de  triaga  igual  á 
do  veneno.  «Agradeço  a  Deus,  dizia  elle,  a  desgraça  que 
me  deixou  bom.  No  meu  peito  não  ha  lugar  para  ódios.  Eu 
sei  que  a  verdade  se  fará.  .  .  creio  na  outra  vida,  e  vejo-a 
a  ella^  purificada  no  seio  de  Deus,  a  sorrir- me  da  sua  bem- 
aventurança  eterna.  .  .  *  Vieira  de  Castro  esquece  as  pró- 
prias dores  ao  attentar  nas  alheias.  Na  sua  bolsa,  hoje  min- 
goada,  ha  sempre  a  moeda  da  caridade.  Entristece-se,  quan- 
do ella  não  basta  a  enxugar  as  lagrimas  dos  infelizes.  Um 
facto,  cuja  veracidade  todos  podem  attestar,  dá  a  medida 
exacta  de  tão  nobre  alma. 

Era  já  nas  proximidades  d'essa  para  elle  memoranda 
data  de  28  de  novembro,  e  aconteceu  enfermar  perigosa- 
mente de  um  tvpho,  moléstia  vulgar  e  quasi  sempre  fatal  aqui 


Correspondência  epistolar  j83 

um  preso  condemnado  a  sêl-o  sempre,  e  que  devia  ao  seu 
porte,  pautado  pela  mais  estricta  submissão  e  cordura,  um 
diminuto  salário  como  guarda-roupa  das  enfermarias.  Ao 
saber  de  tal.  Vieira  de  Castro  corre  junto  ao  catre  do 
pobre;  passa  junto  d'elle  a  primeira  noite;  reveza-se  nas 
outras  com  os  que  o  acompanhavam  ;  tira  ao  seu  leito  uma 
das  duas  travesseiras  que  lá  tinha;  faz  com  ella  por  suas 
mãos  cabeceira  ao  enfermo;  soccorre-o  com  o  seu  óbulo  e 
com  o  desvelado  carinho  de  um  amigo,  abandonando-o  só 
quando  elle,  já  livre  de  perigo  e  convalescente,  lhe  quer 
testemunhar  com  lagrimas  a  sua  gratidão  ! 

Assim  fazia  elle  em  quanto  lá  fora  o  apodavam  de  impio, 
atheu,  e  não  sei  que  mais. 

Ha  no  decurso  da  minha  prisão  uma  noite,  cuja  memoria 
jamais  se  riscará  do  meu  espirito. 

Essa  noite  é  a  de  30  de  novembro  do  anno  que  passou. 
No  animo  de  todos  creio  também  estarem  ainda  bem  pre- 
sentes, com  a  sua  cor  sinistra,  as  tocantes  scenas  d'esse 
triste  drama. 

A  sentença,  que  condemnava  a  dez  annos  de  degredo 
Vieira  de  Castro,  fora  firmada  e  lida  pelo  juiz  entre  soluços 
e  lagrimas,  e  essas  lagrimas  significavam  um  pezar  e  uma 
homenagem. 

O  accusado  estava  já  restituído  ao  coração  de  todos, 
que  tinham  escutado  a  defeza  única  do  athleta  contra  uma 
accusaçào  de  cuja  lógica  se  poderia  dizer  sem  offensa,  mas 
com  verdade,  o  mesmo  que  da  dialéctica  infeliz  de  Aristo- 
les  disse  algures  o  visconde  de  Chateaubriand. 

A  absolvição,  entregue  ao  conselho  e  ao  veredictum  da 
multidão,  que  interrompera  o  estreno  defensor  de  Vieira 
de  Castro  com  as  suas  repetidas  e  calorosas  acclamações, 
seria  infallivelmente  completa.  D'esse  defensor,  cujo  talen- 
to nos  é  sobejamente  conhecido  e  que  tão  arrebatado  é  nos 
altos  voos  da  sua  eloquência  como  nos  do  coração,  teem 
feito  o  elogio  quantos  lhe  pronunciam  o  nome. 

Bem  feliz  foi  no  seu  um  moço,  que  ahi  começa  a  ser  jus- 


184  Correspondência  epistolar 

tamente  applaudido,  quando  o  compara  ao  prototypo  de 
toda  a  heroicidade  possivel  na  terra:  «a  mài  que  viesse  a 
cobrir  e  defender  seu  filho.* 

Nem  tanto  era  preciso  para  que  essas  accusações  fugis- 
sem a  esconder-se  envergonhadas  da  sua  audácia.  Afora 
isto,  tudo  era  grande  alli. 

Mas  o  homem  que  as  turbas  já  agora  sabiam  digno,  ge- 
neroso e  bom,  —  esse  homem  levantava-se,  ao  cabo  de  três 
dias  de  martyrio,  para  agradecer  e  aceitar  com  voz  clara  e 
firme  uma  sentença  de  dez  annos  de  degredo  ! . . . 

O  vulto  sympathico,  que  desde  a  mocidade  honrara  a 
pátria  com  os  seus  feitos,  dentro  e  fora  d'ella;  o  coração 
generoso  que  se  desentranhava  no  pào  do  corpo  e  do  espi- 
rito para  quantos  infelizes  se  lhe  abeiravam ;  o  esposo  que 
só  um  momento  deixara  de  ser  bom  para  ser  respeitado,  e 
para  que  respeitada  fosse  uma  memoria;  o  que  mandara  á 
sua  palavra  que  emmudecesse,  e  quebrara  a  sua  penna,  e 
cavara  com  a  fúria  do  mais  infernal  desespero  á  beira  da 
sua  felicidade,  sem  que  esse  ruir  tremendo  lhe  levasse  a  du- 
vida ou  o  susto  sequer  ao  coração ;  o  qae  despedaçara  tudo, 
tudo  dera,  ou  tudo  perdera,  para  conservar  a  honra,  esse 
recebia,  em  premio  de  tudo,  dez  annos  de  degredo  ! .  .  . 

A  longanimidade  de  tão  nobre  alma  foi  justamente  admi- 
rada no  tribunal ;  mas  não  o  será  menos  o  que  vou  referir, 
pensando  que  alguém  se  demoraria  a  meditar  nas  negruras 
de  seu  espirito  ao  voltar  .sem  esperanças,  com  o  terrivel 
nunca  mais  diante  de  si,  com  as  maiores  agonias  que  podem 
caber  em  peito  de  homem,  a  apunhalal-o  e  a  confrangel-o 
a  um  tempo  em  todas  as  fibras  da  sua  alma  alanceada. 

A's  seis  horas  da  tarde  tinham  vindo  dizer-me  o  que  lo- 
gicamente podia  esperar-se  em  resultado  da  audiência,  e 
que  era  o  mesmo  que  o  snr.  António  Rodrigues  Sampaio, 
enunciava  no  seu  notável  artigo  do  jornal  do  dia  seguinte. 

Não  sei  porque,  enganou-me  o  coração  d'aquella  vez  com 
falsas  esperanças. 

Eu  sentia-me  alquebrado  de  corpo  e  de  espirito.  As  ulti- 


Correspondência  epistolar  i85 

mas  noites  tinham-se  passado  como  tantas  outras  sempre 
de  pé.  Deitei-me  sobre  um  catre  da  enfermaria.  Era  meia 
noite. 

O  jantar  d'elle,  que  chegara  ás  cinco  horas,  e  a  que  eu 
esperava  acompanhal-o,  senão  com  alegria,  ao  menos  com 
quietação,  arrefecera  de  todo  sobre  as  cinzas  de  um  fogo 
já  de  ha  muito  extincto.  Èu  sentia-me  possuido  de  torpor 
e  ia  talvez  adormecer,  quando  um  rumor  de  passos  preci- 
pitados junto  a  tropel  de  cavallos  me  despertou.  Era  a  es- 
colta que  retirava  de  o  acompanhar,  e  ao  mesmo  tempo 
entrava  elle  na  enfermaria  Levantei-me  n'um  Ímpeto,  e 
correndo  a  segural-o  com  phrenesi : 

—  Então  } !  então  }  lhe  disse. 

—  Dez  annos  de  degredo,  respondeu  elle  a  sorrir. 

—  Isso  é  impossivel,  diga-me  que  é  impossível !. .. 

—  E'  a  verdade.  Dez  annos  de  degredo  para  as  costas 
d'Africa. 

Houve  um  momento  de  silencio.  Não  sei  dizer  o  que  se 
passava  em  mim.  Elle  acudiu  logo : 

—  Vamos  jantar,  meu  amigo.  Tenho  fome.  Ha  muitas 
horas  que  não  como. 

Sentamo-nos  á  mesa,  e  serviu-me,  e  fallou-me  todo  o 
tempo  que  durou  o  jantar  com  uma  serenidade  que  me 
aterrava.  No  fim  vi-o  esconder  a  cabeça  entre  as  mãos  e 
exclamar  n'um  rir  soluçado  e  nervoso :  «Tem  graça  !...  tem 
«graça!...  o  que  eu  era  no  dia  7  de  maio  quando  julgava 
«poder  passar  o  dia  de  hoje  contente  e  feliz  na  minha  casi- 
«nha  da  Foz,  e  agora. . .» 

Deteve-se  por  momentos,  e  levantando -se  a  accender  o 
charuto,  que  mordia  convulsivamente  como  para  afogar  a 
torrente  de  lagrimas  prestes  a  romper,  —  acrescentou: 
«Mas  bem...  foi  melhor  assim.  Sabem  todos  o  que  eu  fui, 
«e  o  que  sou.  Sabem  que  fui  bom,  e  bom  fiquei  e  honra- 
<do.  .  .  Aquelle  Jayme  l . .  .> 

Interrompeu-se  de  novo,  e  tomando-me  pelo  braço,  con- 
vidou-me  como  de  costume  a  dar  algumas  voltas  na  enfer- 
maria. Andamos  assim  bastante  tempo  sem  que  trocasse- 


i86  Correspondência  epislolar 

mos  uma  palavra.  Eu  recuava  aterrado  diante  de  tamanha 
dôr  e  da  inutilidade  da  minha  palavra  perante  ella.  Lem- 
brava-me  que  a  razão  lhe  podesse  fugir ;  mas  bem  depressa 
os  meus  receios  se  dissiparam,  e  eu  me  convenci  de  quão 
rija  era  a  tempera  d'aquelle  espirito  tão  digno  de  melhores 
luctas. 

Vieira  de  Castro  pára  de  repente,  e  defrontando  com- 
migo,  segurando-me  pelos  braços,  e  com  os  olhos  cravados 
nos  meus: 

«Meu  amigo,  disse,  estamos  sós,  ninguém  nos  ouve,  e  a 
comedia  seria  ridícula  e  impossível  comsigo.  Juro-lhe  pela 
minha  vida  e  pela  minha  honra  que  eu  seria  mil  vezes  mais 
desgraçado  ao  vêr-me  agora  em  liberdade  sem  o  peso  d 'esta 
expiação,  que  eu  devo  talvez  a  Deus,  e  a  ella ;  a  ella,  sim, 
em  cuja  memoria  eu  já  agora  posso  demorar  o  meu  espi- 
rito sem  recear  a  vertigem  da  loucura ! » 

Parece-me  ainda  ouvir-lhe  essas  sublimes  palavras,  que 
nunca  jamais,  como  tantas  que  então  lhe  ouvi,  esquecerei. 

Depois  do  salutar  desabafo,  a  sua  ph;ysionomia  retomou 
pouco  e  pouco  a  habitual  expressão  de  serena  tristeza. 

«Hoje,  disse,  por  ultimo,  sou  eu  a  propor  que  nos  dei- 
temos. Já  posso  dormir.» 

Deitou-se  no  seu  leito  junto  a  um  outro  de  operações,  e 
bem  depressa  adormeceu  com  a  mesma  placidez  e  o  mes- 
mo suave  remanso  da  criança,  que  cerrou  o  olhar  enleva- 
da n'um  sorriso  da  mài. 

Ao  vêl-o  assim,  ninguém  diria  ser  elle  o  infeliz  sobre 
cuja  cabeça  ainda  ha  pouco  se  descarregara  um  golpe  ter- 
rível. Lembro-me  que  chorei  então,  e  senti  vontade  de  pe- 
dir a  Deus  para  nunca  mais  o  acordar  d'aquelle  somno. 

Resta-me  fazer  uma  declaração  e  concluir. 

Quando  tomei  da  penna  para  relatar  o  que  ahi  fica,  ti- 
nha acabado  de  volver  a  ultima  pagina  de  um  livro  que 
a  imprensa  e  o  publico  acolheram  com  alvoroço. — Esse 
livro  é  devido  á  penna  do  snr.  António  Manoel  Lopes 
Vieira  de  Castro  —  um  esboço  traçado  com  mão  rápida, 


Correspondência  epistolar  iSj 

mas  firme  sobre  o  que  respeita  ao  nome  de  seu  desditoso 
irmão  antes  e  depois  do  seu  julgamento. 

O  snr.  António  Vieira  de  Castro  era  apenas  conhecido 
nas  letras  por  uma  feliz  traducção  do  livro  de  Paulo  Janet : 
A  família^  trabalho  que  lhe  merecera  as  mais  benévolas 
cxpresiões  da  parte  do  snr.  Luiz  Augusto  RebcUo  da  Silva, 
no  seu  parecer  como  membro  da  junta  consultiva  de  ins- 
trucção  publica,  e  ainda  uma  carta  do  snr.  Ramalho  Orti- 
gão, afora  as  edições  successivas. 

O  snr.  Vieira  de  Castro  provou  n'esse  trabalho,  e  muito 
mais  n'este  que  hoje  nos  apresenta,  os  sobejos  cabedaes 
que  possue  para  conquistar  lugar  distincto  nas  letras. 

O  seu  livro,  d'onde  a  verdade  resalta  a  cada  periodo^ 
escripto  em  linguagem  a  um  tempo  castigada  e  fácil ;  o 
senso  de  boa  lógica  e  razão  lucidissima  com  que  faz  deri- 
var até  de  todo  esclarecer  as  suas  proposições  ;  a  eloquên- 
cia fácil  mas  apaixonada  que  persuade  e  commove ;  a  in- 
tensào,  ás  vezes  amarga,  mas  sempre  digna  ;  a  explosão  do 
sentimento,  em  fim,  tudo  revelia,  a  par  de  um  vigoroso 
espirito,  um  coração  dedicado.  Este  livro  é  o  ultimo  golpe 
descarregado  sobre  as  accusações  contra  um  moço,  que  tão 
mal  julgado  e  tão  mal  comprehendido  foi. 

Hoje  fez-se  a  luz.  Todos  os  dias  apparecem  ou  se  an- 
nunciam  na  imprensa  novos  brados  em  pró  da  justiça  e  da 
verdade,  e  como  que  para  que  nada  faltasse  aos  enérgicos 
protestos,  é  ^inda  nos  theatros,  perante  o  publico  das  duas 
cidades,  que  elíes  se  mostram  mais  ruidosos  ao  applaudir 
com  transporte  a  composição  dramática,  a  mais  feliz,  a 
mais  completa  e  a  ihais  inspirada  que  nós  devemos  á  penna 
do  nosso  mais  fecundo  escriptor. 

A  tão  grande  clamor  julguei  dever  quebrar  também  o 
silencio,  que  a  mim  próprio  impuzera.  Este  escripto,  que 
não  veria  a  luz  da  publicidade,  adivinhado  por  quem  o  ins- 
pirou, esconde  apenas  uma  intenção  e  uma  lagrima .    . 

Cadêa  de  Lisboa,  i8  de  dezembro  de  1870. 

Pedro  dos  Reis. 
{Primeiro  de  Janeiro). 


NOTA  5. 


Albino  d'01iveira  Guimarães,  commerciante  no 
Rio  de  Janeiro,  tem  no  livro,  intitulado  José  Car- 
doso Vieira  de  Castro  uma  pagina  reveladora  de 
benigno  coração  e  respeito  á  honrosa  desventura 
do  seu  amigo.  António  Vieira  de  Castro  refere 
assim  o  lance,  que  arrancou  maviosas  lagrimas  a 
seu  irmão  : 

«Em  14  de  julho  de  1870,  recebi  uma  carta  do  Rio  de 
Janeiro,  do  snr.  Albino  d'01iveira  Guimarães,  com  data  de 
22  de  junho,  que  tem  o  seguinte  período :  «Espero  mere- 
cer-lhe  a  bondade  de  fazer  com  que  seu  irmão,  precisando 
de  dinheiro,  m'o  communique  por  sua  intervenção,  para 
promptamente  lh'o  enviar^  pondo  desde  já  á  sua  disposição 
um  pequeno  saldo  de  35o|k)00  rs.  que  tenho  em  Lisboa, 
em  poder  do  snr  Joaquim  Pedro  de  Macedo,  travessa  da 
Assumpção  n.**  42  —  2.°  andar,  a  quem  escrevo  n  este  sen- 
tido. Isto,  que  faço  agora,  sei  que  elle  o  praticaria  comigo, 
se  o  destino  me  arrojasse  onde  o  impelliu  a  elle.  A  sua 
amizade  me  relevará  do  que  possa  haver  de  inconveniente 
n'este  modo  de  offerecer.  » 

<  O  snr.  Vieira  de  Castro  acceitou  com  toda  a  effusào  de 
reconhecimento  esta  grande  demonstração  d'uma  nobre  e 
grande  alma ;  mas  pediu  ao  snr.  Pedro  de  Macedo  que  não 


Correspondência  epistolar  18 g 

instasse  com  elle  para  lhe  não  tirar  o  seu  único  amparo,  a 
sua  pobreza.  Não  aceitou.  » 

Esse  honrado  nome  é  também  o  primeiro  nas 
assignaturas  do  documento  que  transcrevo,  o  mais 
honrador  que  ainda  tive  na  minha  longa  vida.  Vai 
precedido  das  amorosas  expressões  com  que  me  no- 
bilitou o  snr.  Germano  Vieira  de  Meirclles  : 

Penna  de  ouro.  —  Um  punhado  de  amigos  honrados  e 
lealissimos  de  Vieira  de  Castro  acaba  de  brindar  com  uma 
penna  de  ouro  cravejada  de  brilhantes  a  Camillo  Castello 
Branco. 

E'  uma  dupla  homenagem  ao  talento  e  ao  formoso  cora- 
ção do  já  agora  heróico  e  legendário  amigo  dos  grandes 
infelizes 

Não  nos  admira,  aceitamol-a  até  como  um  facto  natura- 
líssimo, depois  do  que  succedeu  com  o  snr.  Jayme  Moniz, 
defensor  do  nobre  degredado,  sepulto  na  chã  encalmada 
d'um  cemitério  d'Africa. 

A  offerta  veio  acompanhada  d'uma  nobilíssima  carta, 
cujos  sentimentos  delicados  e  enthusiastas  pelo  cavalheiro 
generoso  e. destemido,  que  affrontou  pela  honra  e  desgraça 
do  amigo  as  prevenções  e  más  vontades  de  uma  opinião 
apaixonada  e  fremente  de  cólera,  valem  tanto  e  mais  que 
as  fulgurações  e  relumbramentos  do  ouro  e  das  pedras 
preciosas. 

Estes  exemplos  devem  sempre  ser  festejados  e  bem  vin- 
dos, como  outros  tantos  fascículos  ou  golfadas  de  luz  na 
pardacenta  bruma  de  egoísmo  que  ahi  nos  soífoca. 

As  cousas  preciosas  não  se  fizeram  só  para  realçar  ou 
dissimular  a  fealdade  moral,  para  enfeitar  e  illuminar  a  va- 
za e  o  lodo,  mas  sobretudo  para  testemunho  e  gratidão  das 
cousas  divinas,  ou  dos  sentimentos  que  rescendem  as  fra- 
grâncias puras  e  finas  d'essa  etherea  essência. 

D'antes,  quando  a  religião  era  expontânea,  immaculada 
e  effusiva,  os  cheiros  suavíssimos,  os  óleos  incorruptíveis, 


igo  Correspondência  epistolar 

as  substancias  preciosas  e  luminosas  banhavam,  perfuma- 
vam e  rebrilhavam  nos  altares.  Mais  tarde  os"  sentimentos 
religiosos  mudaram  de  rumo,  sacrificando  a  MammoneBe- 
lial,  e  os  fetiches  do  terror  c  dos  interesses  açambarcaram 
as  offrendas  da  pureza  e  do  desinteresse. 

Não  é  justo  nem  esthetico  isso,  parece-nos,  e  por  tanto 
bemvindas  as  rarissimas  vozes  que  protestam  contra  o  en- 
xurro. 

Penna*de  ouro  para  os  corações  d'ouro,  eis  a  ordem ;  e, 
se  a  não  entendem  assim,  elucidem-se  na  doutrina  d'essa 
carta  que  pôde  recaldear  muita  gente  boa.  Diz  assim : 

Senhor. —  Os  abaixo  assignados,  amigos  e  admiradores 
dos  raros  predicados  e  talentos  d'aquelle  que  foi  José  Car- 
doso Vieira  de  Castro,  tiveram  a  lembrança  de  honrar  em 
V.  duas  cousas:  a  memoria  d'um  grande  infeliz,  e  a  amiza- 
de que  V.  lhe  votou,  nào  já  até  á  morte,  mas  ainda  depois 
d'ella. 

Rara  é  hoje,  senhor,  essa  virtude  da  fidelidade  aos  ami- 
gos, na  prospera  como  na  adversa  fortuna.  Louvaram •n'a 
os  homens  bons ;  mas  nos  tempos  que  correm  não  basta  lou- 
val-a,  é  mister  apontal-a  aos  outros  homens  como  incintivo 
e  modelo.  « 

Foi  V.  desde  longos  annos  amigo,  companheiro  e  admi- 
rador de  Vieira  de  Castro,  como  Vieira  de  Castro  o  era  de 
V.  Nào  se  irmanaram  só  nas  peculiaridades  do  talento,  mas 
também  na  hombridade  do  caracter,  que  em  ambos  era  ai 
tivo,  independente  e  superior.  Esse  parentesco  moral  e  in- 
tellectual  de  dous  nobilíssimos  vultos  da  moderna  geração 
portugueza,  não  se  rompeu  com  a  morte.  Herdeiro  da  me- 
moria do  amigo,  tomou  v.  a  si  a  tarefa  de  a  conservar  pura 
e  respeitada, —  doce  e  piedosa  missão  que  ha  de  achar  echo 
na  região  da  immortalidade  cm  que  elle  agora  descança. 

Sabe  V.,  como  sabe  Portugal  inteiro,  que  viçosa  flor  de 
esperanças  crestou  o  sol  de  Africa.  Em  sua  curta  passagem 
no  parlamento  c  na  litteratura,  deixou  Vieira  de  Castro  bri- 
lhantes vestígios  que  muito  miis  amarguram  a  saudade  do> 


Correspondência  epistolar  igi 

amigos.  Ainda  nos  resoa  aos  ouvidos  a  magica  e  arrebata- 
dora palavra  do  orador,  que  a  Providencia  divina  suscitou 
a  Portugal  para  recolher  a  gloriosa  herança  de  íosé  Este- 
vão. 

Os  poucos  escriptos  que  deixou,  mostram  como  elle  sa- 
bia transportar  para  o  papel  as  graças  do  estylo,  e  os  reptos 
da  inspiração  que  o  distinguia  na  tribuna. 

Era  isto  o  que  todos  podiam  saber  em  qualquer  parte  do 
mundo  em  que  a  lingua  portugueza  tem  um  echo ;  aquelles, 
porém,  que  o  trataram  de  perto,  e  muitos  foram,  esses  lo- 
graram a  ventura  de  lhe  apreciar  o  caracter  e  o  coração,  e 
d' esses  nenhum  podia  avantajar- se  a  v. 

Já  laureado  pela  Europa  toda  como  philosopho  e  poeta, 
Voltaire  consagrou  três  annos  da  sua  velhice  á  rehabilita- 
^ão  da  memoria  de  Calas,  e  é  esse  um  dos  maiores  titulos 
da  sua  gloria.  V.  que  possue  a  mysteriosa  sympathia  dos 
grandes  espíritos,  naturalmente  se  inclina  á  defeza  d'aquel- 
le  que  a  morte  colheu  no  exilio,  longe  dos  seus,  mais  longe 
ainda  das  suas  esperanças,  infinitamente  mais  longe  da  sua 
felicidade. 

Oxalá  que  a  justiça  do  tempo,  triumphando  da  indiffe- 
rença  e  do  egoismo,  recommende  á  historia  esse  grande  acto 
de  V.  equivalente  ás  obras  admiráveis  com  que  ha  deliciado 
a  quantos  lêem,  amam  e  prezam  a  lingua  portugueza. 

Guarde,  pois,  v.,  como  singella  lembrança  de  alguns  sin- 
ceros admiradores  seus  e  de  Vieira  de  Castro,  a  penna  que 
com  esta  lhe  remettem  os  abaixo  assignados.  E'  uma  ex- 
pressão de  agradecimento  e  veneração. 

Beijam  as  mãos  de  v.,  os  que  se  prezam  ser,  com  a  mais 
profunda  consideração,  e  elevada  estima 

De  V. 
admiradores  e  amigos  por  sympathia 

Rio  de  Janeiro  21  de  fevereiro  de  1873. 

Snr.  Camillo  Castello  Branco. 

Albino  de  Oliveira  Guimarães 
Francisco  Gomes    Vieira  de  Castro 


^92  Correspondência  epistolar 

Joào  Monteiro  da  Luz  (advogado) 
Joaquim  Monteiro  da  L^iz 
António  Mendes  de  Oliveira  Castro 
José  Mendes  de  Oliveira  Castro 
Manuel  Moreira  da  Fonseca 
M.  J.  Calheiros  de  Miranda 
José  Maria  Monteiro  de  Campos 
Augusto  Barbosa 
José  Ribeiro   Vieira  de  Castro 
Paulino  da  Siva  Mello 
Joaquim  J.  Luiz  de  Abreu 
José  Maria  Fernandes  Vieira 
Autonio  Gomes  Vieira  de  Castro. 


NOTA  6/ 


O  folhetim  encarecido  pelo  amor  do  meu  amigo 

é  o  seguinte : 

A  COROA  DE  OURO 

Em  meio  de  tantas  e  tão  diversas  magoas,  o  espirito  de 
José  Cardoso  Vieira  de  Castro  deve  ter  sentido  alguma 
consolação — se  por  ventura  cabe  luz  de  contentamento  na 
cerração  da  sua  vida  —  ao  saber  que  os  seus  amigos  do  Rio 
de  Janeiro  preparam  um  dom  gloriosissimo  para  Jayme 
Moniz,  seu  defensor.  A  coroa  de  ouro  vem  laurear  o  honra- 
do moço  que  aceitou  a  defeza  do  nobre  desgraçado,  sobre 
quem  trovejavam  calumnias  e  vitupérios,  já  manifestados 
por  uma  imprensa  bandeada  com  a  prustituição  brilhante, 
arrogante,  victoriosa;  já  armando,  sob  capa  de  piedade, 
aos  ódios,  á  exulceração  das  paixões,  e  ao  horror  de  um 
desventurado,  que  afogava  nas  lagrimas  do  opprobrio  o 
mais  extremoso  coração  de  quantos  souberam  amar  e  per- 
der-se,  e  um  dos  mais  enérgicos  talentos  da  geração  nova. 

Jayme  Moniz,  desviado  das  lides  do  foro,  poderia  ter  de- 
clinado o  tão  formidável  quanto  preclaro  feito  de  sahir  ao 
encontro  dos  ódios  aparcellados,  encostando  ao  seu  peito  a 
face  d'aquelle  mancebo  encanecido  em  breves  dias.  Entre  o 
egrégio  coração  e  o  génio  esforçado  de  Jayme  ia  amparada 
a  alma,  cuja  dignidade  inquebrantável  a  peso  de  angustias 
parecia  dar  e  não  pedir  alento  e  denodo  ao  defensor,  talvez 
abatido  na  presença  da  opinião  publica  obcecada. 

Era  para  temer  que  Vieira  de  Castro,  no  tribunal,  in- 
flamasse os  colmilhos  ás  cóleras  das  turbas  algum  tanto 
VOL.  II  i3 


zg4  Correspondência  epistolar 

amordaçadas.  O  seu  silencio  no  cárcere  dava  a  esperar  ani- 
mo enfraquecido  pelas  vaias  injuriosas  da  imprensa,  ou  di- 
lacerado pelos  remordimentos  do  delicto.  Esperavam  que  o 
réo,  descondensada  a  noite  que  lhe  fizera  na  alma  a  alluci- 
nação,  cahisse  de  rosto  no  pó  por  onde  os  diffamadores  lhe 
tinham  andado  a  espesinhar  o  nome,  as  dores  horrendíssi- 
mas, e  o  coração  cheio  ainda  da  imagem  de  uma  esposa 
que  expiara  no  mesmo  altar  em  que  havia  sido  adorada. 

Nào  foi  assim. 

Vieira  de  Castro  entrou  no  tribunal  levando  comsigo  o 
mais  relevante  da  sua  condição — a  firmeza  da  honra  de  que 
a  desgraça  nào  poderá  desbalizal-o.  Eil-o  alli.  Nào  se  de- 
fende accusando.  Accusa-se  e  chora ;  mas  não  chora  como 
quem  supplíca.  Semelhante  homem,  se  podesse  supplicar, 
pediria  de  mãos  erguidas  que  o  convencessem  de  assassino 
d*uma  esposa  innocente.  Ao  proferir  o  nome  de  seus  pães, 
chora.  Introverte  no  fundo  da  sua  alma  o  grito  da  sua  jus- 
tiça, e  chora.  E'  o  chorar  saudades  da  sua  infância,  quando 
balbucia  os  nomes  de  pai  e  mài.  Chora  o  amor,  a  fé,  a  feli- 
cidade que  lhe  aniquilaram,  quando  no  coração  lhe  relam- 
peja a  imagem  da  esposa  que,  mezes  antes,  elle  estremecia. 

Não  accusa.  Vieira  de  Castro  está  diante  de  uma  sepul- 
tura defeza,  e  quer  que  a  seu  lado  se  não  sente  uma  sombra 
para  ser  julgada.  A  mulher  que  o  matou  está  debaixo  dos 
olhos  de  Deus.  Elle  está  alli  assistindo  ao  despedaçarem-lhe 
todas  as, fibras,  estorcendo-se  n'aquelle  inferno  incomportá- 
vel. Não  quer  saber  se  nos  olhos  dos  jurados  reluz  a  bran- 
dura da  commiseraçào,  ou  rutillam  áscuas  de  rancor.  Aquel- 
la  almaagiganta-se  á  medida  da  catastrophe. 

E,  com  tudo,  o  homem  que  alli  está  deixa-se  esmagar 
desde  o  cérebro  até  ao  coração,  desde  a  intelligencia  até 
ao  amor.  Tudo  é  morto  n'elle,  salvo  a  probidade.  Essa  não 
tem  que  temer:  está  imperterrita,  inflexível,  eterna  para 
lhe  redourar  a  memoria,  quando  o  seu  nome  nem  já  fôr 
pó.  Salvou-a  e  perpetuou-a  elle  desde  que  se  entregou  á 
consciência  dos  juizes,  desde  que  em  seu  próprio  coração 
abafou  o  direito  de  se  defender. 


Correspondência  epistolar 


'9S 


Eis  aqui  o  réo  que  Jayme  Moniz  vai  levantar  nos  braços 
do  seu  amor  em  raptos  vehementes  do  talento  acrisolado 
pela  consciência.  Que  monta,  porém,  o  colossal  talento  do 
causidico  de  par  com  a  colossal  generosidade  do  accusado  ? 
Se  é  forçoso  que  se  parta  uma  campa,  Vieira  de  Castro  in- 
clina o  rosto  e  o  seio  sobre  essa  pedra  como  para  preser- 
val-a  do  insulto  dos  embaidores  que  fingem  deploral-a. 

E'  então  que  Jayme  Moniz  abre  o  prodigioso  coração.  A 
palavra  tremula,  fúnebre,  ungida  de  lagrimas,  portentosa, 
affiue-lhe  da  consciência,  e  dilucida  o  silencio  d'esse  singu- 
lar desgraçado  que,  investindo-se  do  direito  de  punir  uma 
affronta  irremediável,  quiz  forçar  a  alçada  da  justiça  hu- 
mana a  emmudecer.  Não  o  conseguiu.  O  jury,  obrigado  a 
responder  a  uma  interrogação  estólida  e  cruel,  respondeu 
em  termos  pouco  menos  de  irrisórios  n'um  lance  dolorosis- 
simo.  Que  afflictivo  não  seria  para  Vieira  de  Castro  o  es- 
panto de  alguns  e  o  sorriso  de  tantos  provocado  por  uma 
perversa  delicadeza ! . . . 

Vieira  de  Castro  foi  condemnado ;  mas  o  respeito  á  sua 
desgraça,  á  sua  justiça,  ao  transe  da  sua  insondável  ago- 
nia, incutiu-o,  insinuou-o  Jayme  Moniz  nos  ânimos  preve- 
nidos pelo  pregão  d'uns  especieiros  das  letras,  que  vendiam 
ascolumnas  aoalardo  do  aleivoso  libello  quando  já  de  an- 
temão sabiam  que  a  contrariedade  havia  de  ser  offerecida 
no  dia  do  julgamento. 

Não  obstante,  o  defensor  tinha  mansamente  acurvado  a 
calumnia;  e  sem  ostentação  nem  violência  de  gestos  ou 
brados,  forçara  a  infame  a  escabujar-lhe  aos  pés,  e  a  escon- 
der-se  sob  a  banca  do  accusador  alquilado  —  besta  energú- 
mena que  se  debatia  em  corcovos  e  galões,  causticada  pelas 
três  esporadas  da  estupidez,  da  cubica  e  da  maldade. 

O  ódio  implacável  e  inconverso  tinha  propalado  que 
Vieira  de  Castro  se  tornara  repulsivo  aos  homens  de  bem 
que,  no  Rio  de  Janeiro,  o  haviam  recebido  com  estrondosas 
e  notórias  manifestações  de  amizade  e  acatamento.  Para  os 
desprezíveis  que,  mezes  antes,  se  dispendiam  em  encareci- 
mentos ao  grande  orador,  era  já  motivo  de  assombro  que  á 


igô  Con^espondencia  epistolar 

beira  do  infeliz  se  devotassem  homens  como  Rodrigues 
Sampaio,  como  Jayme  Moniz  e  outros  somenos  em  gradua- 
ção social,  mas  opulentissimos  d'aquella  raríssima  moeda 
do  affecto  aos  cabidos.  Uns  devassos  que  ahi  se  esta- 
dêam  provando  a  inutilidade  das  galés,  e  teimam  em  le- 
vantar-se  como  odres  de  touro,  por  mais  que  os  baldões 
ossacudame  resvalem  por  atoleiros  —  uns  taes,  cujo  nome 
infame  ha  de  sobreviver  ás  producções  gafadas,  e  cuja  pro- 
bidade é  tão  somente  a  necessária  para  não  serem  enfor- 
cados, como  dizia  Moliére,  segredavam  aos  raros  amigos 
fieis  de  Vieira  de  Castro  a  conveniência  de  não  se  andar 
polindo  a  lousa,  em  que  se  havia  de  escrever  o  epitaphio 
do  illustre  preso. 

Os  magarefes  da  carne  pútrida,  que  lhes  sobeja  nas  al- 
covas, não  comprehendiam  que  um  homem  de  tanto  vulto 
e  já  grangeador  de  tantas  glorias  trocasse  futuro,  liberdade 
e  vida  pelo  direito  de  ser  encarado  com  respeito  ou  ainda 
com  rancor,  mas  nunca  envilecido  com  o  sorriso  da  mofa. 
Eram  esses  os  núncios  da  ira  que  lavrava  contra  Vieira  de 
Castro  entre  os  portuguezes  residentes  no  império  brazi- 
leiro ;  eram  esses  os  emissários  das  calumnias  impressas 
para  além-mar,  e  os  plangitivos  pregoeiros  das  angustias 
que  acerbavam  o  seio  da  familia,  onde  as  consciências  dos 
magistrados  portuguezes  eram  pesadas  a  tinteiros  de  ouro^ 
offerecendo-se  pouco  mais  ou  menos  o  valor  de  dous  ne- 
gros robustos  pela  consciência  branca  d'um  delegado. 

Esses  mesmos  vem  hoje  divulgando  que  os  portuguezes,. 
residentes  na  capital  do  império  brazileiro,  abriram  uma 
subscripção  publica  no  intento  já  realisado  de  galardoar  o 
defensor  de  José  Cardoso  Vieira  de  Castro  com  uma  coroa 
preciosa.  Urgia-lhes,  porém,  a  estes  forçados  noticiadores 
d'um  facto,  que  náo  pôde  ser  obscurecido,  abastardar,  fal- 
sificar o  intento  da  dadiva.  Mas  de  que  sorte  ?  que  expe- 
diente *póde  suggerir  a  malevolencia  a  uns  biltres  que  dis- 
solvem lama  no  tinteiro  ?  Escrevem  que  o  presente  da  co- 
roa procede  dos  amigos  e  enthiisiastas  do  doutor  Jayme 
Moniz. 


Correspondência  epistolar  igj 

Se  o  doutor  Jayme  Moniz  houvesse  defendido  um  réo 
odiado  pelos  portuguezes  do  Brazil,  os  seus  amigos  oíferecer- 
Ihe-hiam  uma  coroa  como  testemunho  do  seu  enthusiasmo. 
Isto  é  concludente. 

Se  Vieira  de  Castro  não  tem  honrados  e  excellentes  ami- 
gos no  Rio,  onde  elle  com  primoroso  pundonor  aceitou  uma 
esposa  que  parecia  amal-o,  o  seu  digno  defensor  grangeou-os 
óptimos  em  virtude  de  ter  defendido  um  delinquente  cuja 
causa  é  odiosa  no  Brazil.  Concludentíssimo. 

E'  pois  certo  que  a  coroa  d'ouro  não  promana  dos  ami- 
gos de  Vieira  de  Castro,  agradecidos  á  vigorosa  e  lucidissi- 
ma  defeza  do  seu  advogado.  Amigos  de  Vieira  de  Castro, 
se  alguns  houvesse,  brindariam  com  uma  coroa,  provavel- 
mente, o  insultador  abjecto  que  certa  dama  brazileira  ati- 
rou para  dentro  do  tribunal,  onde  a  rhetorica  das  tabernas 
carecia  de  ser  pautada  pelo  aferidor  d'um  tagante. 

Como  quer  que  fosse,  o  resplendor  que  reverbera  d'essa 
coroa  de  ouro,  menos  valioso  que  as  lagrimas  — única  moe- 
da de  bom  quilate  na  alma  de  Jayme  Moniz — deve  chegar 
como  luz  amortecida  dos  bens  d'este  mundo,  onde  podem 
ir  ainda  contentamentos  a  dentro  do  tristíssimo  viver  de 
Vieira  de  Castro.  A  gratidão  é  viventissimo  prazer  da  al- 
ma. Vieira  de  Castro  afaga  hoje  mais  a  condolência  com 
que  o  lastimam,  do  que  d'antes  acariciava  os  louvores  com 
que  o  exaltavam.  Os  seus  amigos  do  Brazil  deram-lhe  uma 
vez  uma  coroa  opulenta  cravejada  de  valiosas  pedras.  Es- 
se primor  d'arte  e  primor  de  generosas  Índoles  tem  de  ser 
enviado  com  o  restante  do  seu  património  á  algibeira  de 
sua  sogra,  que  regorgita  tinteiros  d'ouro.  Que  irnporta?  O 
Brazil  que  lhe  deu  uma  coroa,  hoje  envia  outra  a  Jayme 
Moniz  em  virtude  de  elle  ter  posto  em  evidencia  que  o  ho- 
mem, condemnado  a  dez  annos  de  degredo  para  Africa,  era 
um  homem  de  bem,  hoje  perdido,  porque  amara  muito 
sua  mulher  e  a  sua  honra. 

FIM    DAS   NOTAS   AO   VOLUME   PRIMEIRO 


NOTAS 


AO 


VOLUME  SEGUNDO 


NOTA  1, 


A  seguinte  analyse  do  Condemnado  é  de  um  dos 
mais  notáveis  ornamentos  da  moderna  litteraturá 
portugueza.  Vieira  de  Castro  idolatrava  estes  fo- 
lhetins, e  reputava-os  o  mais  esmerado  escripto, 
que  appareceu,  relativo  ao  seu  infortúnio. 

O  CONDEMNADO 

Um  facto  de  per  si  nada  significa,  vale  ou  pesa  senão 
pela  idéa  que  representa,  pela  consciência  que  o  inspira, 
pelo  intuito  de  justiça  que  o  determina.  Isto  é  elementar. 
O  facto  de  matar  denota,  consequentemente,  tanto  como 
cutro  qualquer,  em  quanto  não  for  caracterisado  pelo  seu 
agente,  as  condições  em  que  occorreu  e  contra  quem  oc- 
correu,  o  estado  ou  situação  respectiva  d'ambos,  em  fim 
por  um  conjuncto  de  circumstancias  todas  convergentes  ao 
apuramento  moral  do  acto.  Assim,  não  venham  assentar 
dogmaticamente  a  proposição  absoluta  —  tu  uão  matarás 
—  e  em  nome  e  do  alto  d'essa  pyramide  proclamar  todo  o 
homicidio  como  assassinio,  punivel,  ultrajante  do  direito  e 
da  moral.  O  absoluto  não  é  d'este  mundo,  equem  sabe  mes- 
mo se  de  mundo  algum } 

Evocado  para  a  esphera  da  existência  moral,  afigura-se- 
nos  tão  absurdo  como  repugnante.  E*  um  novo  leito  de 


202  Correspondência  epistolar 

Procusto  mutilando,  desconjunctando,  violentando  em  sum- 
ma  todas  as  cousas. 

Vêr  os  homens  e  os  factos  por  este  angulo  estreito  é 
mentir  á  sua  natureza  complexa,  querer  apanhar  os  infini- 
tos planos  do  firmamento  por  um  binóculo. 

E'  certo  que,  em  principio,  a  vida  humana  é  inviolável, 
que  ninguém  possue  o  direito  de  attentar  contra  o  seu  se- 
melhante. 

Mas  o  que  corre  igualmente  por  incontestável,  é  que  a 
legitima  defeza  constitue  um  direito  tão  sagrado  e  incon- 
cusso como  aquelles  que  se  firmam  na  base  mais  solida. 

E'  que  o  direito  e  a  justiça  são  recíprocos,  que  a  minha 
dignidade  d'homem  vale  tanto  como  a  dignidade  d'outro, 
e  que  toda  a  violação  d'ella  importa  uma  quebra  de  res- 
peito, uma  infracção  das  leis  substanciaes  e  primordiaes, 
alpha  e  omega  da  vida  humana.  N'estes  termos  assiste-me 
o  direito  de  repellir  qualquer  aggressào  ás  minhas  faculdades 
e  dignidade,  como  obrigação  de  coagir  o  aggressor  a  resta- 
belecer-se  dentro  do  direito. 

Posso  matar  para  não  morrer,  e  isto  é  tão  obvio  como 
necessário.  Observemos  porém,  como  anteparo  a  certas 
objecções,  que  a  aggressão  implica  um  sentido  mais  lato 
que  o  vulgarmente  attribuido  áquella  palavra. 

Bastará  lembrarmo-nos  de  que  o  homem  se  não  define 
como  entidade  simples  mas  eminentemente  complexa,  para 
logo  rastrear  que  a  aggresaão  se  endereça  umas  vezes  ás 
suas  faculdades  anímicas,  ao  seu  corpo,  e  outras  ás  suas 
faculdades  moraes;  e  portanto  á  defeza  cabe  uma  justifica- 
ção parallela  em  ambos  os  casos. 

Um  exemplo  bem  frisante  d'este  conceito  nos  avulta  das 
legislações  penaes,  referindo-se  ao  adultério  em  flagrante. 

N'esta  hypothese  o  marido,  atraiçoado  c  vilipendiado  na 
sua  honra  e  consciência  commum,  que  o  pacto  conjugal 
formara  entre  os  dous  esposos,  tem  o  direito  de  matar 
um  ao  outro  dos  delinquentes  sem  incorrer  em  pena,  ou  in- 
correndo em  pena  levíssima,  correccional. 

E  porque  ?  Acaso  o  adultero  oífende  ou  aggride  directa 


Correfipottcienda  epistolar  20 3 

e  physicamente  a  personalidade  do  marido  enganado  ?  Nin- 
guém o  dirá ;  mas  em  compensação  o  que  todos  me  con- 
fessam, depois  de  bem  attentirem  e  reflectirem  no  caso,  é 
que  a  justiça,  encarnada,  organisada,  representada,  em  sua 
expressão  indefectivel  e  puríssima,  no  par  conjugal,  padeceu 
a  máxima  violação,  foi  rota  e  despedaçada  infamemente 
pelo  esposo  infiel  e  pelo  seu  cúmplice. 

Aqui  o  homem  defende  a  sua  consciência  e  personalida- 
de communs  e  por  isso  lhe  confere  a  lei  o  direito  de  ma- 
tar. Sophisma,  argúcia  escolástica  ? 

Cuidamos  que  só  podem  acoimar-nos  d'esse  vicio  os 
desattentos  ou  interessados  na  corrupção  social,  e  ainda 
os  que  ignoram  as  formosuras  e  excellencias  do  pacto  con- 
jugal, deprimido  e  abaixado  ahi  com  o  nome  de  contracto. 

Os  seus  fins  são  outros  e  mais  elevados  do  que  geral- 
mente Jhe  assignam.  Nem  a  procreaçào  e  educação  dos  fi- 
lhos, embora  esta  circumstancia  entre  por  muito  na  consti- 
tuição do  matrimonio,  nem  o  mutuo  adjutorio  e  vantagens 
advindas  por  meio  d'um  contacto  synallagmatico,  respon- 
dem cabalmente  aos  desígnios  altíssimos  d'esta  formosíssi- 
ma e  sublime  união.  O  casamento  não  é  um  contracto  sy- 
nallagmatico, porque  estes  contractos,  segundo  a  sua  no- 
ção e  essência,  só  podem  dar-se  entre  seres  respectivamen- 
te completos,  semelhantes  na  sua  constituição,  associando- 
se  ou  tratando  da  permutação  dos  seus  serviços  e  pro du- 
etos. 

Ora  homem  e  mulher,  equivalentes  e  iguaes  perante 
Deiís,  são  todavia  diíferentes  na  sua  constituição  physica, 
intelluctual  e  moral. 

Esta  differença  consiste  n'uma  diminuição  das  energias 
ou  faculdades,  diminuição  sensível  e  evidente  a  quem  es- 
tude e  observe  despreoccupadamente  a  mulher,  e  que  faz 
com  que  um  e  outro  sejam  partes  complementares  d'um 
todo  orgânico,  formando  uma  pessoa  dotada  de  duas  in- 
telligencias  e  de  duas  vontades.  Assim,  acontece  que,  sob 
o  ponto  de  vista  da  dignidade,  no  foro  interno,  homem  e 
mulher  são  iguaes  na  união  conjugal,  mas  perante  a  socie- 


204  Correspondência  epistolar 

dade,  e  no  foro  externo,  a  mulher  anda  subordinada  ao 
marido. 

Todos  os  códigos  civilisados  o  estatuem  e  comprehen- 
dem  d'este  modo,  e  segundo  nós  legitimamente,  porque  a 
mulher  não  soffre  confronto  ao  homem  quanto  á  potencia 
e  alcance  de  faculdades  manifestadas  já  na  ordem  indus- 
trial e  económica,  já  na  ordem  politica,  philosophica  e  lit- 
teraria,  já  na  ordem  jurídica. 

O  homem  é  forte^  a  mulher  \.çxíídi  graça;  o  primeiro  é  tra- 
balhador, administrador  e  chefe ;  a  segunda  é  menagere. 
A  belleza  e  2i força  attrahem-se,  engendram  o  amor,  e  cons- 
tituem o  par  conjugal,  que  desaperta  n'uma  unidade  supe- 
rior, instituída,  segundo  o  direito,  para  o  cumprimento  dos 
destinos  sociaes. 

D'aqui  nasce  que  todo  o  attentado  contra  o  matrimo- 
nio importa  uma  violação  immediatá  da  dignidade  humana 
que  é  commum  aos  esposos,  e  portanto  o  direito  ou  fa- 
culdade de  repellir  mesmo  pela  morte  o  adultero  em  fla- 
grante. Infelizmente  hoje  a  corrupção  de  costumes  lavra  fun- 
do, e  uma  tolerância  degradante  e  objecta,  que  é  a  amnis- 
tia reciproca  de  todas  as  solturas,  vicios  e  crimes,  abriga 
com  o  frouxel  macio  das  suas  azas  esta  vasta  canceráção 
de  familia. 

Não  é  a  vontade  rancorosa  de  calumniar  e  denegrir  o 
século  quem  nos  impõe  estas  asserções  descortezes,  quasi 
grosseiras,  mas  a  impudência  do  mesmo  século  que  as  anda 
pompeando  ahi  do  seu  carro  triumphal. 

Vede  a  litteratura  romântica  e  dramática,  que  ahi  nos 
servem  por  entre  vaporações  odoríferas,  em  vasos  finamen- 
te cinzelados,  enfeitada  com  todas  as  mais  custosas  e  ma- 
gnificentes roupagens. 

O  que  nos  diz,  o  que  exalta,  o  que  levanta  nos  altares, 
por  entre  as  acclamações  e  sorrisos  da  multidão  ? 

O  adultério,  a  prostituição,  os  mysterios  d 'alcova,  estas 
claras  e  luminosas  virtudes  das  decadencias,  da  podridão  e 
esphacelamento  moral. 

E  querem  saber  o  que  respondem  artistas  e  litteratos» 


Correspondência  epistolar  2o5 

incriminados  por  alguma  voz  isolada,  d  estas  tendências  pa- 
gãs e  enervadoras  de  todo  o  senso  moral  e  arlistico  ?  Res- 
pondem que  viram  e  estudaram  os  costumes  e  inclinações 
do  seu  tempo,  e  escreveram  por  elles  e  por  ellas  os  seus 
livros !  A  litteratura  inculca-se  por  ahi  sentenciosamente 
como  a  expressão  da  sociedade,  e  se  a  proposição,  deduzi- 
do o  que  tem  d'absoluto,  traduz  a  verdade,  o  que  have- 
mos ajuizar  d'esta  época  bemaventurada  ? 

Bem  vindo  seja  pois  o  escriptor  honrado  e  intrépido, 
que  desfita  os  olhos  do  tremedal  em  que  fermenta  a  podri- 
dão, para  os  levantar  ás  alturas  limpidas  e  azues  onde  o 
ideal  resplende,  fundido  no  direito  e  na  justiça,  coando  os 
seus  fulgores  immortaes  através  de  todos  os  sentimentos 
nobres  e  de  todas  as  elevações  generosas  do  espirito  e  do 
caracter  ! . .  .  ^ 

Vínhamos  allegando  como  é  que  a  sociedade  abstendo- 
se  de  perseguir  o  adultério,  sem  que  o  offendido  promova 
acção  contra  os  violadores  da  fé  jurada,  reconhecia  assim 
frisante  e  eloquentemente  a  sua  incompetência.  E  não  é 
que  a  integridade  e  pureza  do  matrimonio  seja  indifferente 
ao  progresso  e  manutenção^  da  sociedade,  cuja  molécula 
orgânica,  cujo  sol  e  luz  é  o  pacto  conjugal,  senão  porque 
fia  da  natureza  própria  d'aquella  união  e  das  caracteristi- 
cas  relações  do  par  conjugal,  formando  uma  personalidade 
inviolável  e  sagrada,  a  sua  vigia  e  guarda  d'elle.  E  tanto 
assim  é  que  a  constituição  social  se  modela  em  quasi  todos 
os  seus  institutos  e  regras  pelas  feições  primordiaes  da  fa- 
mília. 

E'  o  seu  máximo  empenho  conserval-a,  rasgando  os  ho- 
risontes  á  sua  progressiva  e  luminosa  expansão,  prescre- 
vendo todas  as  cautellas,  e  como  que  cingindo-a  d'um  an- 
temural  que  a  ponha  a  coberto  das  aggressões  e  embates 
de  fora. 

Muitos  dos  pretendidos  direitos  com  que  ella  se  arma  e 
prevalece,  como  o  direito  de  punir,  por  exemplo,  das  en- 
tranhas d'esta  união  única  o  vai  ella  haurir. 

O  poder  vitce  et  necis^  que  na  familia  antiga  segurava  em 


20Õ  Correspondência  epistolar 

sua  mão  omnipotente  o  chefe  de  casa,  como  o  feixe  de  raios 
na  mào  de  Júpiter,  foi  quem  desfechou  generaHsado  e  so- 
berbo o  direito  de  punir,  que  a  sociedade  converteu  em 
theoria  e  encarnou  em  facto. 

Pondere-se  agora  que  nós,  sempre  coherentes  aos  prin- 
cipios  estabelecidos,  não  vimos  arrancar  a  punição  á  socie- 
dade para  gratificar  com  essa  faculdade  o  individuo. 

Quando  o  esposo  ultrajado  mata  o  cônjuge  infiel,  nào  o 
faz  exercendo  um  direito  de  castigo  que  nào  tem,  mas  em 
nome  da  consciência  e  vida  moral  commum,  atacadas  e  fe- 
ridas em  o  seu  nó  vital. 

Essa  legitima  deíeza  da  justiça  organisada  e  represen- 
tada no  pacto  conjugal  é  que  o  ultimo,  ameaçado  de  de- 
gradação e  morte,  repelle  os  violadores  do  direito  na  sua 
fonte  sacratissima.  Porque  a  justiça,  e  o  direito  portanto, 
sendo  pela  sua  noção  reciproca,  dual,  claro  é  que  o  indivi- 
duo representa  uma  só  face  d'esse  grande  e  indefectivel 
principio  d'onde  o  fluxo  e  refluxo  eterno  do  oceano  dos 
seres  se  desata  e  espraia. 

O  sentimento  da  dignidade  própria  avulta  só  com  um 
dos  termos  da  justiça,  sendo  mister  duas  consequências  uni- 
sonas  para  que  ella  se  torne  respeitável.  E'  por  isso  que  a 
justiça,  a  exemplo  de  todas  as  faculdades  e  potencias  da 
natureza  e  da  vida,  necessitando  manifestar-se  e  nào  ca- 
bendo no  individuo  isoladamente,  vai  encontrar  o  seu  órgão 
no  pacto  conjugal,  em  que  os  dous  pactuantes  nào  appare- 
cem  similares  a  fim  de  que  se  completem  mutuamente,  e 
pela  sua  acção  reciproca  tornem  possível  e  viva  a  socie- 
dade. 

Dilacerai  agora  violenta  e  traiçoeiramente  aquelle  laço 
substancial,  aquella  união  indesatavel,  segundo  o  direito,  e 
vede  como  sahirá  d'esse  infame  e  atrocíssimo  engenho  de 
trituração  e  vilipendio  o  segundo  membro  do  par  conju- 
gal!  ? 

Que  remédio  e  bálsamos  lhe  faculta  e  instilla  a  socie- 
dade para  o  restaurar  ?  A  separação  e  o  castigo  do  esposo 
infiel  ? 


Correspondência  epistolar  107 

Hypocrisia  e  singular  impotência  !  que  é  da  familia,  da 
religião  domestica,  confessada  a  sua  indignidade  ?  Se  o  ca- 
samento é  indissolúvel  pois  que  é  immutavel  a  consciência, 
-que  remédio  fica  ao  cônjuge  trahido  senão  a  morte  do  trai- 
dor? 

Prove-se  evidentemente  o  adultério  perante  os  tribunaes, 
-como  o  que  o  mata  em  legitima  defeza  deve  provar  que 
matou  n'aquellas  condicções,  que  á  opinião  justa  e  esclare- 
<:ida  só  resta,  lamentando  a  catastrophe,  absolver  o  desgra- 
çado, apagando-lhe  da  fronte  a  maneha  de  sangue,  que  as 
illusões  d'uma  sensibilidade  exaltada  e  doentia  apontavam 
lá!... 

Urge  que  as  cousas  sacratíssimas  entre  todas  se  aquila- 
tem e  respeitem  como  o  que  são. 

O  matrimonio  é  uma  d'ellas,  a  suprema,  a  mais  formosa 
■e  resplendente  sobre  todas  as  outras,  e  não  pôde  andar  ahi 
aos  baldões,  aos  sopros  malsàos  de  caprichos  immoraes  e 
dissolventes. 

Acto  seriíssimo  e  decisivo  da  vida  humana,  não  convém 
que  se  determine  levianamente,  sobre  o  impulso  febril  de 
paixões  ou  pendores  julgados  irresistíveis,  e  que  a  posse 
desfaz  e  vaporisa  em  breve  tempo. 

A  physiologia  do  amor  resume-se  em  meia  dúzia  de  li- 
nhas, como  profundamente  escreve  Proudhon.  O  amor 
•cuja  virtualidade  está  na  geração,  tem  a  sua  causa  plástica 
e  motriz  no  ideal. 

Por  elle  o  instincto  orgânico  levanta-se  e  purifica-se  ar- 
rebatando-nos  nas  azas  de  fogo  do  desejo  por  esses  largos 
paramos  do  céo,  d'onde  tantas  vezes  baqueia  pela  fadiga 
da  posse,  n'um  erotismo  impudente  e  animal. 

Não  ha  fixal-o  no  seu  apogeu  radiante,  porque  o  ideal 
nem  é  infinito  nem  immutavel.  As  illusões  adelgaçam-se  ;  e 
através  do  véo  raro,  que  amanhã  será  fumo  amargo  a  caus- 
ticar-nos  os  olhos,  entreveem-se  os  defeitos  e  jaca  da  mu- 
lher crystallisada  hontem. 

O  Ídolo  desmaia,  o  nimbo  luminoso  que  a  transfigurava 
-esvaece-se  pouco  a  pouco,  e  o  real  começa.  Passada  a  cri- 


2o8  Correspondência  epistolar 

se,  se  a  mulher,  ou  antes  o  pacto  conjugal,  não  firma  a  sua 
peanha  de  diamante  na  consciência  e  na  virtude,  que  vai 
ser  a  nossa  insulaçào,  que  lancinantes  espinhos  nos  não 
vão  rebentar  debaixo  dos  pés  ? 

Bom  é  que  o  amor  e  o  ideal  illuminem  todo  o  matrimo- 
nio, mas  sem  usurpar  e  escurecer  todos  os  outros  elemen- 
tos que  devem  constituil-o. 

Lembremo-nos  que  não  é  elle  o  fim  do  casamento,  como 
romancistas  e  dramaturgos  ahi  preconisam  e  celebram  á 
compita  em  dithyrambos  apaixonados. 

Recordemos  que  esta  palavra  magica  nem  sequer  aponta 
na  lei  ou  occorre  á  mente  do  legislador,  regulando  os  di- 
reitos, deveres  e  constituição  do  matrimonio,  como  quem 
descobre  que  os  destinos  da  sagrada  instituição  nada  tem 
a  ver  com  a  poesia  erótica,  com  um  sentimento  ephemero, 
mero  episodio  no  drama  da  vida  humana. 

E'  o  que  parece  ter  comprehendido  Camillo  C.  Branco, 
desenhando  ou  esculpindo  vigorosamente  aquella  solemne 
e  trágica  figura  de  Jorge  de  Mendanha. 

Natureza  elevada  e  generosa,  exuberante  d'instinctos 
nobilíssimos  e  delicados,  engrandecidos  e  fortificados  por 
uma  larga  cultura,  grangeada  no  estudo  dos  livros  e  do  ho- 
mem, Jorge  de  Mendanha  é  um  caracter^  no  sentido  genuí- 
no e  racional  da  palavra.  Não  é  impeccavel  porque  é  ho- 
mem, e  assim  o  vereis  transigir  com  estas  efflorescencias 
derrancadas,  que  ahi  se  enroscam  e  bracejam  á  superficie 
da  sociedade,  como  erupções  quasi  necessárias  das  corren- 
tes oppostas  e  variadas  que  atravessam  as  camadas  sobre- 
postas, que  nascem  da  idade  e  desigualdade  das  condições 
e  meios,  d'um  complexo  de  circumstancias  múltiplo  e  in- 
conjuravel.  * 

Ha  factos  culposos,  ha  verduras  e  levezas,  que  nào  ha 
outro  remédio  senão  perdoar,  attenta  a  natureza  humana, 
e  o  desequilíbrio  e  desorganisação  dos  elementos  sociaes 
na  actualidade.  Se  o  mais  justo  pecca  até  sete  vezes,  na  ex- 
pressão biblica,  o  que  diremos  de  tantos  desgraçados  sem 
pão  do  corpo  e  pão  do  espirito,  que  as  suggestões  do  amor 


Correspondência  epistolar  2og 

e  da  necessidade,  a  indifferença,  o  abandono  e  até  as  injus- 
tiças de  seus  semelhantes  atiram  ao  vicio,  á  libertinagem,  á 
fraude,  ás  mil  quedas  a  que  os  arrasta  este  desequilibrio  e 
vórtice  terrivel  que  nos  envolve  ?  A  tolerância  é  necessária 
acpnselha-nol-a  por  um  lado  o  coração,  e  por  outro  o  racio- 
cinio. 

Basta  comprehender  certas  faltas  e  crimes  até  para  os 
absolver.  Cremos  que  Jorge  de  Mendanha  era  um  d'esses 
tolerantes  pelo  sentimento  e  pela  razão,  incapaz  de  tomar 
uma  lente  para  esmiuçar  e  descobrir  no  fundo  de  cada  acto, 
na  tela  de  cada  vida,  o  acarus  que  aíistula  as  carnes. 

Sem  a  philosophia  estreita  e  sem  entranhas  de  moralista 
secco  e  hirto,  Jorge  de  Mendanha  devia  ser  comtudo  impla- 
cável e  severissimo  com  os  attentados  odiosos  e  repulsivos, 
que  enlodassem  e  corrompessem  a  sociedade  na  sua  matriz. 

Crimes  ha  que  nivelam  o  seu  author  com  a  besta-fera, 
que  o  desauthoram  da  sua  prerogativa  d'homens,  da  sua 
realeza  sobre  a  creação. 

Taes  malefícios  despojando-o  da  sua  dignidade,  e  rom- 
pendo os  diques  contra  a  podridão  que  vai  alastrar-se  sobre 
todos  os  círculos  sociaes,  provocam  da  parte  da  sociedade 
uma  repressão  vigilante  e  segura,  que  empeça  a  continua- 
ção de  taes  incursões.  Se  for  mister-  a  excommunhão  do 
perverso,  excommunga-se,  sacrificando  o  animal. 

Ora  o  máximo  d 'esses  attentados,  que  resumem  e  con- 
densam todos  os  grandes  crimes,  subversivos  da  justiça  e 
da  organisação  social,  já  dissemos  que  era  o  adultério, 
aquelle  mesmo  para  cuja  repressão  a  sociedade  se  declara 
sem  voz  nem  força,  logo  que  o  offendido  se  resignar. 

Poderá  o  marido  atraiçoado  resignar-se  e  submetter-se 
facilmente  á  gargalheira  odiosa  e  estranguladora  do  adul- 
tério, quando  a  sua  consciência  e  a  razão,  o  sentimento  e  a 
dignidade  própria,  a  justiça  em  fim,  principio  intimo  e 
substancial  de  todo  o  seu  ser,  lei  inflexível  de  todos  os  seus 
movimentos  livres,  desce  os  círculos  do  inferno  dantesco 
arrastada  pelos  cabellos,  com  a  sua  purpura  sagrada  rota  e 
conspurcada  de  todas  as  infecções  ? 

voL,  11  14 


210  Correspondência  epistolar 

Não  pôde  nem  deve,  se  ainda  se  equilibra  no  seu  pedes- 
tal d'homem,  intelligente,  livre  e  consciente.  Tudo  se  deve 
sublevar  e  protestar  n'elle,  tudo  quanto  houver  de  sào  e  di- 
gno. O  sangue  das  vêas,  as  fibras- do  peito,  a  razão,  a  cons- 
ciência e  o  sentimento  levantarão,  formidáveis  e  desafoga- 
dos, o  seu  accento  d'indignação  e  agonia  suprema. 

O  dilemma  que  lhe  abre  os  seus  braços,  crispados  e  ter- 
ríveis, para  o  confranger  até  á  demência,  é  mais  escuro  e 
intransitivo  que  o  dilemma  de  Hamlet  —  o  ser  ou  não  ser  ! 

Trata-se  da  vida  na  sua  bella  e  larga  accepçào  moral, 
da  vida  superior  cuja  tela  radiosa  e  santa  é  o  direito  e  a 
justiça,  e  que  não  pôde  continuar,  porque  lhe  estão  quei- 
mando na  chamma  sulfurosa  do  escarneo  e  do  vilipendio  o 
trama  inteiro. 

Que  fazer,  meu  Deus,  n'este  lance  das  máximas  angus- 
tias, em  que  não  ha  molécula  nem  fibra  de  nossas  entra- 
nhas que  não  aperte  e  rasgue  o  annel  d'espinhos  que  nos 
cinge }  Entregar  os  culpados  á  mão  descarnada  e  fria  da 
lei,  que  pune,  rindo  da  nossa  boa  fé  e  ingenuidade,  da  iné- 
pcia e  gaucherie  com  que  nos  deixamos  atraiçoar  }  Confes- 
sarmos á  sociedade,  nossa  auxiliadora  compadecida,  o  des~ 
soramento  das  nossas  energias  moraes,  a  impotência  ridí- 
cula e  affrontosa  da  nossa  dignidade,  que  não  soube  envi- 
dar um  esforço  qualquer  para  a  defeza  e  guarda  da  honra^ 
da  familia,  do  coração,  e  da  justiça  feita  carne  na  união 
conjugal }  A  fraqueza,  a  mingoa  de  pundonor,  a  indifferen- 
ça,  o  egoismo  estreito  e  cobarde,  que  prefere  todas  as  fal- 
lencias  moraes  á  incommodidade  d'um  movimento  qual- 
quer, desmanchando  a  symetria  harmoniosa  das  suas  roupas 
de  sybarita,  esse  transige  com  a  lei,  invoca-a,  deita-se-lhe 
no  regaço  emaciado,  bebendo-lhe  dos  lábios  a  agua  chilra, 
que  lhe  servirá  de  néctar  olympico  á  sede  de . . .  tranquil- 
lidade ! 

Assim  fazem  muitos  embuçados  na  toga  magestosa  de 
não  sei  quantas  virtudes,  que  por  ahi  calumniam  com  o  no- 
me de  bom  senso^  prudência  e  cordura. 

Deixal-os !  o  seu  castigo  d'elles  não  lhes  vem  da  cons- 


Correspondência  epistolar  211 

ciência  adormecida  pelas  doses  opiadas  do  bom  senso  e  do 
egoismo  burguez,  mas  gruda-lh'o  nas  costas  a  opinião  n'ura 
rabo  leva  infamante  e  irrisório,  que  mais  e  mais  lhe  adhere 
até  entrar  nas  carnes  vivas,  apenas  nas  relações  e  mil  inci- 
dentes da  vida  batam  de  rosto  contra  alguns  dos  seus  seme- 
lhantes. Com  eífeito,  á  minima  collisão  ou  desaguisado,  á 
minima  debilidade  a  que  succumbe  o  complacente,  logo  o 
espectro  da  humilhação  e  deshonra  lh'o  avivam  e  reenviam 
todos  os  espelhos  sociaes  até  lhe  deslumbrarem  os  olhos... 

Viver  infamado  e  deshonrado  embora  sob  o  beneplácito 
da  lei  não  o  consente  o  homem,  que  bem  sinta  o  valor  e  al- 
cance do  Génesis  quando  refere  que  Deus  fez  o  homem  á 
sua  imagem  e  semelhança. 

Escusado  é  que  o  sentimento  da  justiça  resplenda  vivo  e 
poderoso  no  santuário  da  consciência,  basta  ter  coração  e 
entendimento,  pôr  o  ouvido  aos  commentarios  e  apostillas 
que  a  sociedade  distilia  longamente  acerca  d'estes  actos. 
Ou  morto  para  todos  os  estímulos,  ou  estimulado  pelas  im- 
periosas suggestões  a  definir  heroicamente  uma  situação 
absurda. 

Se  não  mata,  morre  da  morte  moral  para  que  não  ha 
resgate  nem  amnistia  na  munificência  d'esta  rainha  do  sé- 
culo, e  já  agora  de  todos  os  séculos  —  a  opinião. 

E'  verdade  que  matando,  a  mesma  opinião  entoa  com- 
movida  e  suffocada  um  threno  cortante  de  magoas,  alguma 
cousa  como 

Rosa  cTamor,  rosa  purpúrea  e  bella^ 

Quem  adentre  os  goivos  te  Qsfolhott  da  campa  ? 

A  victima  tem  as  suas  elegias,  alcança  um  necrológio 
d 'onde  fulguram  todas  as  virtudes  por  modo  a  escurecer  a 
nitidez  e  pureza  das  constellações. 

A  opinião  padece  d 'estas  contradicções  inexpHcaveis,  o 
que  nada  prova  contra  a  sua  lógica  e  bom  juizo,  e  muito 
encarece  a  sua  maviosa  sensibiHdade. 

Que  importa  o  desgraçado,  com  o  seu  coração  feito  pe- 


212  Correspondência  epistolar 

daços,  a  sua  consciência  ultrajada,  a  sua  honra  e  decoro 
escorrendo  lagrimas  de  sangue  ?  O  que  importa  o  seu  futu- 
ro esmagado,  a  familia  despedaçada,  a  sua  religião  domes- 
tica enxovalhada  com  o  saitto  dos  santos  tombado  no  fogo 
ou  nos  lameiros  da  encruzilhada  ?  Matou,  é  carrasco,  é 
scelerado,  é  besta-fera,  e  tudo  está  dito  ! 

Explique  quem  quizer  este  fluxo  e  refluxo  da  opinião, 
que  nós  passaremos  cortejando,  protestando  embora. 

Em  Jorge  de  Mendanha  a  honra  e  o  sentimento  da  jus- 
tiça era  um  instincto,  antes  de  ser  uma  convicção  inabalá- 
vel, uma  crença  fervorosa,  formada  pelo  raciocínio  e  pelo 
coração. 

Quando  fez  d'essa  crença  a  religião  positiva  da  sua  vi- 
da, Martha  de  Villasboas  era  o  altar  á  espera  da  filhinha 
que  era  o  idolo  —  altar  e  idolo  de  que  elle  Jorge  de  Men- 
danha era  o  sacerdote,  como  pai  e  esposo.  Martha  era  boa, 
santa  e  virtuosa;  amava  e  era  amada,  estremecida  com 
quanta  adoração  e  nobre  enthusiasmo  põe  a  f é  c  a  felici- 
dade no  Deus  que  nos  reparte  a  sua  infinita  graça.  Jorge 
tinha  coração  amantíssimo  e  generoso,  e  possuia  uma  intel- 
ligencia  elevada  e  poderosa,  que  é  o  ouro  fino  a  realçar  o 
azul  limpidissimo  do  firmamento  vasto  do  amor. 

Que  mais  queria  e  ambicionava  a  frágil  Martha,  para 
encher  a  medida  do  seu  coração  de  mulher  ?  Faltava-lhe  o 
peccado^  o  fructo  amargo  que  se  desfaz  em  cinzas  calcinan- 
tes  como  as  escorias  do  volcão,  faltava-lhe  o  contraste  pa- 
ra bem  saborear  as  doçuras  que  perdia,  os  philtros  que  en- 
venenava !  Veio  a  serpente,  afagada  por  ambos,  e  acoutou- 
se  nos  recessos  felizes  da  casa.  Os  seus  movimentos  oblí- 
quos, as  suas  ondulações  graciosas,  o  seu  roçar  macio,  a 
irradiação  magnética  que  se  evola  em  partículas  invisíveis 
e  subtis  do  reptil,  fascinaram  a  Eva  quebradiça  e  fraca,  e 
perderam-na. 

Quando  Jorge  de  Mendanha  viu  a  sua  boa  santa  e  virtuo- 
sa Martha,  enlaçada  por  aquellas  espiraes  infamissimas, 
que  lhe  haviam  apertado  o  coração  d'clla,  absorvendo-lhe 
todos  aquelles  bálsamos  onde  restaurava  a  sua  alma,  onde 


Correspondência  epistolar  2i3 

curava  as  suas  feridas  que  o  rude  combate  da  existência 
costuma  abrir,  quando  viu  tudo  perdido,  o  seu  éden  açou- 
tado pelas  nortadas,  as  luzes  do  altar  apagadas,  o  seu  Ído- 
lo, a  filha,  suspeita  —  não  podendo  desdar  os  nós  da  ser- 
pente, que  viva  ou  morta,  só  arrancaria  de  sobre  Martha 
com  as  suas  carnes,  o  que  havia  de  fazer  o  amante,  o  es- 
poso, o  representante  da  justiça,  o  sacerdote  da  religião 
da  familiar 

Salval-a  matando-a,  salvar-se  morrendo,  talvez  para  o 
futuro  e  para  a  felicidade  !  e  chamam  a  isto  premeditação^ 
malvadez  fria  e  calculada,  só  porque  Jorge  de  Mendanha 
escabujou  e  debateu-se  24  horas  entre  os  impulsos  do  co- 
ração e  da  honra,  entre  a  procella  ardente  da  paixão  es- 
tuosa  e  devoradora  e  os  austeros  e  implacáveis  accentos 
da  consciência  e  do  dever  ?  Profundo  esquecimento  do  que 
é  a  natureza  humana,  incrível  allucinação  dos  espíritos, 
que  antes  de  pensarem  com  a  intelligencia  dogmatisam 
com  a  piedade,  barata  e  fácil ! 


NOT/^  2/ 


Um  illustre  advogado  dos  Açores,  analysando  o 
Processo  e  julgamento  de  Vieira  de  Castro,  escreve 
as  seguintes  considerações  fulminantes  de  justiça. 
Foram  reimpressas  no  continente.  Ninguém  as  con- 
trariou. 

Ha  bastante  tempo  dissemos  nós  algures  que —  pela  mo- 
ralidade e  illustração  dos  tribunaes  se  aferia  a  decadência, 
o  progresso  e  a  civilisação  dos  estados.  Cada  vez  nos  con- 
vencemos mais  d'esta  grande  verdade — confirmada  pelo 
tempo,  pelos  séculos,  pela  historia. 

Quando  os  Alexandres  talavam  a  Ásia,  os  Scipiões  a 
Africa,  os  Annibaes  a  Itália,  e  os  bárbaros  invadiam  e  es- 
magavam Roma,  já  então  senhora  do  mundo,  a  perversão 
do  funccionalismo,  a  perversão  dos  tribunaes  e  dos  magis- 
trados era  horrorosa  em  taes  paragens  —  ella  foi  a  destrui- 
ção do  mundo  antigo,  como  vai  sendo  a  do  mundo  mo- 
derno. 

Dário  symbolisa  a  um  tempo  a  fraqueza  e  a  suprema 
corrupção  moral. 

A  revolução  franceza,  que  deslumbrara  o  mundo  pela 
intensidade  da  sua  luz,  mas  que  depois  o  ia  crestando,  ti- 


Correspondência  epistolar  2i5 

vera  como  ponto  de  partida  a  corrupção  dos  seus  funccio- 
narios ;  no  governo  do  infeliz  Luiz  x\  i,  até  os  cocheiros  do 
paço  vendiam  os  officios  públicos  e  as  prebendas ! .  .  .  e 
foi  ella,  a  corrupção,  que  matou  a  Polónia,  desmoronou  o 
reino  de  Nápoles,  exilou  a  Isabel  das  Hespanhas,  provo- 
cou a  ruina  da  Gallia  moderna,  desacreditou  a  Roma  de 
nossos  dias.  e  como  que  vai  abafando  até  o  desgraçado 
Portugal. 

Quando  na  própria  capital  da  monarchia  o  jury  dá  de- 
cisões como  a  com  que  tenta  arrancar  â  sociedade  um  filho 
como  Vieira  de  Castro ...  o  desabamento  da  sociedade 
deve  estar  próximo. 

E  a  cidade  applaudiu-a  e  a  imprensa  calou-se,  ou  antes, 
especula.  Porque }  A  moralidade  não  terá  alli  valor  ou  a 
honra  será  uma  utopia } ! 

Está  sanccionado  o  adultério,  a  deshonra  nacional !  Es- 
tamos na  Roma  antiga,  as  matronas  correm  ás  galerias 
para  verem  immolar  a  victima  que  não  gostou  que  a  des- 
honrassem,  Lisboa  não  sobe  ao  capitólio  nem  pôde  descer 
á  arena  dos  gladiadores,  mas  como  a  Grécia  d'outras  eras, 
como  a  Itália  das  Lucrecias  e  como  a  França  das  Pompa- 
dours,  das  du  Barry  e  das  Manons  —  no  fonmt  santifica  o 
adultério,  as  comparsas  applaudem  das  galerias  em  quanto 
os  mais  interessados,  que  são  os  maridos.  .  .  o  sanccionam, 
reconhecendo  a  sua  indignidade  e  a  liberdade  e  a  libertina- 
gem das  mulheres,  partindo  e  para  sempre  os  sagrados  elos 
da  moral,  da  familia  e  da  sociedade,  e  a  imprensa  folga  e 
forja  pamphletos  porque  só  mira  o  dinheiro !  Que  perver- 
são ! 

O  cynismo  e  a  deshonra  como  que  se  elevaram  á  triste 
categoria  de  principio  !  Orgia  infernal !  E  nem  ha  Juvenaes 
que  te  descrevam ! . 

Nd  lugar  onde  a  honra,  o  brio  e  a  moralidade  mais  aus- 
tera deveram  ter  um  altar,  profanam-se  as  aras  e  ergue-se 
o  cutelo  destruidor  das  cadêas  sociaes,  mostra-se  que  a 
honra  não  tem  valor,  que  a  sociedade  despreza  a  moral, 


21 6  Correspondência  epistolar 

que  a  lei  que  devia  corrigir  e  exemplificar  é  letra  morta, 
a  justiça  uma  mentira  e  a  injuria  o  argumento !  Que  deso- 
lação ! 

Deshonra-se  a  victima,  calumnia-se  depois.  .  .  e  depois 
immola-se !  Oh  vergonha  das  vergonhas  ! 

E  houve  um  delegado  que  apodou  a  victima  de  pouco 
religiosa ;  fallou-lhe  do  papa,  e  alfim  disse  aos  jurados  que 
a  esmagassem  porque  já  tinha  praticado  outros  heroísmos 
dignos  d'aquelle.  Que  coragem ! 

Um  tal  procedimento  não  seria  a  maior  affronta  que  se 
podia  cuspir  á  face  d'uma  capital  onde  a  illustração  e  a 
moralidade  o  ocupassem  o  primeiro  lugar  ? ! 

E  como  que  isto  fosse  pouco,  esse  delegado  invocou  o 
poder  moderador  e  disse  que  elle  salvaria  a  victima  da  es- 
tupidez, da  immoralidade  ou  da  perversão  dos  jurados  da 
capital  da  monarchia ;  d'essa  terra  onde  as  esposas  não  te- 
rão obrigação  de  ser  honradas  nem  os  maridos  d 'ora  avan- 
te o  direito  de  lhes  pedir  contas  dos  seus  crimes.  Horror  \ 
E  um  delegado  que  assim  aífronta  a  moralidade  e  faz  des- 
cer os  tribunaes  abaixo  de  tudo,  poderá  continuar  em  tão 
importante  lugar  .^ ! 

E  a  sogra  d'esse  infeliz,  depois  da  filha  o  deshonrar,  fol- 
ga com  a  deshonra  e  manda  perseguir  e  insultar  o  que  ti- 
vera a  desgraça  de  ser  seu  genro !  Oh  moralidade ! 

E  houve  um  advogado  que  na  phrase  mais  chula  e  bai- 
xa lhe  servia  d'instrumento !  Como  esta  classe,  outr'ora 
tão  admirada  e  nobre,  hoje  se  vai  aviltando !  A  sociedade 
dissolve-se ! 

Vieira  de  Castro  teve  a  defeza  mais  nobre  e  mais  com- 
pleta que  pôde  imaginar-se.  As  suas  testemunhas  sahiram 
dos  homens  mais  considerados  do  paiz,  e  o  seu  defensor 
era  digno  d'ellas.  Provou-se  o  adultério  á  saciedade,  a  pai- 
xão que  Vieira  de  Castro  nutria  pela  esposa  indigna  d'elle, 
destruiram-se  todas  as  grosserias  e  embustes  d'accusação  e 
ainda  assim  o  condemnaram.  Isto  nem  pôde  conceber-se  I 
E  elle  foi  tão  cavalheiro  e  extremamente  delicado  que  não 
teve  uma  palavra  para  desabonar  a  que  alli  o  trouxera  e  o 


Correspondência  epistolar  21^ 

deshonrára ;  não  se  quiz  defender  e  até  agradeceu  a  con- 
demnação .  .  .  Tal  é  o  amor  que  o  prende  á  vida ! 

Não  obstante,  accusadores  em  extremo  boçaes  jogaram- 
Ihe  toda  a  sorte  d'improperios,  e  os  filhos  espúrios  da  im- 
prensa, com  a  mira  só  no  interesse,  trataram  de  coordenar 
folictilarios  para  mais  lhe  profundar  as  feridas  e  a  dor  que 
lhe  dilaceram  a  alma,  em  quanto  o  devia  desaggravar,  fa- 
zendo valer  a  justiça  moralisando  os  factos. 

Nem  se  pejaram  de  cuspir  á  face  d'um  tal  homem  e  em 
taes  circumstancias  «que  elle  se  desfizera  da  mulher  porque 
estava  pobre ! »  Infâmia  das  infâmias !  Não  o  estava,  não 
estava  pobre  e  os  pães  são  ricos ;  os  homens  como  Vieira 
de  Castro  nunca  são  ou  estão  pobres. 

E  até  se  diz  que  o  governo  brazileiro  influirá  n'aquella 
condemnação  !  Não  o  podemos  acreditar,  mas  se  é  verdade 
importa  a  deshonra  de  dous  povos ! 

Com  eífeito,  se  não  é  crime  ser  honrado,  republicano  e 
homem  de  sciencia,  Vieira  de  Castro  não  será  roubado  á 
familia  e  á  sociedade.  E,  se  o  fôr,  será  vingado. 

Se  os  tribunaes  superiores  não  annullarem  o  processo  e 
um  outro  jury  o  absolver,  o  poder  moderador,  sempre  ge- 
neroso, ha  de  salval-o :  temos  quasi  a  certeza  d'isto  por- 
que conhecemos  o  caracter  bondoso  e  justiceiro  do  snr. 
D.  Luiz. 

E  comtudo,  se  nos  indigna  o  procedimento  dos  jurados 
e  da  sogra  d'aquelle  desventurado,  não  se  pense  que  nos 
indigna  menos  o  procedimento  do  monstro  que  lhe  abusou 
da  mulher,  e  não  pouco  nos  magoa  a  infelicidade  d'esta. 

Nós  já  dissemos  algures,  que  por  via  de  regra,  as  mu- 
lheres eram  más  porque  os  homens  não  são  bons.  A  indi- 
gnação que  nos  provoca  o  que  nos  parece  grande  injusti- 
ça, não  nos  cega  o  entendimento.  Se  nos  sangra  o  coração 
pelas  desgraças  alheias,  não  é  nosso  intento  desvirtuar  os 
factos,  negar  justiça  ou  desprestigial-a.  Para  o  monstro 
que  viola  o  leito  conjugal  ainda  os  legisladores  não  desco- 
briram pena  condigna. 

É  preciso  ter  respeito  pelos  mortos,  sabemos  d'isto;  mas, 


2i8  Correspondência  {epistolar 

se  cumpre  deplorar  os  que  morrem  deshonrados,  os  olhos 
não  podem  ser  enxutos  ante  os  que  vivem  deshonrados  e 
perseguidos,  senão  até  calumniados ! 

E  se  a  paixão  pela  verdade  nos  desmanda,  discrimine-se 
Lisboa  e  deposite-se  toda  a  confiança  nos  seus  tribunaes 
superiores,  porque  a  condemnação  que  nos  indigna,  porque 
a  suppomos  destituída  de  todo  o  fundamento  moral  e  ju- 
rídico, não  pôde  deshonrar  aquella  ou  estes,  porque  não 
podem  ser  responsáveis  nem  cúmplices,  por  emquanto,  do 
erro  ou  da  maldade  dos  jurados. 

Confunde-nos  pois  a  desgraça  da  mulher  e  do  marido, 
mas  ante  a  lei  e  conveniências  sociaes,  daremos  de  mão  a 
tudo  para  collocar  a  questão  sob  o  seu  verdadeiro  ponto  de 
vista  moral  e  jurídico. 

— O  marido  que  encontrar  a  esposa  em  adultério  e  a  ma- 
tar e  mais  ao  adultero,  não  a  tendo  excitado  para  tal  cri- 
me nem  tendo,  elle  o  marido,  amante  na  casa  conjugal  — 
será  desterrado  por  seis  mezes  para  fora  da  comarca.  Art. 
372.°  do  Código  Penal. 

Ora,  se  o  marido,  em  taes  circumstancias,  pôde  matar  a 
mulher  e  até  o  amante,  porque  os  não  ha  de  poder  matar 
depois.í*  Em  taes  crimes,  o  acto,  o  delicto  não  é  momentâneo  : 
odelicto  acompanha  os  delinquentes,  ferindo  não  só  o  indivi- 
duo, mas  a  sociedade  no  que  ella  tem  de  mais  bello,  de  mais 
nobre  e  de  mais  santo,  e  por  consequência  o  offendido  deve 
desaggravar-se  sempre  e  quando  poder  a  respeito  do  adul- 
tério, que  é  o  maior  de  todos  os  crimes. 

A  virgem  quando  se  mancha,  como  que  só  a  si  se  pre- 
judica mas,  a  mulher  casada  e  a  viuva,  oh !  sim,  a  viuva, 
que  é  virgem  duas  vezes — se  se  mancha,  deshonra  os  vivos 
e  os  mortos,  e  a  mulher  casada  é  ainda  mais  virgem  durante 
o  hymeneu  e  por  isso  não  pôde  ser  violada  de  modo  algum; 
mas,  se  o  fôr . .  .  nem  ella  nem  o  seu  violador  devem  go- 
zar da  luz  apôs  o  crime.  As  nódoas  que  mancham  a  honra, 
sô  com  sangue  se  podem  lavar ! 

Sabemos  que  em  direito  criminal  não  ha  interpretação 
extensiva  e  tão  pouco  se  invocam  os  principios  de  philo- 


Correspondência  epistolar  21  g 

sophia,  mas  ainda  assim,  na  hypothese  sujeita,  suppomos 
poder  concluir  e  sem  esforço  pela  afflrmativa;  isto  é,  pela 
morte  do  adultero  ou  adúlteros,  ainda  mesmo  além  do 
adultério. 

Quando  a  lei  authorisa  a  morte  n'aquelle  acto  é  porque 
não  quer  que  a  respeito  da  verdade  d'elle  fique  a  mais  pe- 
quena duvida :  é  isto  e  só  isto ! 

,:  Pois  se  o  homem  que  fazia  a  melhor  idéa  de  sua  esposa 
vem  de  fora  e  na  melhor  fé,  mas  ao  entrar  em  sua  casa  de- 
para com  o  acto  que  não  esperava  e  que  por  isso  o  manie- 
tou e  não  pode  logo  desaggravar-se,  mesmo  porque  não 
tinha  armas  ou  eram  inferiores  ás  do  sicário  da  sua  honra 
e  de  toda  a  sua  familia,  ou  porque  mesmo  lhe  era  inferior 
em  forças  —  não  ha  de  ter  o  direito  de  o  matar  depois,  com 
a  certeza  d'um  melhor  resultado,  e  sem  que  por  isso  deva 
ser  outra  a  penalidade  ? 

^  Pois  o  marido  que  tem  a  certeza  de  que  a  esposa  com- 
metteu  e  commette  adultério  não  se  poderá  desaggravar 
depois  só  porque  não  observou  o  acto  ? !  Pois  se  os  factos 
se  deram  tem  menos  força  porque  se  não  viram  ?  Pois  os 
factos  não  são  os  factos  ? !  A  questão  reduz-se  tão  somente 
á  exactidão  do  facto.  Desde  que  esta  se  der,  desde  que  se 
provar  a  máxima  exactidão  do  facto  não  se  pódeaggravar 
a  essência  da  verdade  e  tão  pouco  alterar  por  consequên- 
cia as  disposições  penaes  que  o  regem  e  o  capitulam.  Isto 
é  da  mais  simples  intuição  —  está  na  própria  letra  da  lei  e 
não  ha  quem  possa  convencer  nos  do  contrario. 

E  se  isto  é  assim  —  como  é  que  um  jury  na  capital  da 
monarchia  descera  tanto  > !  Das  misérias  que  se  allegaram 
contra  Vieira  de  Castro  nem  uma  se  provou,  e  nem  podiam 
provar-se  por  inadmissiveis !  E  onde  a  accusação  se  não 
prova  nem  tem  lugar  a  defeza.  Isto  é  corrente.  Não  obs- 
tante— a  defeza  foi  a  mais  completa,  a  mais  nobre,  a  mais 
esplendida. 

O  nó  gordio  para  um  jury  d' aqueWa.  /orça  consistia  em 
não  ter  o  infeliz  presenciado  o  adultério  e  ter-se  dado  a 
a  morte   da  esposa  tempo  depois!  Parece-nos  tão  parva  e 


220  Correspondência  epistolar 

baixa  esta  exigência  que  até  nos  repugna  responder-lhe ! 
Mas,  quanto  á  primeira  parte  está  respondida  acima  d'um 
modo  incontestável;  quanto  á  segunda,  até  se  devia  folgar 
em  razão  do  offendido  não  ter  presenciado  o  acto,  prova- 
do á  saciedade  até  pelo  procedimento  do .  .  . 

A  lei  só  tem  direito  de  exigir  a  verdade,  e  é  por  ella  e 
só  por  ella  que  os  seus  executores  devem  fazer  obra.  De- 
mais— Vieira  de  Castro  perdeu  a  cabeça  desde  que  se  con- 
venceu do  criminoso  procedimento  da  esposa,  e  por  con- 
seguinte não  teve  nem  podia  ter  mais  consciência  do  que 
fez,  e  assim  é  claro  que  o  mal,  se  o  houvesse,  não  lhe  po- 
dia ser  imputado.  Isto  é  trivialissimo. 

Entenderiam  aquelles  jurados  que  o  allucinado,  e  alluci- 
nado  por  motivos  de  honra,  devia  até  perder  o  movimen- 
to ? !  Não  lhe  parceria  bastante  a  descensão  do  homem  á 
triste  condição  d'automato  ? !  Os  autómatos  não  se  pu- 
nem. 

Dez  annos  de  degredo  para  a  Africa ...  O  grande  crime 
de  Vieira  de  Castro  estará  no  seu  assombroso  talento  ?  E, 
se  é  certo  que  elle  chloroformisoti  a  mulher,  não  haverá 
n'isto  ainda  um  sentimento  d'amor  e  de  nobreza } 

Convencido  dos  crimes  d'ella,  e  assim,  de  que  o  instru- 
mento de  sua  eterna  deshonra  não  devia  effectivamente 
sobreviver  no  meio  do  seu  desarranjo,  sobre  o  horror  da 
sua  situação  quiz  dar-lhe  morte  suave,  e  n'isto  ha  muita 
nobreza,  devemos  dizel-o. 

Elle  não  é  criminoso  perante  a  moral  ou  ante  as  leis  hu- 
manas; e  assim,  esconda  a  face  o  jury  ignorante  ou  indigno 
e  a  imprensa  estúpida  e  mercenária,  porque  a  verdade  e  a 
justiça  hão  de  triumphar.  Não  barateeis  a  honra  porque 
sem  ella  não  pôde  existir  o  mundo.  A'  maneira  que  ella 
se  abate  afunda-se  elle.  Recordai-vos  da  Roma  de  Juvenal, 
do  baixo  império! 

Cerramos  alíim  estas  linhas  com  os  olhos  afogueados  e  a 
dôr  no  intimo  d'alma  ;  mas  também  com  a  profunda  con- 
vicção de  que  o  martyr  será  salvo. 

Animo,  infeliz !  Se  a  desgraça  tem  poucos  amigos,  ao  me- 


Correspondência  epistolar  221 

rito  e  á  innocencia  devem-se  homenagens.  Ainda  ha  quem 
vele  por  ti  e  por  ti  se  sacrifique,  se  tanto  fôr  preciso.  A 
verdadeira  amizride  nasce  do  coração,  vive  n'alma  e  como 
ella  é  immortal.  Esgota  o  cálix  até  ás  fezes !  A  infelicidade 
é  o  crisol  da  vida  humana. 

A  grandeza  dos  homens  não  se  prova  nem  se  firma  sem 
os  embates  da  dor  e  da  adversidade.  Coragem ! 


Sher 


NOTA  3/ 


Vieira   de   Castro   refere-se   ao  prefacio   do   seu 
bem  pensado  opúsculo  Colónias,  E'  o  seguinte : 


A  poderosa  intelligencia  do  snr.  José  Cardoso  Vieira  de 
Castro  salvou-se  da  catastrophe. 

A  conjuração,  aprofiada  em  perdel-o,  conseguiu  muito : 
desterrou-o ;  mas  não  saciou  a  sede  nem  ensanguentou  á 
farta  os  colmilhos  famintos. 

Vieira  de  Castro  pensa  lucidamente,  escreve  com  a  ele- 
gância dos  seus  dias  ditosos,  pule  primorosamente  os  pe- 
ríodos, sobredoura  os  atavios  das  suas  phrases  imaginosas — 
e  talvez  em  demasia  imaginosas  n'outro  tempo —  com  real- 
ces de  sobriedade  nos  recamos  e  de  propriedade  austera  na 
locução. 

Certa  gente,  porque  não  comprehendeu  a  justiça  do  co- 
ração assassinado,  custou-lhe  a  perceber  que  a  alma  de 
Vieira  de  Castro  sahisse  illesa  das  garras  de  sua  desgraça. 

Imaginavam,  pois,  que  um  homem,  bom  esposo,  respei- 
tador de  sua  mulher  em  si  próprio,  não  podia  tirar-se  hon- 
radamente d'um  conflicto  indescriptivel,  sem  ter  perdido  a 
luz  da  razão. 

Queriam  que  a  demência  precedesse  a  honra  ou  lhe  suc- 
cedesse. 

Entendimento  são,  uma  serie  de  raciocinios  terrivelmen- 


Correspondência  epistolar  223 

te  luminosos  a  relampejarem  no  seio  da  treva  cerrada  da 
maior  desventura,  razão  illesa  nos  seus  vinculos  á  honra,  e 
olhos  bem  abertos  sobre  o  abysmo  em  que  se  despenhava, 
isso  é  que  raros  aceitam  na  calamidade  do  nobilíssimo  in- 
feliz. 

Os  outros,  o  remanescente,  a  maioria  não  quer,  não  con- 
sente que  a  honra  se  desforce  com  as  faculdades  do  espirito 
perfeitas.  Não  quer,  porque  estes  exemplos  mortificam  e 
abrem  uns  escrúpulos  duvidosos  de  vergonha  nas  caras  on- 
de ella  affixara  edital  de  fallida ;  não  consente,  porque  os 
costumes  portuguezes  são  doces  e  angélicos :  a  honra  dos 
maridos  não  se  admitte  sem  a  demência  anterior  ou  poste- 
rior. 

E'  preciso  que  se  explique  n'uma  enfermaria  de  doudos 
o  que  não  pôde  explicar-se  nos  tribunaes. 

Ora  Vieira  de  Castro,  convertendo  em  objecto  de  com- 
miseração  e  sympathias  uma  senhora  que  elle  poderia  ati- 
rar á  ignominia  e  ás  vaias  da  turba  que  a  suífragou,  dava 
de  si  testemunho  de  Índole  cruel  ou  de  razão  perdida. 

A  sociedade  não  podia  aquilatar  nem  mais  alto  nem 
mais  Ínfimo  o  acto  estrondoso,  aggravado  por  outro  feito  de 
requintada  insânia:  o  entrar  elle  decentemente  vestido  n'um 
cárcere,  o  sentar- se  com  apparencias  de  razão  no  banco  dos 
réos,  o  chorar  umas  lagrimas  que  não  tinham  de  certo  o 
agro  do  remorso — lagrimas  só  dignas  de  serem  vertidas  na 
presença  de  Deus  e  no  seio  de  mãi — o  defender  a  integri- 
dade do  seu  juizo  associando-o  aos  dehctos  de  seu  coração. 
Por  tanto  aquelle  homem  não  ensandecera  para  ser. . .  hon- 
rado. 

Suprema  perversidade!  O'  jurados,  ó  juizes,  ó  maridos  ! 
suprema  perversidade!  Condemnai-o  em  nome  da  mansidão 
dos  nossos  hábitos  e  dos  nossos  maridos. 

Condemnaram. 

Mas  dez  annos  de  degredo  !  que  requinte  de  piedade  ! 
que  máu  exemplo !  Não  se  dá  a  um  homem  honrado  coroa 
com  tão  poucos  espinhos.  Dez  annos  sem  pátria,  sem  famí- 
lia, sem  direitos !  isso  que  monta } 


224  Correspondência  epistolar 

Homens  togados  que  tendes  nos  cabellos  a  cor  candidis- 
sima  das  consciências,  venerandos  anciãos  que  tendes  filhas 
e  netas,  vede  se  mataes  no  seio  d 'esse  padecente  o  espirito 
viventissimo  que  ainda  medita  ao  lado  do  coração  morto  •' 
Atirai  peçonha  para  dentro  d'esse  cálix.  Emborcai-lh'o  por 
mão  da  justiça  humana,  se  é  que  o  esparto  do  verdugo  não 
pôde  ataviar  o  accordam  que  ides  lavrar. 

Quinze  annos  !  o  máximo,  o  mais  que  podieis !  Bem  ve- 
des que  não  podia  acidular-se  mais  a  esponja!  Filhas  e  ne- 
tas, beijai  as  mãos  de  vossos  pães  e  avós !  Trasladai  o 
accordam,  e  pendur^i-o  como  painel  no  respaldo  do  leito 
conjugal ! 

II 

A  litteratura  amena  parecia  namorar-se  do  talento  de 
Vieira  de  Castro,  e  acaricial-o  com  formosas  inspirações, 
quando  elle  ingratamente  se  deixou  enfeitiçar  dos  philtros 
da  politica.  A  Pagina  da  universidade^  os  artigos  do  Atheneot 
a  biographia  do  signatário  d'este  prefacio,  e  outras  menos 
lembradas  espécies  de  « humorismo  >  cáustico,  foram  sa- 
crificadas aos  discursos  parlamentares  com  que  Vieira  de 
Gastro  colheu  de  sobresalto  um  dos  primeiros  e  raríssimos 
lugares  da  tribuna.  E,  porque  não  havia  termos  comparati- 
vos das  duas  espécies  litterarias,  o  escriptor  foi  pouco  me- 
nos que  deslumbrado  pelo  oradar.  Não  podia  deixar  de  ser. 

A  tribuna  cerca-se  de  paixões  fortes,  e  o  livro  ameno  con- 
vida meras  curiosidades;  a  tribuna  faz  persuadir  que  os  in- 
teresses da  pátria  estão  alli ;  o  livro  é  um  engodo  de  ocio- 
sidades,  um  brinquedo  de  espiritos  serenos.  E'  por  isso  que 
Vieira  de  Castro,  publicista  a  intervallos  em  meia  dúzia  de 
annos,  não  vingou  sombra  da  gloria  que  o  seguia  ao  sahir 
do  parlamento  depois  do  seu  primeiro  discurso. 

Estão  impressos  os  discursos  que  levantaram  tempesta- 
des, sympathias,  ódios,  admirações. 

Com  que  veneração  os  caudilhos  dos  bandos  políticos 
olhavam  n'aquelle  tempo  para  Vieira  de  Castro!  Que  in- 
censos lhe  vaporaram  os  acolytos  das  facções  nas  ambulas 


Correspondência  epistolar  22$ 

áo  jornalismo!  Que  reptos  de  estylo  pyndarico  não  sahiram 
d'uns  sujeitos  que,  volvidos  dous  annos,  e  cahido  o  orador 
aos  olhos  d'elles,  não  tiveram  palavra  commemorativa  do 
talento  do  homem  de  bem,  inculpado  nas  causas  da  sua  que- 
da !  Parece  incrível  que  Deus  quizesse  fingir  que  dava  in- 
telligencia  a  tanto  villão !  São  estes  uns  biltres  que  resalta- 
ram  da  podridão  social,  collocando-se  debaixo  dos  pés  do 
primeiro  gallego  afortunado,  e  morderam  o  calcanhar  da 
honra  abatida  em  lucta  desigual  com  infames.  Ah !  eu  folgo 
de  lêr  os  artigos  do  Diário  de  Noticias  e  as  correspondên- 
cias do  Commercio  do  Porto  quando  Vieira  de  Castro  ti- 
nha debaixo  da  mão  a  fortuna,  e  a  perspectiva  das  pastas ; 
mas  que  pungimentos  e  vergonhas — vergonhas  á  conta  dos 
thuriferarios  —  quando  leio  as  petulâncias  desbragadas  que 
se  cuspiam  na  porta  de  um  cárcere ! 


III 


No  cárcere,  as  horas  do  snr.  Vieira  de  Castro,  desde 
que  a  Providencia  lh'as  serenou,  são  repartidas  na  convi- 
vência de  alguns  admiráveis  amigos,  na  meditação  cujos 
abysmos  não  sei  medir,  e  no  estudo  de  livros  que  não  or- 
çam pelas  futilidades  adequadas  a  entreter  fora  de  si  mes- 
ma a  alma  excruciada.  Vieira  de  Castro  estuda,  prosegue 
methodicamente  a  pauta  que  havia  imposto  ao  seu  espirito 
applicado  á  solução  dos  problemas  sociaes,  e  á  reparação 
do  abalado  edifício  da  nossa  um  tanto  fabulosa  prosperi- 
dade de  outras  eras. 

D'esse  estudo,  afervorado  pela  religiosa  e  gratíssima 
amizade  que  o  liga  ao  snr.  Pereira  de  Miranda,  intelligen- 
cia  amadurecida  na  flor  dos  annos,  procederam  os  artigos 
acerca  das  nossas  colónias,  e  adstrictos  a  um  projecto  de 
lei  apresentado  ás  cortes  por  aquelle  insigne  deputado. 
Dous  periódicos  publicaram  estes  artigos,  não  precedidos 
de  encomiásticos  «reclames»  ;  mas  postos  ahi  sem  apadri- 
nhamento á  consideração  publica. 

Eu  por  mim,  inhabil  para  os  aquilatar  no  seu  interesse 
VOL.  u  i5 


22Ò  Correspondência  epistolar 

substancial,  consolei-me  em  júbilos,  raros  na  minha  vida, 
lendo,  e  revendo  as  provas  de  um  escripto  do  meu  querido 
amigo,  que  eu  considerava  insensível  ao  calor  das  idéas 
generosas  e  ás  suavidades  do  amor  ao  género  humano,  de- 
pois de  tão  alanceado  ter  sido  no  peito  para  onde  as  almas 
piedosas  deviam  ter  olhado  como  para  um  sepulcro  de 
honradas  cinzas. 

Obriguei-me  ao  doce  encargo  de  os  enfeixar  em  um  opús- 
culo para  que  se  leiam  sem  interrupções  que  desatam  a  ca- 
dêa  das  idéas.  Eil-os  ahi  estão  com  o  duplo  valor  para  mim 
de  terem  sido  clareiras  de  luz  e  socego  na  escura  e  oppres- 
sa  alma  de  um  talento  insigne  entre  os  mais  prestadios  que 
floreceram  n'estes  últimos  dez  annos,  tão  escassos  de  fructos 
como  afestoados  de  flores. 

Sei  que  a  perspicácia  luminosa  de  alguns  leitores  d'es- 
tes  artigos,  rastreou  n'elles  o  intuito  de  grangearem  sym- 
pathias  nos  portuguezes  das  colónias  africanas  que  mais 
vantagens  tem  de  auferir,  se  se  realisarem  as  reformas  in- 
dicadas pelo  snr.  Vieira  de  Castro  nas  tarifas  aduaneiras. 
Não  indagamos  saber  se  s.  exc.^  visava  a  esse  escopo  por 
nos  parecer  banal  a  indagação,  e  por  entendermos  que  nas 
colónias  e  na  metrópole  a  tal  respeito  se  dividem  as  opi- 
niões e  as  vontades.  Por  parte  dos  snrs.  Vieira  de  Castro 
e  Pereira  de  Miranda  é  certo,  porém,  que  o  affecto  e  dedi- 
cação ás  pessoas  e  vantagens  das  colónias  são  antepostas 
aos  interesses  da  metrópole.  Todavia,  pôde  a  sã  razão  afou- 
tamente  esperar  que  em  Africa  se  não  degladiem  legitimas 
divergências  no  applauso  d'cssc  eloquentíssimo  e  sincero 
brado  a  favor  da  emancipação  colonial.  N'estes  artigos 
transluz  homenagem  ao  direito,  á  força,  e  á  iniciativa  por 
vindoura  dos  portuguezes  d'Africa;  mas,  distendendo  a 
idéa  a  mais  universaes  horisontes,  o  trabalho  do  previden- 
te socialista  parece  de  antemão  saudar  o  direito  eterno  e 
revindicado  de  todos  os  povos  do  futuro. 


Correspondência  epistolar  227 


IV 


Assim  fecha  Vieira  de  Castro  este  opúsculo  : 

«...  E'  o  voto  que  ás  altas  aspirações  de  um  grande  ci- 
dadão, e  de  um  grande  amigo,  manda  de  uma  ante-camara 
de  sepultura  um  homem  que  outra  cousa  não  pede  a  Deus, 
senão  que  lhe  marque  n'essas  regiões,  o  mais  breve  que 
ser  possa,  o  lugar  que  lhe  cumpre.  > 

Que  pungentíssima  ironia  atirada  á  face  da  sua  des- 
graça ! 

O  lugar  que  lhe  cumpre ! 

Cumpria,  meu  nobre  amigo,  que  na  ante-camara  da  tua 
sepultura  nunca  vasquejasse  a  luz  com  a  qual  visses  bem 
no  rosto  o  opprobrio  da  tua  orgulhosa  alma,  se,  dado  o 
naufrágio  que  ahi  te  levou  despedaçado,  norteasses  a  tua 
vida  infame  para  onde  os  infames  a  marêam. 

Quando  te  sentires  pender  a  fronte  para  o  seio,  olha  pa- 
ra ti  e  imagina-te  amarrado  a  dous  postes  de  ignominia — 
o  da  deshonra  irremediável  e  o  da  desaffronta  impossível. 

Ou  perdido  perante  o  formidável  juiz  da  tua  consciên- 
cia, ou  isso  que  és. 

Porto  24  de  junho  de  1871. 


Camillo  Castello  Branco. 


NOTA  A: 


A  Consciência  foi  assim  apreciada  na  imprensa  do 
Porto  : 

CONSCIÊNCIA 

Eis  o  titulo  significativo  d'uma  carta,  que  Samuel  ende- 
reça aos  redactores  das  Farpas^  os  snrs.  Ramalho  Ortigão 
e  Eça  de  Queiroz. 

Esta  carta  corre  impressa  n'um  folheto  de  42  paginas  e 
brada  eloquentemente  com  um  grito  triste,  mas  formosa- 
mente sympathico,  d'uma  consciência  magoada  na  sua  deli- 
cadeza d'arminho. 

O  seu  author,  recatado  com  o  pseudonymo  de  Samuel^ 
é  um  espirito  alto,  de  coração  maior,  e  com  um  estylo  for- 
te, magestoso,  opulento  como  uma  larga  flor  de  cactus,  um 
soberbo  manto  de  purpura. 

A  sua  voz  atraiçoa-o,  os  revérberos  da  sua  eloquência 
illuminam-lhe  o  busto.  Nomeie-o  porém  quem  quizer,  que 
nós  contentar-nos-hemos  em  saudal-o  de  longe  com  a  alma, 
que  falia  melhor  e  mais  alto  que  os  lábios. 

N*esta  carta  não  é  uma  doutrina,  uma  theoria  ou  a  ra- 
zão impessoal  quem  diz,  mas  um  coração  dorido,  uma  cons- 
ciência honrada,  que  o  fluxo  e  refluxo  do  mundo  tenta  afo- 
gar e  sumir  nos  rolos  e  dobras  da  sua  espuma,  no  estron- 
dear  dos  seus  rumores  ensurdecentes. 

Devagar.  Sepulte-se  e  esqueça  o  que  deve  passar,  mas 


Correspondência  epistolar  22g 

um  sahe  ao  menos  ao  que  o  infortúnio  baptisou  com  a  sua 
lingua  de  fogo. 

Sigamos  o  torvelinho  dos  nossos  cuidados,  preoccupa- 
ções,  interesses,  ódios  e  amores,  mas  seguremos,  por  entre 
os  baldões  da  tempestade,  essa  urna  das  cousas  sagradas  e 
imperecedouras,  mettamos  esta  eólia  immortal  das  sete  cor- 
das, a  alma  humana  —  aos  sopros  embalsamados  que  vem 
de  cima,  que  por  vezes  cortam  como  um  fio  d'ouro,  um  fio 
do  céo,  o  trama  revolto,  emmaranhado  da  vida  humana. 

No  homem  ha  duas  memorias — uma  resvaladia,  perece- 
doura, material  —  outra  o  contrario  de  tudo  isto.  Na  pri- 
meira escrevem-se  os  factos  de  todos  os  dias,  os  accidentes 
e  impressões  triviaes.  Na  segunda  guarda-se  como  n'um 
sacrário  o  que  vem  da  alma,  de  Deus,  e  que  todos  admira- 
mos com  o  nome  sacrosanto  de  heroísmo. 

Este  sentimento  irresistivel,  espontâneo,  imperioso  d'uma 
alma  que  vê  crescer  em  volta  do  seu  rochedo  d'Ajax,  intré- 
pido temerário  em  nome  da  justiça  e  da  honra,  a  grande 
vaga  do  mundo,  a  grande  maré  do  esquecimento ;  esse  sen- 
timento d'um  espirito  recto  e  pundonoroso,  que  vê  cami- 
nhar o  esquecimento  com  as  fauces  hiantes,  a  sua  cratera 
de  volcão  a  devoral-o,  indifferentemente,  como  se  fora  um 
producto  natural,  um  detrictus,  um  pedaço  de  matéria  inor- 
gânica, eis  o  que  arranca  d'aquellas  entranhas  com  protes- 
to formidável,  uma  reclamação  justíssima  e  fremente. 

Traduzi  aquelle  grito,  decompondo-o,  e  ouvireis  que  elle 
vos  diz : 

«Attenção,  moços  !  que  vos  atiraes  á  corrente,  ávidos  e 
frementes,  para  contar  aos  outros  as  misérias,  ridículos  e 
parvulez  das  suas  evoluções  n'esta  escola  de  natação.  Vede 
bem  e  escutai  bem  o  que  vos  cerca,  vos  comprime,  vos 
acotovela. 

«Apontai  as  tolices  d'aquelle  grupo,  as  impertinências 
d'esse  outro,  e  as  infâmias,  as  protervias,  e  grosserias  d'a- 
quelle  outro. 

«Enterrai  as  vossas  íarpas  que  não  tendes  Achilles  que 


23o  Correspondência  epistolar 

vol-as  cuspam  do  calcanhar.  Isso  ahi  está  bem  podre,  mas 
anda  bem  enfeitado. 

«Nada  de  leviandades,  de  relances  d'olhos :  tomai  do  mi- 
croscópio, esquadrinhai,  investigai,  batei  todas  as  moutas, 
arregaçai  as  vistosas  roupagens  que  dissimulam  tanta  pús- 
tula. Só  assim  é  que  podereis  ser  justos,  proceder  com  scien- 
cia  e  consciência,  e  glorificar-nos  na  vossa  obra. 

«Distrahir-vos  pois,  furtar  os  olhos  de  certo  espectácu- 
lo cuja  revelação  vos  traria  desgostos  e  contrariedades, 
oh !  essa  fraqueza  difíicilmente  se  resgata,  porque  as  victi- 
mas  olhando  em  si  as  vêas  rotas  e  olhando  os  outros,  talha- 
dos em  igual  padrão,  sãos  e  escorreitos,  desviando  com  os 
seus  gestos  e  caricias,  sorrisos  e  complacências  as  vossas 
farpas^  desauthorarão  o  vosso  bom  senso  e  a  vossa  verda- 
de, que  é  desigual,  caprichosa  e  injusta !» 

Samuel  parece  querer  advertir  aqui  Ho  aos  rapazes  deste- 
midos, aos  sympathicos  paladinos  do  bom  senso  e  da  justi- 
ça, os  dous  franco-atiradores  que  fazem  a  guerra  á  torpeza, 
á  immoralidade  e  ao  Protheu  da  toliee  humana  por  sua 
conta. 

Para  que  a  sua  advertência  não  seja  uma  abstracção, 
mas  alguma  cousa  que  lhes  falle  á  sua  musa  impressiona- 
vel,  traz-lhes  para  defronte  um  exemplo  vivo,  concreto,  pal- 
pitante, um  facto  que  elle  viu,  que  o  indignou,  que  lhe  vi- 
brou as  cordas  mais  altas  do  seu  espirito. 

Foi  o  ultraje,  uma  zombaria  villà,  uma  beta  de  sulfur 
candente  que  distillaram  sobre  a  ferida  sempre  viva  d'um 
grande  desgraçado,  no  anniversario  da  sua  catastrophe. 

A  indignação  por  essa  brutalidade  atroz,  jogada  a  um 
infortúnio  respeitável,  foi  ella  a  que  levantou  uma  proposi- 
ção das  Farpas^  em  que  se  enthronisa  a  mulher  portugue- 
za  muito  acima  do  homem  do  mesmo  paiz,  e  converteu  um 
facto  particular  n'um  attributo,  n'uma  manifestação  gené- 
rica e  normal  da  mulher  de  cá ! 

Perdoemos  o  exagero  instigado  pela  mola  impetuosa  da 
paixão,  do  sentimento  pessoal. 


Correspondência  epistolar  23i 

Não  discutamos  se  os  portuguezes  valem  muito  mais  que 
as  portuguezas,  mas  não  esqueçamos  que  se  a  mulher  entre 
nós,  como  em  parte  alguma,  não  é  «o  typo  intolerante, 
avaro,  bulhento,  que  flagella  tudo  e  a  todos,  que  berra  aos 
pobres  que  batem  á  porta  em  nome  de  Deus,  que  castiga 
brutalmente  as  criancinhas  que  estão  alli  em  nome  do  céo, 
por  causa  de  quem  sahem  para  a  rua  os  criados  velhos  que 
alli  ficaram  pelos  antepassados  ;  que  não  tem  afagos  e  bons 
modos  senão  para  duas  creaturas  da  casa,  uma  refinada- 
mente ingrata :  o  gato ;  outra  bestialmente  immunda ;  o 
porco», — algumas  ha  que  não  destoam  d'aquelle  espécimen. 

Pois  sejamos  despiedosos  com  ellas,  mormente  se  essas 
trazem  a  pelle  coberta  com  sedas  de  Lyon,  e  tem  á  porta 
dos  infelizes  que  assim  ultrajam  um  landeau  armoriado... 

Mais  nada  por  hoje,  além  do  agradecimento  que  vota- 
mos ao  author  da  Carta  pela  sua  delicada  offerta. 

{Primeiro  de  Janeiro). 


Acaba  de  publicar-se  um  opúsculo  que  tem  tido  aqui 
justa  e  legitima  voga.  Refiro-me  á  carta  que  com  o  titulo 
de  Consciência^  dirige  um  tal  Samuel  aos  authores  das  Far- 
pas. 

Começa  por  estar  primorosamente  escripta,  escripta  com 
elegância,  vigor,  brilhantismo,  escripta  com  talento.  Outra 
feição  d'este  opúsculo  é  o  tom  da  convicção,  convicção  aus- 
tera e  profunda,  em  que  todo  elle  está  escripto. 

Sem  querermos  entrar  no  pleito  entre  Samuel  e  os  au- 
thores das  Farpas^  sem  querermos  saber  qual  dos  conten- 
dores tem  razão,  não  podemos  todavia  deixar  de  citar  o  ar- 
dor persuasivo  com  que  o  author  da  Consciência  desen- 
volve e  demonstra  as  suas  proposições,  ardor  de  homem 
convicto  e  que  ama  a  liberdade,  o  direito  e  a  justiça. 

Nota-se  isto  particularmente  na  parte  do  opúsculo  em 


232  Correspondência  epistolar 

que  o  Samuel  mette  o  alvião  da  sua  analyse  e  da  sua  criti- 
ca aos  velhos  edifícios  da  monarchia  e  do  catholicismo. 

A  Consciência  é  evidentemente  um  escripto  fadado  para 
a  popularidade  e  para  o  successo^  permittam-me  a  expres- 
são, que  não  pode  ser  mais  afrancezada.  Quando  se  trata 
de  ser  jovial,  perspicaz,  perspicaz  na  observação,  jovial  na 
alegria,  o  Samuel  larga  a  penna  do  critico,  do  moralista, 
do  philosopho,  e  apurando  a  do  escriptor  humorista,  traça 
um  parallelo  graciosíssimo  entre  o  homem  do  campo  e  a 
mulher  do  campo,  entre  o  chapéo  do  litterato  e  o  chapéo 
da  mulher  do  litterato. 

Esquecia  me  indicar  uma  cousa  que  ha  de  dar  grande 
venda  ao  opúsculo — a  revelação  d'um  incidente  em  que 
figura  um  homem  (murmura-se  que  o  Samuel  é  elle  mesmo) 
cujo  infortúnio  despertou,  especialmente  n'essa  cidade,  on- 
de elle  tem  muitos  amigos,  um  sentimento  quasi  unanime 
de  piedosa  sympathia.  E'  um  verdadeiro  escândalo  que  teve 
por  theatro  a  cadêa  do  Limoeiro  no  dia  da  communhào 
dos  presos.  Recommendo-lhes  o  opúsculo. 

(Correspondente  de  Lisboa  ao  Primeiro  de  Janeiro). 

Todos  os  periódicos  de  Lisboa,  exceptuados  os 
que  ainda  estavam  no  prazo  do  seu  aluguer,  falla- 
ram  d'este  opúsculo  com  respeito,  sem  ousar  ferir 
o  author  com  a  compaixão. 


FIM  DAS  NOTAS  AO  VOLUME  SEGUNDO  E  ULTIMO 


J.  P,  OLIVEIRA  MARTINS 


OBRAS    COMPLETAS 


I.  Historia  nacional: 

Historia  da  civilisação  ibeeica,  4.*  ed.  (1897),  1  vol.   br.  700  rs.  Ene.  900. 

Historia  de  Pohtuoai.,  6.»  ed.  (1901),  2  vol.,  br.  1^400  rs.  Ene.  1^800. 

O  Brazil  b  as  colónias  portuguezas,  3.*  ed.  (1888),  1  vol.,  br.  700  ra.  Ene.  90(-. 

Portugal  contemporakeo,  3.*  ed.  (1895),  2  vol.,  br.  2^1000  rs.  Ene.  2^400. 

Portugal  nos  mares,  (1889),  l  vol,,  br.  700  rs.  Ene.  900. 

Camões,  os  Lusíadas  e  a  renascença  em  Portugal,  (1891).  1  vol.,  br.  600  rs. 
Ene.  800. 

Naveoaciones  y  descubrimientos  de  los  portugueses,  (ed.  do  Ateneo  de  Madrid, 
1892),  1  vol.  (não  entrou  no  eommercio.) 

A  VIDA  DE  NuK'ALVARES,  2.*  ed.  (1894),  1  vol.,  br.  2^000  rs.  Cart.  2^400.  Ene.  (fo- 
lhas doiradas)  3^200. 

Os  FILHOS  DB  D.  JoÃo  I,  2.*  ed.,  2  vol.,  br.  1<J400  rs.  Ene.  1^9800  rs. 

O  Príncipe  pertbito,  (1895)  1  vol.,  br.  2^000  rs.  Encad.,  folhas  doiradas,  3^200  rs 


II.  Historia  geral: 

Elemeittos  de  anthropologia,  4.*  ed.  (1895),  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 
As  raças  humanas  e  a  civilisação  primitiva,  2  vol.,  br.    1<?400  rs.  Ene.  1^800  rs 
Systema  dos  mtthos  religiosos,  2.*  ed.  (1895)  1  vol.,  br.  800  rs.  Ene.  1^000. 
Quadro  das  instituições  primitivas,  2.*  ed.  (1893)  1  vol.,  br.  700  rs.  Ene.  900. 
O  regime  das  riquezas,  2.*  ed.  (1894),  1  vol.,  br.  600  rs.  Ene.  800. 
Historia  da  republica  romana,  2."  ed.,  1897,  2  vol.,  br.  2^000  rs.  Ene.  2^1400. 
O  HELLENISMO  E  A  CIVILISAÇÃO  CHRI3TÃ,  2.*  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Enc.  1^000  rs. 
Taboasde  chronologia  b*qeographia  HISTÓRICA,  (1884),  1  vol.,  br.  l^JOOO  rs.  En- 
cadernado 1^200. 


III.  Varia: 

A  CIRCULAÇÃO  fiduciária,  2.*  ed.,  1  vol.  br.  800  rs.  Ene.  IjjOOO  rs. 

A  BEORGANISAÇÃO  DO  Banco  DE  PORTUGAL,  opusculo,  (1877)  br.  150  rs. 

o  ARTIGO  «Banco»  no  Diccionario  Universal  Portuguez,  (1877),  1  vol  ,  br.  500  rs. 

Politica  e  economia  nacional,  (1885),  1  vol.,  br.  700  rs. 

Projecto  de  lei  de  fomento  rural,  apresentado  à  camará  doa  deputados  na  sessão 

de  Í887,  1  vol.,  br.  300  rs. 
Elogio  histórico  de  Anselmo  J.  Braamcamp,  ed.  part.  (1886),  1  vol.  (esgotado). 
Theophilo  Braga  e  o  Cancioneiro,  opúsculo,  (1869)  esgotndo. 
O  Socialismo,  (1872-3),  2  vol.,  br.  1^200.  (Esgotado) 
As  ELEIÇÕES,  opúsculo,  (1878),  br.  200  rs. 

Carteira  de  um  jornalista  :  I.  Portugal  em  Africa,  (1891),  1  vol.,  br.  400  rs. 
Inglaterra  de  hoje,  cartas  de  um  viajante,  2.*  ed.,  (1894),  1  vol.,  br.  600  rs. 
Enc.  800. 
Oartas  peninsulares,  (1895),  1  vol.  br.  600  rs.  Enc.  800  rs. 


Parceria  António  Maria  Pereira 

LIVRARIA   EDITORIA 
Rna  Angnsta,  60,  02  e  64  —  LISBOA 


Obras  de  José  Quintino  Travassos  Lopes 


Nova  grammatica  elementar  da  lingua  portu- 
gueza9  redigida  segundo  as  theorias  modernas,  e  contendo 
quadros  synopticos  muito  úteis,  cart.  160  réis. 

Compendio  de  arithmetica  e  systema  métrico, 
28.*  edição,  contendo  29  gravuras  e  mais  de  2.000  exerci- 
dos e  problemas,  reformado  segundo  os  actuaes  program- 
mas,  br.  200  réis,  cart.  280  réis. 

Resumo  de  arithmetica  e  systema  métrico,  5.* 
edição,  muito  augmentada  e  contendo  13  gravuras,  appro- 
vado  pelo  antigo  conselho  superior  de  instrucçâo  publica, 
br.  100  réis,  cart.  180  réis. 

Dois  mil  exercícios  e  problemas  de  arithmeti- 
ca e  systema  métrico»  abrangendo  os  programmas  do 
ensino  elementar  e  complementar,  em  br.  160  rs.,  cart.  240  r«. 

Compendio  de  historia  pátria,  13.*  edição,  refor- 
mada, e  contendo  no  fim  uma  noticia  resumida  dos  factos 
principaes  de  cada  reinado,  br.  160  réis,  cart.  240  réis. 

Compendio  de  historia  sagrada,  2.*  edição,  illus- 
trada  com  muitas  gravuras,  approvado  pelo  antigo  conse- 
lho superior  de  instrucçâo  publica,  br.  160  réis,  cart,  240  rs. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas :  primeiras  li- 
ções sobre  objectos.  —  1."  parte,  9.»  ediçfso,  muito 
augmentada,  ornada  com  gravuras  e  vinhetas,  dedicada  ás 
creanças  de  7  a  9  annos,  br.  160  réis,  cart.  240  réis ;  com 
encad.  de  luxo  para  prémios  e  brindes,  300  réis. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas:  primeiras  li- 
ções sobre  objectos.— 2.*  parte,  6.*  edição,  ornada  com 
gravuras  e  vinhetas,  dedicada  ás  creanças  de  10  a  12  annos, 
br.  160  réis,  cart.  240  réis;  com  encad.  de  luxo,  para  pré- 
mios e  brindes,  360  réis. 

Leituras  Correntes  e  Intuitivas,  obra  adoptada 
para  o  ensino  official  primário,  300  réis,  cart. 

Historias  de  animaes^  sua  vida,  costumes,  ane- 
cdotas,  fabulas,  etc.  —  noções  amenas  de  zoolo- 
gia para  creanças  —  lições  sobre  objectos,  3  volu 
mes,  obra  interessantíssima,  ornada  com    400   gravuras  e 
vinhetas,  br.  200  réis  cada  volume,  cart.  280  réis ;  com  en 
cad.  de  luxo,  para  prémios  e  brindes,  400  réis. 

Os  contos  da  avozinha,  coUecção  illustrada  de  his- 
torias, lendas,  fabulas  e  contos,  com  300  gravuras,  3  vo- 
lumes, br.  i60  réis,  cart.  240  réis,  com  encad.  de  luxo, 
para  prémios  e  brindes,  360  réis  cada  volume. 

Noções  elementares  de  geometria  intuitiva,  con 
tendo  97  gravuras,  br.  100  réis,  cart.  180  réis. 

Grammatica  elementar  da  lingua  portugueza, 
22.«  edição,  br.  160  réis,  cart.  240  réis. 

Parceria  António  Maria  Pereira  —  Livraria-editora 

Rua  Augusta,  50,  52  •  54  —  LISBOA 


Enfeakelro  m»ehliilBta,  eapltio-tenente  graduado  da  Armada 
INDISPINSATEIS  1  INDUSTRIAES,  OPERÁRIOS,  ENGENHEIROS,  ARCHITECTOS,  RC. 

Engenheiro  (O)  d'algibeira,  livro  portátil  e  utilissimo, 
espécie  de  vademecum^  onde  se  acham  compendiadas  grande 
quantidade  de  formulas  e  dados  práticos  com  applicação  á 
engenheria  nos  eeus  differentes  rarros;  3.*  edição  muito 
augmentada.  Este  livro  deve  ser  o  companheiro  indispen 
sável  do  contra- mestre,  do  mestre,  do  architecto  e  final- 
mente do  engenheiro;  para  todos  tem  matéria  útil.  Livrinho 
nitidamente  impresso,  contendo  mais  de  150  tabeliãs.  — 
Preço  800  réis  br.,  1|;000  réis  ene. 

Guia  do  fogueiro  conductor  de  machinas  de  va- 
por, approvado  pela  associação  dop  engenheiros  civis  por- 
tugueses. Livro  escripto  expressamente  para  servir  de  en- 
sinamento pratico  aos  fogueiros,  e  em  harmonia  com  a 
portaria  do  ministério  da  marinha  que  obriga  esta  classe 
de  individuos  a  serem  examinados.  Contém  230  paginas 
em  S*  francez,  com  bastantes  gravuras  intercaladas  no 
texto  e  duas  bellas  estampas,  2.*  edição. — Preço  800  rs.  br., 
li^lOO  réis  ene. 

Guia  de  mechanica  pratica,  precedida  de  noções  ele- 
mentares de  arithmetica^  álgebra  e  geometria  indispensá- 
veis para  facilitar  a  resolução  dos  diversos  problemas  de 
mechanica.  Volume  de  557  paginas  em  oitavo  francez,  ni- 
tidamente impresso,  contendo  mais  de  cem  gravuras  inter- 
caladas no  texto  e  cinco  bellas  estampas  no  íim.  Livro 
indispensável,  não  só  aos  industriacs,  mas  a  todos  os  indi- 
viduos que  desejarem  pôr  em  pratica  quaes  (uer  trabalhos 
mechanicos. — 6.*  edição.  Preço  J  ^600  rs.  br.,  1|1900  rs.  ene. 

Manual  elementar  e  pratico  sobre  macliinas  de 
vapor  maritimas  antigas  e  modernas,  com- 
preliendendo  as  de  dupla,  tríplice  e  quadru- 
pla expansão —Livro  utilisnmo  para  quem  precisa 
fazer  algum  estudo  sobre  machinas  mariíimas,  construil-as, 
mandal-âs  construir,  ou  dirigil-as.  Vol.  de  420  pag.  em  8.® 
francez,  contendo  40  gravuras  intercaladas  no  texto  e  2 
magnificas  estampas.  Os  engenheiros  machinistas  encon- 
trarão n'este  livro  indicações  de  grande  utilidade  para  o 
desempenho  da  sua  difficil  missão.  Preço  2^1000  réi»  br., 
2^400  réis  ene. 

Manual  de   noções  elementares  de  technologia. 

Livro  utilissimo  para  todos  os  que  se  dedicam  á  industria, 
e  tratando  dos  seguintes  assumptos: — Madeiras.  —  Ro- 
chas e  pedras.  —  Carvão.  —  Metaes.  —  Matérias  textis.  — 
Construcções.  Adornado  de  muitas  gravuras  explicativas. 
Preço  600  réis  br.,  700  réis  ene. 
Opúsculo  acerca  das  machinas  mixtas  de  alta  © 
baixa  pressão,  applicadas  aos  navios  movidos  a  vapor. 
2."  ecUgào,_Pr«ço^600  réu  br.,  800  réis  ene. 


ICill 


■(.■•/í-fííW 


!í  fíí'? 


m  1  i^ixiy  MMiax  msioA 

V     V  í"'*?  V'*  í'\    íí